Entrevistas, Resenhas, Teatro
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O espírito nômade do Amok

Atrás de uma fachada charmosa, um país inteiro vive. Rodeado por paredes de tijolos e sob um pé direito que nos permitiria empilhar as memórias de uma vida, lá está o Amok, e não está em vão. Companhia teatral carioca temperada pelo sotaque francês de Stephane Brodt e pela doçura de Ana Teixeira, os diretores, o Amok segue a lógica típica de um teatro de grupo genuíno: regida por valores bem diferentes de um teatro puramente comercial. Aqui, sobre o piso de madeira, ao lado de uma icônica cortina vermelha, os valores de mercado só existem enquanto objetos de estudo. “O quê precisa ser dito” é a premissa que dá início a cada um dos seus trabalhos.

O primeiro espetáculo estreou em 1998, mas só em 2003 sua casa foi inaugurada. A Casa do Amok foi comprada com o dinheiro recebido num prêmio do Governo do Estado do Rio de Janeiro pelo espetáculo “Carrasco”. Ana conta como foi ganhar algo assim numa época em que políticas de cultura não passavam de possibilidades:

Ana Teixiera, diretora do Amok

Ana Teixiera, diretora do Amok

– Apesar de ser um prêmio pessoal, quem o pagou foi o contribuinte do Rio de Janeiro, e por isso encaramos esse espaço como um lugar de acolhimento. Desde a fundação, nossa casa acolhe quem não tem acesso a uma formação de qualidade, a um espaço de trabalho. Todas as nossas oficinas, quando não são gratuitas, tem uma cota de bolsa. É a maneira de darmos o retorno.

Quem assiste a uma peça do Amok tem a impressão de que vê a pontinha de um iceberg. É o que se espera de um grupo que trabalha com valores como permanência, continuidade e perseverança. Os espetáculos são obviamente importantes, mas são objetos efêmeros e pontuais. Por trás de cada um deles está um longo tempo de exploração e pesquisa. Nas palavras de Ana, “um projeto de companhia não se resume à produção de espetáculos”:

– Um projeto de grupo vê a atividade teatral como uma coisa muito mais ampla, que envolve muito mais atividades. A formação dos atores, por exemplo, é muito importante. Eu diria que sou mais pedagoga que diretora de teatro, até porque os processos de direção estão ancorados num processo pedagógico. Cada novo projeto é um novo desafio que nos obriga a procurar outros caminhos. Não há como escapar. Uma nova linguagem cria a necessidade de buscar novos caminhos, novos atores, nova formação.

Partindo sempre do princípio de que teatro não é cópia da realidade, e sim transposição, o grupo cria suas peças. Pergunta-se sobre o que quer dizer e o que precisa ser dito, dá início às suas pesquisas e consegue material suficiente para mais de um espetáculo. Foi assim com a Trilogia da Guerra, conjunto de três peças que trazem a temática dos conflitos à tona. Antes dela veio o Ciclo das Sombras, também composto por três espetáculos que exploravam o lado sombrio do ser humano.

No Amok, cada peça tem um antes e um depois: antes dela está o trabalho de investigação sobre o tema, e depois, no maior estilo “trupe teatral”, vem a circulação:

Stephane Brodt em "Cartas de Rodez"

Stephane Brodt em “Cartas de Rodez”

– A gente ama viajar com os espetáculos, a gente ama o interior. Estamos sempre envolvidos em projetos de descentralização, porque acreditamos que um espetáculo é feito para andar, e não ficar limitado à zona sul do Rio. A gente ama ir para a estrada, ao encontro do público – Ana conta com os olhos brilhando.

À noite, a Casa do Amok é reservada para grupos jovens apoiados pela companhia. Quando chegamos para a entrevista, Ana foi simpática, puxou umas cadeiras e, olhando para o chão de madeira, um pouco sujo, se perguntou quem o teria deixado assim.

– A gente entra aqui para trabalhar, para entrar num processo de criação ou pesquisa, por isso esse espaço é abordado de uma forma muito cuidadosa. É um espaço de concentração, de revelação e superação. O solo é um suporte para o trabalho do ator, assim como a tela é para o pintor. Aqui a gente não entra de sapato, a gente não fuma, não come, não bate papo – ela explicou, com a voz doce, e eu me senti culpada por ainda estar calçada. Tirei os tênis e dei início à entrevista.

Texto originalmente publicado na revista da editora Monotipia e adaptado para o Literasutra

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