Mês: outubro 2014

Um grande filme sobre um grande hotel

“É um engano muito comum, as pessoas acharem que a imaginação de um escritor está sempre a trabalho, que está constantemente inventando um suprimento infinito de casos e incidentes, que ele simplesmente tira suas histórias do nada. A bem da verdade, é ao contrário. Quando descobrem que você é escritor, trazem personagens e eventos até você, e se você mantiver a habilidade de observar e ouvir com atenção, as histórias vão continuar a procurá-lo a vida inteira”. Eis a citação de um escritor sem nome, um personagem fictício criado pelo cineasta Wes Anderson sob a influência de dois livros de um escritor real. “Cuidado da Piedade” e “Êxtase da Transformação”, do austríaco Stefan Zweig, têm grande participação no mais recente longa-metragem de Anderson, “O Grande Hotel Budapeste” (“The Grand Budapest Hotel”, EUA, 2014).

Sobre uma conversa que nunca aconteceu

Não foi à toa todo o alarde a respeito de “Precisamos Falar Sobre o Kevin” (“We Need to Talk About Kevin”, EUA, 2011), tampouco exagerada a indicação de Tilda Swinton para o Globo de Ouro por melhor atuação em drama. O longa de Lynne Ramsay não se limita a estender às telas o livro “inadaptável” do fenômeno literário chamado Lionel Shriver; ele tem seu rumo próprio. Nada nele é sem propósito e cada cena tem lugar fundamental na narrativa, embora quem tenha lido o livro possa sentir falta de uma coisa ou outra.

Universo em sincronia

(Ou o início de algo que comecei e ainda não terminei) Os espasmos involuntários das mãos do velho acompanham o ritmo da música que sai dos fones de ouvido da garota. A garota, “alta” demais para não se divertir com uma situação dessas, admira a sincronia do universo evidenciada num 170 sentido Gávea. No banco da frente, onde as mãos do velho tamborilam a música da garota, a mulher grávida se aborrece. Achava merecer um pouco de descanso após a noite de briga com o marido, mas a criança dentro dela tem dotes pro carnaval e samba com o batuque do velho. O velho olha sem ver a paisagem que passa vagarosa. Não tem para onde olhar; teme que qualquer movimento sobressalente chame a atenção de alguém para a sua condição embaraçosa.

Biografia da Esfinge

“No fim a  pessoa fica ‘culta’. Mas não é o meu gênero. A ignorância nunca me fez mal” (Clarice Lispector) “Clarice,” é o nome. Assim mesmo, com vírgula no lugar do ponto, conduz ao único movimento seguinte possível: a leitura de página após página após página após página, até que se atinja a contracapa. Então o livro fecha, e você sente que deixou algo de si lá dentro em algum lugar – foi devorado pela esfinge.