Livro, Resenhas
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“Tarde demais pra morrer jovem”

O protagonista de “Até o dia em que o cão morreu” é um homem sem nome nem rosto, pode ser qualquer um. Aos 25 anos, recém-formado em Letras, permanece dependente dos pais. Se precisasse justificar sua condição, diria que é reflexo de um mercado de trabalho injusto e nada acolhedor. Mas este homem, na verdade, está acomodado, em certa medida até satisfeito. Este homem sem nome é o retrato de parte de uma geração.

“Permanecia uma hora inteira mergulhado dentro da banheira, escutando música, até a água ficar fria. E especialmente ali, dentro d’água, eu me sentia cansado. Velho, em certo sentido. No sentido de que era tarde demais pra morrer jovem”. (Pág. 91)

E assim segue sua vida, dia após dia se contentando em viver com o mínimo possível. Até que, caminhando pela rua, ele cruza o caminho de um cachorro. O bicho começa a segui-lo, e como qualquer tentativa de impedimento caracterizaria um esforço aquém de seu costume, o homem permite que o cachorro entre em seu apartamento. Pouco tempo depois, Marcela, uma modelo sonhadora, também entra em sua vida e torna-se presença constante.

“Todos os sonhos dela estavam marcados para dali a três, cinco, dez anos. Nenhum deles valia pra agora, pro dia em questão. Me dava agonia ver alguém de preparando constantemente pra começar a viver” (Pág. 24)

E é assim, repentinamente povoada por outras vozes além de sua própria, que a vida deste personagem praticamente irrelevante começa a dar indícios de mudança. Acostumado ao seu cotidiano insosso, agora ele precisa escolher entre manter-se em sua zona de conforto ou arriscar-se na instabilidade de uma relação com outros.

Daniel Galera transpõe para a literatura muitas das questões da juventude atual, e o faz com destreza. A narrativa é inteligente, no roteiro nada sobra. “Até o dia em que o cão morreu” é o tipo de romance que nem mesmo o spoiler contido no título é capaz de estragar a leitura; o estilo do autor compensa qualquer coisa.

O livro quase chega à centésima página, mas para ali, pela nonagésima nona, deixando pairar uma pergunta sem resposta. Mas aqui vai minha dica. Sendo este o segundo romance que leio do autor, posso criar uma regra: Se é de Daniel Galera, volte imediatamente ao início assim que chegar ao final. O mesmo vale para “Barba ensopada de sangue”, seu badalado romance de 2012.

*Fique ligado no Literasutra e saiba mais sobre “Cão sem dono”, a adaptação deste livro para o cinema, e também sobre “Barba ensopada de sangue”, o outro romance de Daniel Galera citado nesta resenha.

2658686Título: “Até o dia em que o cão morreu”
Autor:
Daniel Galera
Editora:
Companhia das Letras
Páginas:
104
Sinopse:
 Depois de alugar um apartamento vazio no centro de Porto Alegre, um homem de cerca de 25 anos gasta os dias olhando a cidade pela janela, bebendo cerveja e caminhando pela vizinhança. Até que um cachorro aparece em sua porta, e uma modelo chamada Marcela entra em sua vida.

11 comentários

  1. Pingback: Um filme de pouca mobília e muito significado | literasutra

  2. Oi Monalisa, tudo bem?

    Não conhecia o livro, nem o autor, mas fiquei intrigada. Eu gosto de livros que trabalham com ciclos de amadurecimento e superação, e esse me parece ser um deles, ainda mais por esse detalhe do final.
    Achei legal também o autor falar sobre essa nossa geração “empurra com a barriga”.

    Beijos,

    Pah – Livros & Fuxicos

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  3. Eu considero uma boa resenha (pelo menos para mim) aquela que me faz vontade de ler o livro, por isso só me resta dizer: sua resenha foi fantástica. Cometo o grave pecado de me focar muito na literatura internacional e há tempos queria me voltar para nossos compatriotas, mas não sabia bem por onde começar. Bom, já tenho um começo aqui. Achei muito interessante, de verdade, e, pelo que você descreveu, acho que vou me identificar muito com o livro. Sobre a dica de voltar ao início, é válida para uma releitura completa, ou algo ainda nas primeiras páginas?
    Abraços, nos vemos novamente em breve 😀

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    • Liah, é algo só para as primeiras páginas mesmo! É como um complemento. No caso de “Até o dia em que o cão morreu”, me serviu como uma explicação para o final. Depois que ler vem me contar o que achou??? 🙂

      Curtido por 1 pessoa

      • Ah, sim, parece ser fantástico então *-* Ter esse cuidado de conectar o começo e o fim parece tornar o livro ainda mais interessante. Pretendo fazer uma mega compra agora em setembro, aproveitando o aniversário do Submarino (promoções, yaay õ/) e, se conseguir, já compro esse. E pode deixar que conto sim 😀

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  4. Adorei a resenha.

    Não li o romance, mas é engraçado notar que o autor descreve a juventude atual dessa maneira. Fico me perguntando os motivos desse cenário. Você que leu o livro, tem alguma opinião sobre isso?

    O autor chega a explicar os motivos que moldaram essa personalidade do protagonista?

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi, Jeizzon! 🙂
      Bem, o autor não “descreveu a juventude atual”, pelo menos não exatamente. Mas conhecendo muitos representantes dessa tal juventude e sendo eu mesma uma delas, fiquei com essa impressão.
      No livro não há justificativa de absolutamente nada em relação a isso: O personagem simplesmente é assim e pronto. Nada o incomoda, ele está perfeitamente satisfeito com sua vida apática. Mas o que eu acho mesmo é que esse personagem é simplesmente alguém que ainda não se encontrou na vida. Está vivendo uma adolescência tardia, está perdido diante de tantas possibilidades que o mundo lhe oferece, e a oferta é tão imensa que o paralisa. (Mas essa é minha interpretação, e é bem pessoal – você me conhece, deve saber disso).
      O livro é pequenininho, você consegue ler em poucos dias (se não em um dia só). Posso emprestá-lo a você.

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