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Quando a criança está atriz

Com  a colaboração de Adélia Jeveaux, autora do Detesto Sinopses.

Da plateia veio a sugestão despreocupada: Levar as coisas menos a sério, afinal todos temos traumas na vida. Do palco, a resposta veio com firmeza: “Tem que levar a sério, sim”. Há seis anos o Fórum Pensar a Infância antecede o Festival Internacional de Cinema Infantil. Sua edição mais recente foi no início do mês, e contou com uma mesa redonda até então inédita em debates públicos. Em “A Criança em Cena”, a produtora de elenco Cibele Santa Cruz (“Desenrola” e “Tainá 3”) e as coachs Beta Perez (“Malhação”) e Luisa Thiré (“Conselho Tutelar”) refletiram sobre os limites da atuação infantil e derrubaram de vez o termo “ator mirim”.

– Tem que levar a sério, sim. Porque a criança vive as coisas de uma forma diferente do adulto, então precisa de apoio e segurança. E a equipe tem que ser responsável por qualquer coisa que possa surgir dessa experiência – respondeu Cibele.

Para começar, é importante perceber a distinção entre um “filme infantil” e um “filme com crianças”. De acordo com Beta e Luiza, nem sempre uma criança consegue perceber a diferença entre construir um personagem e o exercício de imitar uma pessoa ou um animal. Por isso, proporcionar a identificação entre criança e personagem é muitas vezes o recurso mais seguro, além de ser o que entrega resultados mais verdadeiros e comoventes. Mas como as formas de conseguir isto não são infinitas, é aqui que se determina o que será uma atuação isolada e o que evoluirá para uma carreira de ator.

– É muito normal ver grandes performances infantis que não necessariamente são seguidas de uma carreira de grandes papeis, ou que sequer são seguidos de uma carreira. Criança não é ator nem atriz, precisa ter rotina, estudar e construir suas possibilidades na vida. A educação está acima de qualquer filme.

Mas como lidar com a expectativa das crianças, quase sempre superada pelas expectativas dos pais, a respeito de uma carreira brilhante e do status de celebridade? Algumas histórias são de partir o coração. Se até mesmo os profissionais de cinema demoram a se acostumar com o ambiente de um set de filmagem, é preciso muito cuidado para inserir uma criança nesse mundo. Seus limites e necessidades devem ser respeitados, e deve haver uma consciência muito forte do trabalho ali desenvolvido.

E então vem a questão de crianças com papeis em obras destinadas ao público adulto. Como filmar cenas de agressão com uma criança? Como engajar uma criança pequena numa história que não soa nem um pouco como uma brincadeira? E, mais importante, como evitar que aquela experiência resulte em algum trauma? Luisa Thiré, preparadora de elenco da série “Conselho Tutelar”, da Record, explica:

– Como parte do nosso elenco tem históricos de violência ou pobreza, se a criança confiar na equipe é possível encontrar uma via de identificação. Nos casos de crianças mais novas, eu recorro ao lúdico, à associação com situações simbólicas, tudo para deslocá-la da crueza da cena sem perder o potencial emocional da performance.

Há mais em jogo do que um simples job; há sonhos, expectativas, uma abertura de horizontes. O vínculo da criança com a obra e sua equipe não se encerra quando o diretor diz “corta”, é fundamental respeitar isso. “Tem que levar a sério, sim”.

6 comentários

  1. Hey, Mona, boa noite!
    Estou passando as férias na casa de uma amiga, que é uma noveleira assumida, e peguei de relance uma cena entre “mãe e filho”. Não lembro qual era a novela, nem o personagem, mas me prendi ao personagem do menino e à sua atuação. Lembro de muitos atores infantis de sucesso, aqueles que realmente sabem interpretar o personagem e que não deixam a cena artificial e estranha, mas também vi muitos casos em que é evidente a representação, a falta de conexão com a história. Não quero dizer com isso que exijo um alto padrão de qualidade das crianças, porque nem faria sentido, mas às vezes me pergunto quantas delas estão realmente prontas ou dispostas àquilo. É um desejo da criança, ou um sonho dos pais? Até onde cabe ao pai lançar o filho em um sonho dele, mesmo que isso comprometa toda a estrutura da criança? Não são raros os casos de atores que começaram na infância, cresceram sob os holofotes e “se perderam” no caminho. E eu fico me perguntando: realmente valeu a pena?
    Como sempre, adoro seu blog. Sempre traz ótimas reflexões.
    Beijos e ótima semana!
    http://confissoesdeumleitor.wordpress.com/

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  2. Oi, Flor! Tudo bom?
    Sempre me perguntei, como o pessoal da indústria do teatro trabalha com crianças. De fato deve ser um grande desafio, eu como mãe, sei o desafio de cada dia, de cuidar, criar, dar educação e a total segurança que a minha pequena precisa. Daqui a mais ou menos dois meses a escolinha irá realizar a primeira peça de teatro, e os ensaios começam semana que vem. Meu receio no fundo é chegar na hora e toda a plateia acabar assustando ela, mas decidi investir nessa parte, porque escuto muito que ela pode ser uma ótima atriz.
    No fundo, mesmo antes de virar mãe, sempre fui contra essa ideia de tornar a criança “grande” mesmo antes de ter começado a escrever! Conheço amigas que são modelos e pelo trabalho, foram obrigadas a largar a escola. Quero deixar minha pequena para fazer qualquer esporte, dança, estudos por conta dela e não minha. Fui obrigada a fazer Ballet na escolinha e ODIAVA isso.
    Gostei muito do texto, temos ai uma visão totalmente diferente, e uma bela discussão!

    Beijinhos,
    http://www.percepcoes.blog.br/

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  3. Oi Mona, tudo bem?

    Dia desses compartilharam no meu facebook um negócio de concurso de Miss Infantil. Eram meninas todas maquiadas, penteado, salto alto, roupa estilo princesa. Mas ai me pergunto: PRA QUE? Acho que tudo tem a sua fase, sabe? Por mais que tenham crianças que gostem de fazer teatro, façam comerciais, etc, acho que não se deve explorar muito esse lado delas, essa exposição. Criança tem que brincar. Por que ai, quando fica maior, vai pra faculdade, faz jornalismo e ai quero ver brincar com o salario que a gente ganha =P huahuahuahuahua

    beijos
    Kel
    http://www.porumaboaleitura.com.br

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  4. Nossa, isso é bem verdade mesmo. Criança ainda é muito jovem pra conseguir diferenciar completamente o que faz parte só do trabalho, e o que realmente pode fazer mal à ele. Concordo que se tiver uma equipe que dá o apoio necessário, e principalmente os pais, que não param os estudos e educação só por já estar ganhando dinheiro através dos filmes, mas eu fico pensando… E as crianças que fazem participações em filme de terror, ou até mesmo papel principal? Será que eles não tem pesadelo de noite não, ou até mesmo traumatizados depois? Sei lá, não deve ser fácil haha

    xx Carol
    http://caverna-literaria.blogspot.com.br/
    Tem resenha nova de “Dark Life” no blog, vem conferir!

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