Livro, Resenhas
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Livrinho de aeroporto

Terminada minha leitura de “Nu, de Botas”, eu estava ávida para ler os comentários de outros leitores, então fui até o Goodreads. Poderia dizer que todos eles, sem exceção, exultavam as qualidades do livro de Antonio Prata, se não fosse por um dito cujo que dizia: “livrinho de aeroporto, muito ruim”. De fato, foi o comentário mais verdadeiro de todos, se considerado apenas o pré-vírgula. “Nu, de botas” é mesmo um livrinho de aeroporto. No diminutivo por ser curto demais para algo tão divertido, e “de aeroporto” por ser capaz de capturar a atenção mesmo num lugar tão barulhento.

Ao todo são 24 crônicas, reunidas em ordem cronológica de acontecimentos, abrangendo os primeiros anos de vida do autor – uma infância dos anos 80. E é tudo muito bom. O humor é inteligente, de bom gosto, e de uma hora para a outra nos vemos imbuídos daquela sensibilidade infantil, daquele olhar que vê o mundo e o interpreta ao pé da letra, sem filtros sociais.

“Embora não tivesse escolhido a cor nem os móveis, os quadros ou tapetes, a casa era mais minha que de qualquer outra pessoa: só eu via os desenhos no piso do quintal, o que se escondia embaixo dos tacos, os tufos mágicos sob a cristaleira. Ali dentro, nenhum mal poderia me atingir.
Um dia, brincando no chão da sala com meus carrinhos, ouvi um homem dizer na TV que, no ano 2000, o mundo ia acabar.
“Pena”, pensei, sem tirar os olhos dos Matchboxes, “não vou mais poder sair pra rua” – e continuei a tratar dos meus assuntos.” (Pág. 12)

Com sua escrita cativante, Antonio Prata emociona. Em minhas duas crônicas favoritas do livro, por exemplo: “Alô, Bozo?” me envolveu de uma forma tão inexplicável, que fiquei aflita. Assim como o pequeno Antonio e seu amigo torciam para o cavalinho malhado na brincadeira do programa do “maior palhaço do mundo”, eu torcia para que os garotos conseguissem ganhar a bicicleta BMX da Monark, tão cobiçada na época. Minha aflição era tanta, que de repente me vi sentada, os ombros tensos, em vez da usual posição horizontal relaxada de sempre. Já em “Blowing in the wind”, a descrição de seu próprio pai como alguém com a “perspicácia pedagógica de uma criança de cinco anos” me causou uma risada que durou toda a extensão de suas quatro páginas.

Ler o livro de Antonio Prata é relembrar a própria infância, tendo sido ela vivida na São Paulo dos anos 80 ou não. Ele traz à tona aqueles acontecimentos pelos quais toda criança passa ou presencia, mas que a passagem do tempo nos faz esquecer. Sobre os reais interesses de uma criança, por exemplo, unicamente despertados pela curiosidade: Uma mãe que deseja convencer seu filho a visitar um velho de 80 anos deve saber quais pontos destacar. Saber que a idade do homem corresponde a todos os dedos das mãos levantados oito vezes pode não interessar nem um pouco a uma criança, mas contar que o homem tem uma perna só é capaz de fazer esta mesma criança abandonar seu programa preferido da televisão na mesma hora. “Nu, de botas” é pura nostalgia.

13596_gTítulo: “Nu, de botas”
Autor: Antônio Prata
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 144
Sinopse: Em Nu, de botas, Antonio Prata revisita as passagens mais marcantes de sua infância. As memórias são iluminações sobre os primeiros anos de vida do autor, narradas com a precisão e o humor a que seus milhares de leitores já se habituaram na Folha de S.Paulo, jornal em que Prata escreve semanalmente desde 2010.
Aos 36 anos, Prata é o cronista de maior destaque de sua geração e um dos maiores do país. São de sua lavra alguns bordões que já se tornaram populares – como “meio intelectual, meio de esquerda”, título de seu livro anterior e de um seus textos mais célebres -, bem como algumas das passagens mais bem-humoradas da novela global Avenida Brasil, em que atuou como colaborador de João Emanuel Carneiro. Prata também é um dos integrantes da edição Os melhores jovens escritores brasileiros, da revista inglesa Granta.
As primeiras lembranças no quintal de casa, os amigos da vila, as férias na praia, o divórcio dos pais, o cometa Halley, Bozo e os desenhos animados da tevê, a primeira paixão, o sexo descoberto nas revistas pornográficas – toda a educação sentimental de um paulistano de classe média nascido nos anos 1970 aparece em Nu, de botas.
O que chama a atenção, contudo, é a peculiaridade do olhar. Os textos não são memórias do adulto que olha para trás e revê sua trajetória com nostalgia ou distanciamento. Ao contrário, o autor retrocede ao ponto de vista da criança, que se espanta com o mundo e a ele confere um sentido muito particular – cômico, misterioso, lírico, encantado.

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  1. Pingback: 5 livros para intercalar com outras leituras | Literasutra

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