Livro, Resenhas
Comentários 18

Amadurecendo ao som de Beatles

“Se você só lê o mesmo que todo mundo lê, acaba pensando o mesmo que todo mundo pensa”
(pág. 43)

Haruki Murakami é um ser extremamente musical. Exemplo disso é seu site oficial, que traz uma lista das principais músicas usadas por ele em seus 18 livros já publicados – e são muitas. De todos eles, no entanto, existe um que vai além, que expõe a trilha sonora já no título: “Norwegian Wood”, assim como na canção dos Beatles, é uma balada de amor com notas de angústia. E não é a toa que seu personagem principal trabalhe numa loja de discos.

Esse livro já foi adaptado para o cinema! Clique aqui e saiba mais.

Com toques autobiográficos, o livro conta a história do jovem Toru Watanabe. Pouco antes dos seus 20 anos, ele reencontra Naoko, ex-namorada de seu melhor amigo, Kidzuki. Não é preciso muito para que os dois retomem a amizade, que logo evolui para uma relação bem peculiar e delicada. Tão diferentes um do outro, sua interseção é o suicídio de Kidzuki, cometido alguns anos antes. Toru lida com a situação como pode, mas a moça, psicologicamente fragilizada, precisa ser internada em um sanatório.

– Está parecendo que pacientes e funcionários trocam de posição
– Você está coberto de razão. Pelo visto, está pouco a pouco aprendendo como as coisas funcionam no mundo.
– Acho que sim.
– O que faz de nós pessoas normais é que sabemos que não somos normais.
(pág. 187)

Então inicia-se o dilema: Toru se vê dividido entre uma espera paciente pela recuperação de Naoko e a possibilidade de uma nova vida ao lado de Midori. Sua colega de classe na faculdade de teatro, ela é o completo oposto de Naoko: vibrante, liberada, sempre munida de um bom humor contagiante.

“Eu não quero que você me ache depravada, insatisfeita ou provocante. É só que tenho muito interesse e quero saber mais sobre esse assunto. Cresci cercada apenas por meninas no colégio de moças. Desejo muito saber o que os homens pensam e como funciona seu corpo. E não nos suplementos das revistas femininas, mas num estudo de caso” (pág. 220)

Com muita destreza e lirismo, Murakami toma emprestadas as vozes de seus personagens para discorrer sobre a passagem da adolescência para a vida adulta; aborda como essa transição pode ser angustiante, solitária e assustadora. A edição, no geral, faz jus à excelência do escritor. Embora eu não entenda nada de japonês, a tradução me pareceu ter sido bem feita. A capa, que responde ao mesmo projeto visual dos outros livros do autor publicados pela Alfaguara, alude à tendência ao realismo fantástico de Murakami. No mais, diz-se que “Norwegian Wood” marcou toda uma geração de novos leitores. Depois de lê-lo, não é difícil imaginar o porquê.

capa_norwegian_wood.inddTítulo original: “Noruwei no mori”
Autor: Haruki Murakami
Tradutor: Jefferson José Teixeira
Editora: Alfaguara
Páginas: 359
Sinopse: Em 1968, Toru Watanabe acaba de chegar a Tóquio para estudar teatro na universidade, e mora em um alojamento estudantil só para homens. Solitário, dedica seu tempo a identificar e refletir sobre as peculiaridades dos colegas. Um dia, Toru reencontra um rosto de seu passado – Naoko, antiga namorada de seu grande amigo de adolescência Kizuki antes deste cometer suicídio. Marcados por essa tragédia em comum, os dois se aproximam e constroem uma relação delicada onde a fragilidade psicológica de Naoko se torna cada vez mais visível até culminar com sua internação em um sanatório.

18 comentários

  1. Nossa, essa história parece ser muito marcante, como você notou Monalisa eu gosto de ler livros que tragam a tona assuntos como suícido, entre outros mais pesados. Claro que vou conferir esse e não pude deixar de notar a capa, que tem um trabalho bem diferente do que estou acostumada.

    Beijos e parabéns pela resenha! 😉
    Ass: Amanda Mello.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Tive que vir aqui ler a resenha que você indicou lá no meu blog.
    Sim, pela sua resenha, o livro tem muito próximos com A playlist de Hayden. E concordo que deve ser melhor mesmo “Noruwei no mori”. Não pude deixar de observa a editora que publicou aqui no Brasil rsrsrs

    Beijos!

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  3. gabrielaamoroso diz

    Oii Mona!
    Não conhecia o autor, aliás, acho que nunca li nada de autores japoneses. Sinceramente, a capa não me chamaria a atenção em uma livraria, mas gostei muito da premissa do livro. Essa transição pode ser bem complicada e, pelo que você falou, parece que o autor explorou exatamente essa face mais delicada. Fiquei curiosa!

    Beijo,
    http://www.pitadadecultura.com/

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    • Gabi, eu também não compraria esse livro pela capa. Só soube dele porque sou viciada no Murakami, o que ele lançar eu compro, até se for caneca hahaha A Alfaguara tem publicado os livros dele respeitando esse visual meio psicodélico, e em alguns dos casos chega a doer os olhos! (Depois procura a capa de “Minha querida Sputnik”).
      Um beijo, querida!
      Obrigada pela visita!

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  4. Oi Mona, bom dia!
    Ainda não conhecia o autor, mas vi em outro comentário que é o mesmo autor de 1Q84 (ainda não li, mas já recebi boas recomendações). Ver as suas resenhas por aqui sempre me faz pensar: o que é que estou perdendo? Na maioria das vezes são livros que eu ainda não conhecia, nunca tinha ouvido falar, mas parecem absolutamente fantásticos. Não parecem ser os livros que estão na cabeça de todo mundo, mas que mereciam estar. E isso é o que eu absolutamente estou AMANDO aqui no Literasutra: a oportunidade de conhecer livros que eu provavelmente não conheceria de outro jeito. Vou continuar, como sempre, de olho nas suas dicas, e espero poder ler em breve um desses livros (não só o desta resenha, mas das últimas que vi também) que você remendou.
    Beijos e ótima semana 😀

    http://confissoesdeumleitor.wordpress.com/

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  5. Adorei! Muuito mesmo. Acho chato quando vejo pessoas mais velhas por aí reclamando que os livros atuais são muito dirigidos exclusivamente aos adolescentes, mas são todos bobos em terem tais pensamentos, pois imagino que esses livros possam fazer eles mesmos voltar à juventude. E é tão legal ler sobre a passagem da infância pra adolescência, da juventude pra idade madura; é realmente uma época repleta de dúvidas e conflitos, principalmente internos, e ler sobre isso pode sem querer até mesmo nos ajudando.

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
    Tem resenha nova de “O Doador de Memórias” no blog, vem conferir!

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    • Oi, Carol! Não tenho acesso aos dados do mundo editorial pra saber realmente se os livros para adolescentes estão dominando o mercado, então não posso dizer se essas pessoas estão certas ou não. O que eu tenho notado é que os livros voltados para eles têm caído um pouco de qualidade: revisões capengas, capas bregas, histórias clichê e autores com escritas meio pobres. Isso me irrita bastante, principalmente porque entende-se que os adolescentes são leitores em formação. Mas bem, obras de pouco valor tem em todo lugar, né? Não é só na leitura, tem também no cinema, no teatro, na fotografia. Cabe a nós escolhermos livros de boa qualidade e buscarmos fontes que admiramos.
      E concordo contigo! Livros sobre adolescentes fazem, sim, as pessoas que já passaram da adolescência lembrar da época! Hahaha A mesma coisa acontece com a infância. O único problema mesmo acaba sendo a linguagem do autor. O Murakami, por exemplo, é um escritor que preza por encontrar uma linguagem dele, percebo que ele está sempre em busca disso. Não fica só seguindo modelos pré-estabelecidos, como é o que acontece com muitos dos livros voltados para adolescentes que eu vejo nas livrarias hoje em dia.
      Um beijo grande! 🙂

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  6. Estou me sentindo culpada: ganhei uma vez esse livro de aniversário, mas queria tanto um do Mia Couto que o levei até a livraria como moeda de troca. Lendo sua resenha, acho que teria gostado muito dele. Um dia nos encontramos de novo, por alguma estante da vida.

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      • Na época eu acabei trocando por “O último voo do flamingo”, que é um livro do qual gosto muito. Além de ter a cadência natural de Mia Couto, que me encanta, fala sobre operações de paz da ONU e sobre o conflito entre culturas. Vale muito a pena.

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