Livro, Resenhas
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Biografia da Esfinge

“No fim a  pessoa fica ‘culta’. Mas não é o meu gênero. A ignorância nunca me fez mal”
(Clarice Lispector)

“Clarice,” é o nome. Assim mesmo, com vírgula no lugar do ponto, conduz ao único movimento seguinte possível: a leitura de página após página após página após página, até que se atinja a contracapa. Então o livro fecha, e você sente que deixou algo de si lá dentro em algum lugar – foi devorado pela esfinge.

Nascida Chaya na Ucrânia, desembarcou no Recife ainda bebê, nos braços da mãe. Foi trazida pelo movimento judeu em busca da sobrevivência, e no Brasil ganhou novo nome, um brasileiro hoje conhecido em todo o mundo, Clarice. Aqui leu Dostoievski, Herman Hesse e Spinoza, e acompanhada deles e de suas questões escreveu sua própria obra: uma autobiografia dividida em mais de 20 livros e outros tantos artigos de jornal e cartas. Porque cada personagem foi pretexto para pensar e falar de si própria.

“’Em que medida você é Joana?’, perguntou certa vez uma entrevistadora. Ela respondeu: ‘Madame Bovary c’est moi’” (pág. 106 – Joana é personagem de “Perto do Coração Selvagem”)

Mesmo após a morte, Clarice Lispector continua produzindo, e sem recorrer a psicografias. Ela, que enfrentou dificuldades na publicação de vários livros, hoje é a escritora mais citada até com frases que sequer são suas. Profética, quando viva temeu que isso acontecesse:

“Acordei com um pesadelo terrível: sonhei que ia para fora do Brasil (vou mesmo em agosto) e quando voltada ficava sabendo que muita gente tinha escrito coisas e assinava embaixo meu nome. Eu reclamava, dizia que não era eu, e ninguém acreditava” (pág. 66)

A biografia compensa a ausência física de sua biografada: Ao final o leitor sente-se pequeno, intimidado diante de figura assim enorme. Intimidado pela lenda, mas íntimo da essência. Benjamin Moser, o autor, inaugurou nova espécie de biografia; é original, não se detém em eventos pontuais. Seu trabalho de pesquisa é evidente, e quem o lê aprende história mundial e brasileira se deliciando com a história da escritora. Trata-se de um livro para leitores curiosos.

Pois bem, lá se foi Clarice. Há 37 anos. A mulher que magnetizou os olhares de homens e mulheres continua a cativar admiradores, motivar monografias, virar biografia. E tanto colocou de si própria em cada frase que escreveu, que duvida-se que ela tenha mesmo ido. Um triste fim para quem desde cedo temia a eternidade:

“Mediante o improvável auxílio de um pedaço de chiclete, Tania introduziu sua irmã caçula no ‘penoso e dramático’ conceito de eternidade. Tania comprou para ela uma novidade no Recife – chiclete – e disse: ‘Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira’. Uma perplexa Clarice o apanhou, ‘quase não podia acreditar no milagre’, e Tania mandou-a ‘mascar para sempre’. Clarice ficou aterrorizada, sem querer confessar que não estava à altura da eternidade, que a ideia a atormentava, mas ela não ousava. Finalmente, quando elas estavam indo para a escola, conseguiu deixar o chiclete cair na areia, simulando decepção e constrangida por estar mentindo à irmã. ‘Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim’”. (pág. 122).

Desculpe-nos, Clarice, mas você é eterna.

Clarice,Título original: “Why This World: A Biography of Clarice Lispector”
Autor: Benjamin Moser
Páginas: 648
Tradução: Jose Geraldo Couto
Sinopse: Com o título Clarice, (lê-se “Clarice vírgula”), a Cosac Naify publica a mais completa biografia de Clarice Lispector, escrita pelo norte-americano Benjamin Moser. Resenhada com destaque pela imprensa estrangeira, como o jornal The New York Times e a revista The Economist, a obra revela, pela primeira vez, aspectos fundamentais na trajetória da escritora, desde a origem miserável e violenta na Ucrânia – para onde o autor viajou – ao reconhecimento crítico. A partir dessa pesquisa inédita, Moser tece relações entre a vida e a obra da brasileira – assim fazia questão de ser reconhecida – numa narrativa envolvente. O livro tem aberto os olhos internacionais para a literatura de Clarice Lispector, até agora restrita a alguns meios.

32 comentários

  1. Minhas Impressões diz

    Oi Monalisa.
    Quando eu li essa biografia da Clarice senti a mesma coisa: uma necessidade inevitável de continuar lendo e continuar lendo até que o livro acabasse. O livro acabou, mas Clarice ficou para sempre dentro de mim.
    Excelente essa biografia do Moser.
    Abraços.

    Minhas Impressões

    Curtido por 1 pessoa

  2. Tenho curiosidade de ler esta biografia da Clarice para ver se me empolgo a ler seus romances. Tenho Perto do Coração Selvagem desde 2012, mas ainda não encarei a leitura, pois fico com receio de não entender. Talvez eu queira conhecer a escritora antes de me aventurar em suas obras. No mais, ótimo post! Beijos, Monalisa!

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    • Lulu, foi assim comigo. Antes de ler a biografia, eu só conhecia “A Hora da Estrela” (que também é muito bom). Aliás, te deixo um conselho: a partir da metade, a biografia pode dar alguns spoilers sobre os livros da Clarice, mas são coisas facilmente perceptíveis e evitáveis (ou seja, você pode pular essas partes). E de certa forma todos esses spoilers já foram amplamente divulgados, então você provavelmente já os conheça… Enfim, mesmo que você nunca tenha lido nenhum livro da Clarice recomendo muito a biografia! É um exemplo de pesquisa, boa escrita, tudo o mais, é realmente muito boa! Recomendo este livro até para quem odeia a obra da Clarice Lispector 😉

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  3. Biografias são bem interessantes, principalmente se você é fã de determinado autor, ou até celebridade, eu sinceramente, não teria muita paciencia para esse tipo de leitura, mesmo possuindo aspectos legais e até para sanar curiosides, não me vejo lendo esse tipo de obra, mas é gosto sabe. No entanto, foi muito bom ler sua opinião sobre a biografia da Clarice, mesmo que eu não tenha ficado interessada no livro, gostei do que você apresentou sobre o mesmo

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  4. Oi Mona,

    vou te falar que tenho preconceitos com a Clarice por causa daquela bosta (com todo o respeito) de livro chamado A Hora da Estrela HUAHUAHUAHAU gente, sério, sei que muita gente adora o livro, mas eu não consegui ler nem 10 páginas dele. O livro começa na 9 e eu nem cheguei até a 20!! Achei beeeeem ruim. Nunca tentei ler outro livro da autora, talvez se eu lesse, essa má impressão sairia, mas… biografia passa longe =P

    beijos
    Kel
    http://www.porumaboaleitura.com.br

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  5. Diana Canaverde diz

    Olá… tudo bem??
    Realmente Clarice é eterna seus textos e frases nos hipnotizam e falam coisas que sentimos e a cerca de cada momento de nossas vidas… essa mulher foi um diferencial de sua época e que se faz presente nas novas vidas desde de sempre… Xero!

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  6. Mari Sacramento diz

    Olá!! Fiquei super curiosa!! Confesso que não li muitos livros da Clarice, apenas alguns para a escola, mas não há como negar a sua influência e importância para a nossa literatura. Gosto de biografias e já anotei a dica!!

    Beijos,

    Mari
    cantinhodeleituradamari.blogspot.com.br

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