Livro, Resenhas
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“Saber que é comestível torna a pessoa viva”

Um escritor de romances água com açúcar de repente se descobre sobrevivente do apocalipse zumbi. E assim começa “A noite devorou o mundo”, livro que poderia ser mais um entre tantos outros sobre o tema. Mas o romance de Pit Agarmen (pseudônimo de Martin Page) foge dos clichês literários e cinematográficos estabelecidos até então. Não há nenhum cientista que se lança numa busca incansável pela cura, nenhuma criancinha asmática tentando sobreviver, nenhuma experiência secreta do exército norte-americano que tenha saído do controle. A história não se rende nem mesmo ao clichê da reinvenção das criaturas clássicas: Os zumbis não brilham no sol, não são super rápidos nem dotados de grande inteligência; são os mesmos morosos e macilentos de sempre. Embora tudo isso conte pontos a favor, o que torna o livro tão envolvente e intrigante é outra coisa: Nessa história de zumbis, os mortos-vivos são apenas um pretexto; o tema na verdade é a sociedade de consumo sob os olhos de um crítico feroz.

“As certezas arrogantes da nossa espécie permitiram que um inimigo inesperado nos reenviasse à pré-história” (pág. 201).

Não sou muito versada em literatura zumbi, inclusive vi alguns comentários dizendo que o autor não foi nada inovador, mas esta é a primeira vez em que vejo um apocalipse zumbi sob a perspectiva francesa. E isto produz uma cena emblemática: após alguns dias de epidemia, quando a situação se mostra irreversível, acaba a energia elétrica e a Cidade Luz se apaga. Nesse cenário desolador que Antoine Verney inexplicavelmente sobrevive. Ele, que sempre teve a sensação de pertencer a uma espécie diferente, que se sente deslocado desde a infância, é deixado à margem até no processo de contaminação; ele sobra. Ilhado no terceiro andar de um prédio no bairro de Pigalle, em Paris, ele reflete sobre sua situação em tom sarcástico.

“Não me inquieto, a espécie humana sobreviverá. Somos as verdadeiras baratas do mundo: resistentes a tudo. Mas a Terra já não nos pertence; entregamos as chaves”. (Pág. 114)

Num mundo praticamente livre de seres humanos, a natureza sobressai, toma seu próprio rumo. Enquanto todas as plantas de vaso morrem, outras se espalham e escalam paredes, simbolizando o fim do domínio humano sobre elas. A cidade finalmente respira e relaxa. Gatos e cachorros também conquistaram sua independência. Livres de suas condições de escravos dos seres humanos, agora eles também são o inimigo, capazes de atrair os humanos como isca para os zumbis – porque o acordo diplomático com os mortos-vivos é muito mais fácil, sem nenhuma relação de dominância; trata-se apenas de demarcar seus respectivos territórios.

Enquanto isso, o personagem enclausura-se de forma a sobreviver à catástrofe que corre lá fora e à loucura que ameaça tomar conta de si próprio. Apesar de extremamente crítico e anti-social (na verdade, justamente porque é assim), esse escritor renegado nos cativa com suas reflexões, e entre elas descobrimos juntos que existe algo bem pior que a onipresença do predador.

A narrativa é em primeira pessoa, em formato de diário. É envolvente, nada cansativa. A história é contada entre tiradas muito boas, com trechos bem interessantes, mas em alguns momentos quase esbarra no piegas. Cada capítulo (divido por dias de anotação no diário do personagem) tem em média quatro ou cinco páginas, o que facilita a leitura. No geral, o trabalho editorial do livro é muito bom, perdendo pontos apenas na revisão, que deixou passar uma coisa ou outra. E eu gostei bastante da capa.

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Título original: “La nuit a dévoré le monde”
Autor: Pit Agarmen (pseudônimo de Martin Page)
Editora: Rocco
Páginas: 208
Sinopse: Neste inusitado romance de terror e de zumbis, o francês Martin Page, autor do bestseller “Como me tornei estúpido”, faz uma fábula sobre a sociedade de consumo, sob o pseudônimo de Pit Agarmen. No livro, uma epidemia assola o planeta e transforma os humanos em seres demoníacos, selvagens e cruéis. Antoine Verney é um sobrevivente, mas não tem nada de herói. Como um Robinson Crusoé moderno, ele tem que aprender a sobreviver e a enfrentar a solidão.

2 comentários

  1. Monalisa,
    um dos grandes “problemas” da resenha é que ela nos engana: transferimos para o livro resenhado o valor que vemos na escrita do resenhista em si. Não tenho a menor inclinação por esse tipo de literatura, mas seu texto realmente me deu vontade de dar uma chance ao livro. Obrigada!

    Sua resenha também me fez pensar que, em certo ponto, “Ensaio sobre a Cegueira” pode ser encarado como uma espécie de apocalipse zumbi. Só que naquele caso, todos são zumbis para algum outro alguém.

    Curtido por 1 pessoa

    • Gabriela, também nunca tinha pensado isso sobre o “Ensaio sobre a cegueira”. Genial.
      E obrigada pelo elogio! Eu também não tenho muita inclinação por esse tipo de literatura, comprei porque gostei do título e das primeiras páginas. Acabei gostando de tudo. Mas antes de comprar, te recomendo a dar uma lida de teste na livraria ou pegar emprestado com alguém. Eu posso emprestar pra você, se quiser 🙂

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