Literatura
Comentários 3

Objeto em extinção

Vi uma bolinha de gude passando no valão. Uma bolinha de gude, ninguém mais brinca disso. Ela poderia ser minha.

Aos sete anos eu colecionava gudes com meu primo. A maior parte da nossa coleção era proveniente da coleção da minha mãe (naquela época elas já estavam virando decoração). Um dia inventei uma mentira.

 

Já havia aprendido o gosto por contar histórias, mas ainda me faltava certo senso ético, uma sensibilidade para distinguir a diferença entre história e mentira. Contei que bolinhas de gude derretem se ficarem muito tempo na água. Como gelo, mas um gelo bem resistente que leva muito tempo pra derreter, e quando derretesse, restaria só a carambola colorida lá de dentro. Uma história visualmente linda, é inegável, mas ainda assim uma mentira.

Meu primo acreditou. Eu também. Sei lá, minha mentira poderia perfeitamente ser uma verdade ainda desconhecida pela humanidade, daquelas que levam anos para os cientistas comprovarem. Como eu tinha certeza de que nenhum cientista estaria fazendo esse experimento, eu mesma resolvi fazer. Eu ganharia algum desses prêmios mundiais, será que a professora me daria uns pontos extras na minha nota de ciências?

Pra provar minha hipótese, eu precisava de uma vasilha com água. Uma vasilha secreta, que minha mãe não descobrisse e não jogasse fora. No quintal havia um banheiro que ninguém usava, era perfeito. Tarde da noite, com monstros noturnos no meu encalço, corri para o banheiro. Corajosamente sem ligar a luz, e portanto impossibilitada de espantar todos os monstros, coloquei uma bolinha no vaso sanitário sem que ninguém me visse. Eu sabia que o experimento demoraria até gerar um resultado, aquilo não era uma coisa qualquer. Levaria anos até que pudesse provar minha teoria, mas durante os dois dias seguintes voltei da escola na expectativa de ver se já não havia algum desgaste aparente, uma lasquinha boiando, uma borbulha de reação química. Ia ao banheiro do quintal a cada 15 minutos pra checar a situação.

Até o terceiro dia. Cheguei correndo da escola, a mochila largada em qualquer lugar da sala, troquei de roupa e corri para o banheiro. Mas não havia mais nada no vaso, nenhum vestígio de bolinha. Alguém decidira, enfim, usar o banheiro do quintal, dera descarga, e agora minha bolinha estava pelo esgoto. Lá se foi o meu experimento, eu não poderia provar nada. E nada de nota extra em ciências.

Até hoje. Tenho certeza de que aquela era a minha gude passando no valão, ninguém mais brinca disso hoje em dia. Ela ainda está inteira, aliás. O desgaste leva mesmo muito tempo.

Este post foi publicado em: Literatura

por

Espécime da safra de 89. Recentemente descobriu que não consegue escolher uma coisa só, então alterna a vida profissional entre as funções de jornalista e fotógrafa. Criou o projeto fotográfico "Uma Pessoa Por Dia", onde consegue mesclar as duas coisas.

3 comentários

  1. Oi, Flor! Tudo bom?
    Quando li a palavra bolinha de gude, imediatamente fui transportada para minha infância. Eu brincava muito com bolinhas de gude. Apesar de mentira de errado, achei essa muito criativa e acho que se escutasse algo assim, com certeza teria colocado uma na água e ficaria esperando o derreter.
    Quando somos crianças, sempre queremos fazer algo inovador, achar que uma bolinha de gude pode derreter na água, ou que podemos inventar uma receita maravilhosa na cozinha com todos os ingredientes da geladeira. Gostei muito do seu texto, ultimamente tenho sentido falta dessas experiências e pensamentos infantis!
    Beijinhos

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s