Livro, Resenhas
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Na pilha de adultos, o infantil era o que mais valia a pena

Lá vai ele, um círculo incompleto, um ser redondo como um bolo do qual já se comeu uma fatia. Vai rolando, subindo e descendo colinas, à procura da parte que lhe falta. Em seu lento caminho, observa aquelas coisas que dizemos serem a pequenas da vida: prova gotas de chuva, mais à frente uma borboleta lhe pousa no nariz. Até que, finalmente, que felicidade!, encontra a parte que lhe faltava. A história poderia terminar por aqui, mas ela continua. Afinal, será mesmo necessário encontrar essa tal parte que falta? Ela falta, de fato? E se falta, será que está mesmo lá fora, no outro?

Encontrei “A parte que falta”, do escritor e ilustrador Shel Silverstein, isolado numa pilha de romances. Um livro infantil sobre tantos outros para adultos. Um lugar inusitado, certamente voltaria para a sessão infantil na manhã seguinte, quando a loja fosse rearrumada; mas um lugar bem possível. Na pilha de livros para adultos, o infantil era o que mais valia a pena.

Inicialmente publicado em 1976, é curioso perceber que o choque provocado por ele na época ainda permanece em 2014. Não tão intenso, não tão marcante; afinal, a ideia proposta pelo artista já está perfeitamente difundida neste século. Mas ainda assim, chacoalha-nos, sejamos nós crianças ou adultos. Conforme classificou a biógrafa Lisa Rogak, autora de “A boy named Shel”, o livro é um “ode à liberdade individual”. E só não digo que deveria ser leitura obrigatória porque a obrigatoriedade costuma interferir no prazer. “A parte que falta” é um ótimo contraponto para o “viveram felizes para sempre” dos contos de fadas.

imagem-a-parte-que-faltaTítulo original: “The Missing Piece”
Autor: Shel Silverstein
Tradução: Alípio Correia de Franca Neto
Editora: Cosac Naify
Páginas: 112
Sinopse: Com sua poesia hábil e sensível, Silverstein aborda neste livro a busca do autoconhecimento e da completude. A metáfora se dá por meio da história de um ser circular a quem falta uma parte. Otimista, ele se lança no mundo à procura de preencher esta lacuna. À medida que descobre o universo ao redor – e também a si mesmo –, percebe que as relações interpessoais são muito mais complexas e delicadas do que pensava e que a felicidade quase sempre está dentro de nós mesmos – e não no outro. Uma prova de que a liberdade é o maior bem que podemos possuir.

11 comentários

  1. Adoro esses livros infantis que servem tanto para crianças como para adultos. Parece um jogar na cara a pura verdade por meio da inocência infantil, quem sabe assim os adultos não se toquem, não é?

    Essa história me lembrou a história de um livro dentro de um mangá, Chobits, que fala de uma pessoa que fica vagando pelo mundo procurando “a pessoa só pra ela”. Acho que as duas histórias tentam passar a mesma lição.

    Você escreve muito bem, Mona! Parabéns 🙂
    Beijos!

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  2. Cara, que resenha maravilhosa! É possível ver seu desenvolvimento na escrita e análise, conseguindo dizer em poucas palavras o que muitos não conseguiriam dizer em várias páginas! Além de resenha, esta foi uma leitura muito agradável. Obrigada!

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  3. Oi, Mona xD
    Concordo com a Gabi nessa. Podem até dizer “ah, mas é só um livro infantil!”, mas o jeito que você apresenta sempre me deixa curiosa. E quem disse que livro infantil não pode ser bom? Tenho os meus favoritos de infância guardados até hoje. E, mesmo sendo simples, esse parece carregar uma mensagem que serve a qualquer um, de qualquer idade. Mais uma vez, adorei a resenha :3
    Beijos e ótima semana!

    http://confissoesdeumleitor.wordpress.com/

    (P.S.: Quase comprei “A vida do livreiro A.J. Fikry” hoje, na promoção de aniversário do Submarino. Infelizmente o dinheiro que eu tinha reservado acabou antes, mas agora estou pensando em comprar como presente de aniversário para minha irmã, assim posso pegar emprestado com ela, hehe)

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    • Liah, na próxima vez em que estiver numa livraria, procure o livro e leia! Sério, ele é apaixonante. Tem ainda uma continuação, chamada “A parte que falta encontra o Grande O”. Eu gostei ainda mais da continuação, vou escrever um texto pra cá em breve. 😉

      Um beijinho,
      Mona

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