Mês: agosto 2014

Um filme de pouca mobília e muito significado

“Cão sem dono” (Brasil, 2007) é a versão cinematográfica de “Até o dia em que o cão morreu”, primeiro romance de Daniel Galera.  Fruto da primeira parceria dos diretores Beto Brant e Renato Ciasca com o escritor e roteirista Marçal Aquino, o longa-metragem cumpre muito bem seu papel de adaptação. Por ser fiel à questão central do livro, é capaz de gerar os mesmos sentimentos e inquietudes que o romance. Anúncios

A diferença entre usar sangue e ketchup

É enorme a diferença entre uma atuação e uma performance, e para ensinar isso não há ninguém melhor que a “avó da arte da performance”, como ela mesma gosta de se chamar. Marina Abramovic – Artista Presente (“Marina Abramovic – The Artist is Present”, Estados Unidos, 2011) nos traz a obra mais contundente da artista sérvia: aproveitando a retrospectiva organizada pelo MoMA em sua homenagem, em 2010, ela passou 736 horas sentada, em silêncio, recebendo aqueles dentre os 850 mil visitantes da mostra que tiveram coragem de se sentar diante dela.

Livrinho de aeroporto

Terminada minha leitura de “Nu, de Botas”, eu estava ávida para ler os comentários de outros leitores, então fui até o Goodreads. Poderia dizer que todos eles, sem exceção, exultavam as qualidades do livro de Antonio Prata, se não fosse por um dito cujo que dizia: “livrinho de aeroporto, muito ruim”. De fato, foi o comentário mais verdadeiro de todos, se considerado apenas o pré-vírgula. “Nu, de botas” é mesmo um livrinho de aeroporto. No diminutivo por ser curto demais para algo tão divertido, e “de aeroporto” por ser capaz de capturar a atenção mesmo num lugar tão barulhento.

Era elo, era pacto, era transa

Um nome de livro e de filme; um nome tão grande para uma revelação ainda maior. É claro que você sabe quem é a Camila Pitanga, mas nunca a viu como em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Brasil, 2011). A atriz surpreende pela forma como se entrega a Lavínia, certamente a personagem mais densa de sua carreira até então. Seu magnetismo em cena é tão grande que, não fosse pela maestria com que Beto Brant e Renato Ciasca dirigiram a bela adaptação do livro homônimo de Marçal Aquino, eu poderia assumir uma metonímia e dizer que o filme é a própria Camila.

São Paulo Neo Noir

Em toda cidade, em toda esquina, existe um monstro sem nome nem corpo que silenciosamente ataca. Sem nenhuma distinção, toma a todos como vítimas. Para evitar que digam que tudo não passa de lenda urbana, adotemos um nome pomposo, possivelmente já citado no meio acadêmico: chamemos o monstro de “condicionamento do olhar”.

Inevitavelmente pó

Simpatizo com a ideia de ser cremada. Ser consumida por vermes e insetos me causa aflição. Mas alguém cremado vira cinzas, e aí surge a questão: Ou você fica eternamente enclausurado num recipiente mórbido que, com alguma sorte, receberá um lugar de respeito na casa de alguém, ou você pede para que alguém (provavelmente o mesmo que te guardaria num recipiente) jogue suas cinzas em algum lugar simbólico – o mar, o jardim – e lá se vai você, sendo comido outra vez, mas agora bem passado.

“Tarde demais pra morrer jovem”

O protagonista de “Até o dia em que o cão morreu” é um homem sem nome nem rosto, pode ser qualquer um. Aos 25 anos, recém-formado em Letras, permanece dependente dos pais. Se precisasse justificar sua condição, diria que é reflexo de um mercado de trabalho injusto e nada acolhedor. Mas este homem, na verdade, está acomodado, em certa medida até satisfeito. Este homem sem nome é o retrato de parte de uma geração. “Permanecia uma hora inteira mergulhado dentro da banheira, escutando música, até a água ficar fria. E especialmente ali, dentro d’água, eu me sentia cansado. Velho, em certo sentido. No sentido de que era tarde demais pra morrer jovem”. (Pág. 91)

A corrida errante na cabeça

Meu primeiro contato com Herta Müller me gerou muitos sentimentos, e não há maneira mais eficiente para explicar estes sentimentos que não seja citando as palavras da própria, encontradas no objeto que me proporcionou este tal primeiro encontro: “Se devo explicar porque considero um livro rigoroso e outro raso, só posso apontar para a densidade dos trechos que evocam a corrida errante na cabeça, trechos que imediatamente puxam meus pensamentos para onde as palavras não podem permanecer. (…) Toda boa frase na cabeça desemboca lá onde aquilo que ela desencadeia fala de outro modo consigo do que em palavras. E se digo que livros me transformaram, foi por esse motivo” (Pág. 22) E pronto, é exatamente isto. Esta romena conseguiu me tocar de uma forma que não consigo descrever com precisão. Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2009, em “O rei se inclina e mata”, este belo livro de capa amarela que ela mesma ilustrou, Herta reúne ensaios nos quais se questiona sobre sua própria escrita e história. E acredite, tudo isto é fascinante.

“Saber que é comestível torna a pessoa viva”

Um escritor de romances água com açúcar de repente se descobre sobrevivente do apocalipse zumbi. E assim começa “A noite devorou o mundo”, livro que poderia ser mais um entre tantos outros sobre o tema. Mas o romance de Pit Agarmen (pseudônimo de Martin Page) foge dos clichês literários e cinematográficos estabelecidos até então. Não há nenhum cientista que se lança numa busca incansável pela cura, nenhuma criancinha asmática tentando sobreviver, nenhuma experiência secreta do exército norte-americano que tenha saído do controle. A história não se rende nem mesmo ao clichê da reinvenção das criaturas clássicas: Os zumbis não brilham no sol, não são super rápidos nem dotados de grande inteligência; são os mesmos morosos e macilentos de sempre. Embora tudo isso conte pontos a favor, o que torna o livro tão envolvente e intrigante é outra coisa: Nessa história de zumbis, os mortos-vivos são apenas um pretexto; o tema na verdade é a sociedade de consumo sob os olhos de um crítico feroz. “As certezas arrogantes da nossa espécie permitiram que um inimigo inesperado nos reenviasse à pré-história” …