Mês: setembro 2014

Quando a criança está atriz

Com  a colaboração de Adélia Jeveaux, autora do Detesto Sinopses. Da plateia veio a sugestão despreocupada: Levar as coisas menos a sério, afinal todos temos traumas na vida. Do palco, a resposta veio com firmeza: “Tem que levar a sério, sim”. Há seis anos o Fórum Pensar a Infância antecede o Festival Internacional de Cinema Infantil. Sua edição mais recente foi no início do mês, e contou com uma mesa redonda até então inédita em debates públicos. Em “A Criança em Cena”, a produtora de elenco Cibele Santa Cruz (“Desenrola” e “Tainá 3”) e as coachs Beta Perez (“Malhação”) e Luisa Thiré (“Conselho Tutelar”) refletiram sobre os limites da atuação infantil e derrubaram de vez o termo “ator mirim”. – Tem que levar a sério, sim. Porque a criança vive as coisas de uma forma diferente do adulto, então precisa de apoio e segurança. E a equipe tem que ser responsável por qualquer coisa que possa surgir dessa experiência – respondeu Cibele. Anúncios

Anáfora e Anacoluto

Anáfora era solteira, mas não por opção. Desde os 15 anos, sua metáfora era perder a zeugma, mas ela nunca conseguira. Era escritora. Juntava polissíndetos e perífrases o dia todo, e assim formava prosopopeias. “Por isso não tenho tempo para solecismos”, ela justificava, mas todos sabiam que era puro pretexto. Anáfora era cheirosa, mas era fronha. Todos gostavam de ler suas prosopopeias, mas quando ela falava, os mais sensíveis chegavam a ter ataques de silepse. Um dia chegou à cidade um cara meio surdo. Anacoluto. Fora expulso de Cadarço sob a alegação de ter se negado a fazer a catacrese, mas a verdade é que ninguém gostava deve porque era cacófato. Anacoluto era médico e rico; abriu uma clínica. Anáfora foi fazer exame de assonância magnética. – T-tire os obje-jetos m-metálicos e p-pontiagudos, p-p-p-por favor. – Brondinho, já direi. Foi amor à primeira vista. Anacoluto fez metonímia, e Anáfora perdeu a zeugma. Os dois se casaram, e hoje vivem em perfeita sinestesia.

Mundo Ovo

Chega um tempo na vida em que você já é crescido, já passou da época da escola, da faculdade. Então todos os seus amigos começam a se misturar no facebook; você já não os vê com tanta frequência e não sabe mais dizer a qual roda social eles pertencem. Você vê um comentando a foto de outro e pensa “Uau, eles se conhecem!” Quando, mais tarde, se deita pra dormir, pensa em como o mundo é um ovo. E se dá conta: É óbvio que eles se conhecem, eles estudaram no mesmo lugar, especificamente na mesma sala que você. Vocês inclusive fizeram um grupo e apresentaram um trabalho juntos. Foram a festas juntos. Veja só, vocês tem até algumas fotos juntos! Mas por que mesmo vocês não se falam mais?

Na pilha de adultos, o infantil era o que mais valia a pena

Lá vai ele, um círculo incompleto, um ser redondo como um bolo do qual já se comeu uma fatia. Vai rolando, subindo e descendo colinas, à procura da parte que lhe falta. Em seu lento caminho, observa aquelas coisas que dizemos serem a pequenas da vida: prova gotas de chuva, mais à frente uma borboleta lhe pousa no nariz. Até que, finalmente, que felicidade!, encontra a parte que lhe faltava. A história poderia terminar por aqui, mas ela continua. Afinal, será mesmo necessário encontrar essa tal parte que falta? Ela falta, de fato? E se falta, será que está mesmo lá fora, no outro?

Murakami na tela

“And when I awoke I was alone This bird has flown” Norwegian Wood, The Beatles Dois dias depois de ler Norgewian Wood, flagrei sua versão cinematográfica na televisão. Mas só a assisti recentemente, quando a melancolia que me atingiu ao final do livro já havia se dissipado por completo – sentimento que  “Como na canção dos Beatles: Norwegian Wood” (“Noruwei no mori”, Japão, 2010) me trouxe inteiramente de volta, aliás. Pôster e fotos do filme no final do texto!

Amadurecendo ao som de Beatles

“Se você só lê o mesmo que todo mundo lê, acaba pensando o mesmo que todo mundo pensa” (pág. 43) Haruki Murakami é um ser extremamente musical. Exemplo disso é seu site oficial, que traz uma lista das principais músicas usadas por ele em seus 18 livros já publicados – e são muitas. De todos eles, no entanto, existe um que vai além, que expõe a trilha sonora já no título: “Norwegian Wood”, assim como na canção dos Beatles, é uma balada de amor com notas de angústia. E não é a toa que seu personagem principal trabalhe numa loja de discos. Esse livro já foi adaptado para o cinema! Clique aqui e saiba mais.

A realidade fantástica de Jane Long

Para criar sua personagem favorita do momento, a artista australiana Jane Long não precisou de palavras. Nas mãos da “Princesa do Pântano” (seu gosto por pântanos e riachos rendeu-lhe o apelido), uma criança romena virou a jovem feiticeira de “Innocence” (imagem acima). Jane queria praticar sua habilidade de restaurar fotos antigas. Buscando por imagens na internet, deparou-se com o “Costică Acsinte Archive”, projeto que se dedica a reunir e digitalizar o trabalho do fotógrafo romeno de mesmo nome. E assim, um século depois, as crianças da época da I Guerra Mundial ganharam muitas cores e vida própria, com muitas pinceladas de realismo fantástico. E o que começou apenas como um mero exercício hoje inspira fãs e seguidores. Confira a galeria com o “antes e depois” do projeto no final da matéria!

Uma carta de amor com muitos erros

A contracapa de “A vida do livreiro A.J. Fikry”, da jovem norte-americana Gabrielle Zevin, me disse se tratar de “uma carta de amor para o mundo dos livros”. Antes disso vem a capa, apresentando uma versão clean e bonita para a ideia de que livros são portas ou janelas para o mundo. Acompanhando a ilustração, quase imperceptível se comparada ao título do livro ou ao nome da autora, está a citação que nos acompanha por toda a leitura: “Nenhum homem é uma ilha; Cada livro é um mundo”. Seria tudo muito poético e agradável de ler, não fosse o descaso da revisão. Já na capa os erros começam.