Filme, Resenhas
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A diferença entre usar sangue e ketchup

É enorme a diferença entre uma atuação e uma performance, e para ensinar isso não há ninguém melhor que a “avó da arte da performance”, como ela mesma gosta de se chamar. Marina Abramovic – Artista Presente (“Marina Abramovic – The Artist is Present”, Estados Unidos, 2011) nos traz a obra mais contundente da artista sérvia: aproveitando a retrospectiva organizada pelo MoMA em sua homenagem, em 2010, ela passou 736 horas sentada, em silêncio, recebendo aqueles dentre os 850 mil visitantes da mostra que tiveram coragem de se sentar diante dela.

“Mas isso é arte?”. A pergunta, que antes era motivo para irritação, agora sequer existe. Afinal, após mais de  quarenta anos de carreira, as pessoas aprenderam a entender ou a engolir o seu trabalho – uma teoria da própria Marina. Impulsionada pela necessidade de testar os limites da própria resistência física e mental, a verdade é que ela veio ao mundo para chocar, contestar, encantar. E o documentário de Matthew Akers é certeiro, faz exatamente aquilo a que veio: expõe a essência da artista.

Graças à edição e obviamente ao assunto de que trata, o filme nos oferece uma experiência única. Há muito mais por trás do que é óbvio e explícito, e é isso que desperta as emoções. Embora Marina não seja a pessoa mais simpática do mundo, a sua intensidade é cativante. Se ela te olha, ela realmente te vê, e isso não é poesia, por mais que pareça ser. Isso é estar presente. “É preciso estar presente”, ela diz, “esvaziar-se de tudo para se situar num tempo presente”.

marina-poster“The Artist is Present” (“A Artista está Presente”) expôs os trabalhos de Marina Abramovic no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) por três meses. Recebeu críticas ignorantes na mídia, e entre admiradores e curiosos, bateu o recorde de público do museu. A atração principal era a própria artista, presente, que sentou-se à mesa ainda durante o inverno para levantar-se definitivamente somente no verão. Sua performance no museu, embora tenha sido a mais importante de sua carreira até agora, no documentário é apenas um fio condutor, com um propósito muito maior: apresentar a parte da Marina que ninguém nunca vê. A Marina guerreira, que sabe mais do que ninguém o que é preciso para ser uma artista… Um trabalho braçal enorme que envolve mais dor nas costas que criatividade.

*Publicado originalmente no especial do Festival do Rio para o site LixeiraDourada.
**A avó da arte da performance inspirou muitos artistas, inclusive no mundo canino: Conheça Marina Abramopug

Este post foi publicado em: Filme, Resenhas

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Espécime da safra de 89. Recentemente descobriu que não consegue escolher uma coisa só, então alterna a vida profissional entre as funções de jornalista e fotógrafa. Criou o projeto fotográfico "Uma Pessoa Por Dia", onde consegue mesclar as duas coisas.

6 comentários

      • Terminei de assistir ao filme hoje. Não tenho gabarito para qualificar o que é ou não arte, mas o documentário é muito interessante. A personalidade de Marina é muito peculiar: ao mesmo tempo soturna e bem humorada. Parece se expressar pela dor (ou sofrimento). Curti bastante. Boa dica, Monalisa.

        Curtido por 1 pessoa

    • Anderson, você tocou num ponto bem interessante: o que é arte. A Bruna Linzmeyer, a atriz que fez a personagem do cabelo rosa na novela “Meu pedacinho de chão”, me disse uma coisa bem legal numa entrevista: Resumindo, ela disse que “arte é aquilo que nos toca”. Ou seja, o que é arte para mim pode não ser pra você, e vice-versa. Foi uma ótima definição pra mim, porque me faz lembrar que nossos gostos não precisam estar condicionados às regras de ninguém, o que é bem libertador. E lindo, né. 🙂
      No caso da Marina Abramovic, algumas intervenções me tocam profundamente, enquanto outras (bem poucas, pouquíssimas) não. De qualquer forma, é inegável o empenho dela em fazer o que ela faz, e isso fica bem evidente no documentário. Acho inclusive que foi por causa do documentário que passei a gostar tanto dela. 🙂
      Um abraço!

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