Literatura
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Inevitavelmente pó

Simpatizo com a ideia de ser cremada. Ser consumida por vermes e insetos me causa aflição. Mas alguém cremado vira cinzas, e aí surge a questão: Ou você fica eternamente enclausurado num recipiente mórbido que, com alguma sorte, receberá um lugar de respeito na casa de alguém, ou você pede para que alguém (provavelmente o mesmo que te guardaria num recipiente) jogue suas cinzas em algum lugar simbólico – o mar, o jardim – e lá se vai você, sendo comido outra vez, mas agora bem passado.

Não tem jeito, o destino de todo corpo é ser comido no final. E pensando assim a ideia até se torna suportável, já que inevitável. Apesar de que tendo a preferir que peixes engulam minha poeira e plantas incorporem minha matéria do que imaginar um besouro carrancudo me arrancando um belo naco de carne da bochecha. Aliás, não sei se besouros comem carne, mas é neles que eu sempre penso.

É magnífica a ideia de, no fim, poder se espalhar por aí aos sete ventos. O procedimento é democrático, afinal. Não importa quão grande e importante seja o legado que deixou para a humanidade, sequer importa se deixou legado algum. Seu legado passa a ser as cinzas. Você se expande, se basta, é onipresente. Um momento pleno, lindo.

Então surge o problema: Você vai se espalhar por aí aos sete ventos. Sete mares, dependendo do caso. Um, outro ou ambos. Lá do alto da Pedra da Gávea, seu filho jogará suas cinzas e você se espalhará. Vai cair sobre o mundo lá embaixo, aderir às hastes da asa delta mais próxima, se depositar nos cabelos de quem estiver em seu caminho. Um cisco no olho de alguém. Mera poeira que a diarista vai varrer, catar com a pá e jogar na lixeira. E lá vai você para o lixão, ser comido por vermes e insetos, dessa vez bem passado e viajado. Isso se não ficar condenado à eternidade enclausurado num aspirador de pó.

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Espécime da safra de 89. Recentemente descobriu que não consegue escolher uma coisa só, então alterna a vida profissional entre as funções de jornalista e fotógrafa. Criou o projeto fotográfico "Uma Pessoa Por Dia", onde consegue mesclar as duas coisas.

12 comentários

  1. Simone Lima diz

    Muito bom!! Não gosto de pensar a respeito, na real, sobre mim quando deixar de ser. Mas, é sim, posso fazer parte de tudo que continuará existindo depois de minha partida, mesmo que por pouco tempo também. Gostei de imaginar. 😉 Gostei do teu canto!! Até o próximo ^^

    Vem pro meu espaço também:
    http://flores-na-cabeca.blogspot.com.br/
    Vai ser ótimo te ver por lá.

    Abraços!

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  2. Olha eu sempre penso sobre a morte e unca chego a uma conclus~]ao, nem que seja só pra me consolar..
    Às vezes sinto que se eu pensar muito no assunto vou enlouquecer. Chego até a entrar em pânico quando percebo que a morte é inevitável…
    Enfim, acho que não adianta muita coisa eu ficar pensando sobre isso e me apavorando.
    O melhor mesmo é viver a vida plenamente e fazer tudo o que tenho vontade.

    Até mais!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Sensacional teu ensaio. Mas acho que daria pra ser chamado de crônica?! Quem sabe. Essa visão enlouquecida de sucesso aos ventos depois que se vira poeira humana foi um dos fatores que me encantaram nesse teu texto. Toda aquela liberação, aquele fascínio por continuar vivo depois de morrer foi uma jogada muito interessante. Já estou seguindo, cara amiga!!
    E logicamente, retribuindo a visita. Gostei do site!!

    Grande abraço!!

    Scorrski

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  4. Meu Deus! Agora eu to pensando nisso. Já pensei na ideia de ser cremada; E é possível que eu siga com ela.
    Foi como tu disse, antes os peixes e as plantas, do que um besouro horrível te corroendo.
    Seu texto ficou lindo, e vou pensar nele por dias. Assim como J.K. Rowling eu admiro a morte. Não que eu queira morrer. Mas é o mistério que ela esconde que nós nunca vamos conseguir decifrar. Ou talvez um dia alguém consiga, sei lá. Mas se eu escolher ser cremada, acho que vou gostar de ser “jogada”, em um jardim, com minhas flores favoritas. Osíris. A flor mais linda que eu já vi.
    Mas foi como a minha professora de historia disse: “Eu não me importo com o que façam com meu corpo. Desde que tenham certeza que eu morri.”
    Bjs bjs.
    Formula-amor.blogspot.com

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    • Sofia, eu tenho muita dificuldade com esse assunto. Acho que a morte é o meu grande tabu, sabe? Ou não precisamente um tabu, mas algo que eu tenho muita dificuldade de lidar e superar. Escrevi esse texto porque de repente senti uma necessidade enorme, mas esperei uma semana inteira antes de publicar no blog. Sei lá.
      Na verdade, sobre o meu pós-morte, só tenho certeza de que quero que meus órgãos sejam doados. Mas acabei descobrindo hoje que as cinzas matam as plantas! É um problema com o qual alguns parques têm que lidar, inclusive. E lembrei de uma menina que enterrou seu passarinho morto num vasinho e plantou uma plantinha em cima. Achei bonito. E essa ideia me agradou bastante, a de se transformar em árvore. Achei bonito. Ainda mais bonito se for uma árvore que floresça. 🙂
      Obrigada pelo seu comentário e sua visita, Sofia!
      Um abraço

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