Livro, Resenhas
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A corrida errante na cabeça

Meu primeiro contato com Herta Müller me gerou muitos sentimentos, e não há maneira mais eficiente para explicar estes sentimentos que não seja citando as palavras da própria, encontradas no objeto que me proporcionou este tal primeiro encontro:

“Se devo explicar porque considero um livro rigoroso e outro raso, só posso apontar para a densidade dos trechos que evocam a corrida errante na cabeça, trechos que imediatamente puxam meus pensamentos para onde as palavras não podem permanecer. (…) Toda boa frase na cabeça desemboca lá onde aquilo que ela desencadeia fala de outro modo consigo do que em palavras. E se digo que livros me transformaram, foi por esse motivo” (Pág. 22)

E pronto, é exatamente isto. Esta romena conseguiu me tocar de uma forma que não consigo descrever com precisão. Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2009, em “O rei se inclina e mata”, este belo livro de capa amarela que ela mesma ilustrou, Herta reúne ensaios nos quais se questiona sobre sua própria escrita e história. E acredite, tudo isto é fascinante.

A começar pelo estilo cativante, de leitura fluida, e uma imensa capacidade de se expressar. Talvez seja preciso reconhecer a insuficiência das palavras na tarefa de dizer o que realmente precisa ser dito, e somente depois disso uma pessoa é capaz de se comunicar bem. Assim como a autora.

“Não é verdade que há palavras para tudo. Também não é verdade que sempre se pensa em palavras. (…) Os meandros interiores não coincidem com a linguagem, eles nos levam a lugares onde as palavras não podem permanecer. (…) A crença de que falar destrincha os emaranhados só conheço do ocidente. Falar não conserta nem a vida no milharal e nem aquela sobre o asfalto. Também só conheço do ocidente a crença de que não se pode suportar o que não tem sentido”. (Pág. 16)

Outro aspecto que encanta é seu olhar, sua sensibilidade ao tratar de um assunto árduo como a ditadura, e mesmo assim apresentá-lo com sabedoria e leveza. Pois é pelos olhos de uma Herta criança, criada no campo, que somos guiados por uma Romênia sob o domínio do ditador Ceaucescu.

“Eu não queria ser apanhada por esse panoptico florescente que esbanjava todas as cores (…) Eu não conseguia me arranjar com o fato de estar viva no círculo de comilança das plantas (…). Eu sempre via que o campo só me alimenta porque quer me devorar mais tarde”. (pág. 15)

Com muita habilidade, Herta Müller reflete sobre a linguagem como instrumento de poder e repressão, mas também como possibilidade de resistência e autoafirmação. E de tudo isso, nos deixa com um ensinamento valioso: nunca subestimar as palavras. No mais, é muito simples: “O rei se inclina e mata” nos provoca a corrida errante na cabeça, ou nas palavras de um querido ex-professor, nos é arrebatador.

CapaTítulo original: “Der König verneigt sich und tötet”
Autora: Herta Müller
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 216
Tradução: Rosvitha Friesen Blume
Sinopse: O rei se inclina e mata, coletânea de ensaios que a Biblioteca Azul acaba de publicar da escritora Herta Müller,  é  “totalmente autobiográfica”, na definição da própria autora. O livro inicia-se com suas memórias de infância em Nitzkdorf, uma pequena aldeia na região do Banat romeno. Nela, a menina Herta começa a construir a relação muito própria com as palavras que manteria na maturidade, relação cheia de astúcia, já intuindo que, criadas para se falar e pré-validadas pelos “de fora”, as palavras mais subjugam do que qualquer outra coisa – mesmo quando proibidas de serem ditas.

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