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Bruna Linzmeyer: “Há algo de inexplicável em ser ator”

Foto: João Miguel Junior

Em janeiro de 2014, eu trabalhava na TV Globo. A principal novela da emissora na época era “Amor à Vida”, a mesma que destacou Tatá Werneck como Valdirene (ou Valdelícia) e Mateus Solano como Félix. Em um dos núcleos secundários, estava Bruna Linzmeyer. Antes de pintar os cabelos de rosa e protagonizar o remake de “Meu Pedacinho de Chão”, a atriz viveu a personagem autista Linda. E apesar de todas as polêmicas surgidas quanto à dramaturgia em si, uma coisa é inegável: o trabalho de Bruna foi impecável. 

Curiosamente, só pude percebê-lo quando o vi ao vivo. Era a primeira vez que eu presenciava a atriz como Linda, e acredite, não há nada como ver uma atuação ao vivo. É como se, ao chegar à TV, com todos os cortes de câmera direcionando o olhar do espectador, a atuação perdesse força. Meu papel ali dentro era entrar como sombra, fotografar a cena e sair sem que ninguém me visse. Mas eu não consegui, fui arrebatada, sentei-me no chão e fiquei para assistir. E depois de tudo terminado, eu precisava de alguma forma conversar com a Bruna – e a melhor desculpa que um jornalista pode dar para isso é fazer uma entrevista, certo?

Agora, um ano após esse encontro que me suspendeu o ritmo, apresento aqui no blog a entrevista publicada originalmente no Gshow:

Clique aqui e assista à cena em questão

Um belo dia, Bruna Linzmeyer foi convidada a emprestar seu talento à novela “Amor à Vida”, da TV Globo. Exatos nove meses depois, nascia Linda. De parto normal e sem complicações, a atriz deu à luz a personagem autista que despertou elogios desde os primeiros capítulos da trama de Walcyr Carrasco.

Em entrevista exclusiva, ela comenta a experiência. O local da conversa, inusitado, ela própria que escolheu: o gramado do Projac. No estúdio em frente, acabara de ser gravada a cena emblemática da história de Linda, na qual a moça pede socorro à família. E foi assim, recém-saída da gravação, sentada na grama com pés descalços e voz suave, que a jovem catarinense respondeu às perguntas:

Por que você escolheu dar a entrevista aqui, no gramado, com os pés descalços?
Porque eu sou uma pessoa da natureza, assim como a Linda. Ela adora as formiguinhas. De vez em quando eu venho para cá, me sento aqui e aproveito o tempo para relaxar, refletir, ler um pouco.

Você poderia comentar a gravação da cena em que a Linda pede socorro à família?
Com prazer. A cena é linda, é muito linda. Às vezes, um autista e sua família podem nunca ter um momento como esse, mas em muitos outros casos ele existe. E trata-se de um momento muito arrebatador, porque ninguém espera. A Linda não é um personagem verbal, não sabe o que o verbo significa, ele não a satisfaz. O verbo é só mais uma coisa na vida, só mais uma maneira de ser. É preciso muito aprendizado com terapias, fonoaudiologia e psicologia para que um autista chegue a esse estágio verbal. Então, é muito bonito, principalmente para as pessoas não autistas, porque eles são seres verbais, precisam de palavras para se comunicar. Para a Linda, o que é potente é o que acontece depois desse momento. Ela só percebe a potência daquela cena no dia a dia que acontece depois.

Você comentou com o diretor, Mauro Mendonça Filho, que o texto da cena estava muito bom… Por quê?
Estava muito bem construído. Sua construção foi muito boa por não ser exatamente linear. O pensamento de uma pessoa não autista é linear, diferente de como acontece com a Linda. O pensamento dela é entrecortado. Além disso, o texto é recheado de referências, e o trabalho é feito a partir de histórias que já existem. A Linda existe porque os autistas existem, e porque eles precisam que a Linda exista também. Foi um texto cheio de história.

Como a Linda afetou você?
Por inteiro. A Linda me afetou muito, de muitas maneiras. Ela mudou meu olhar, meu ritmo, meu tempo, mudou muita coisa. Eu não tenho a dimensão do quanto ainda, mas espero que isso ainda reverbere por algum tempo em mim.

Isso é tudo que você vai levar da Linda quando a novela terminar?
Não. Eu pedi para ficar com um dos quadros da Linda. Na verdade, eles são de uma artista muito sensível, e eu realmente acho os quadros dela verdadeiras obras de arte, porque eles me atravessam. Eu os acho lindos, e eles são um signo do que a Linda foi e é na minha vida. Gostaria de ter um signo para levar comigo. Pode ser qualquer um deles. Ainda não sei onde vou pendurar o quadro. No meu coração, com certeza.

Como você pretende influenciar as pessoas com o seu trabalho?
Quando a gente inventa ou decide fazer um trabalho, tudo o que queremos é que nosso trabalho possa afetar as pessoas, assim como os quadros da Linda me afetam. Talvez essa seja a característica de uma obra de arte: atravessar as pessoas. Isto ou aquilo são obras de arte para mim porque me atravessam, porque mudam a batida do meu coração. Tudo o que um artista quer é fazer uma obra de arte, mas nem sempre ele faz. Nem sempre dá para fazer. Eu não sei se a Linda é uma obra de arte, mas existe em mim o desejo de que ela seja. Eu fui muito afetada pela Linda, e isso já é importante para mim.

Como são os momentos após as gravações?
Muito bons! Há algo de inexplicável no trabalho de um ator. Você traz à tona emoções muito profundas, algumas são suas, outras são de outras pessoas, e outras são inventadas. E depois que a cena acaba você fica num lugar vazio. Isso parece ser ruim, mas é bom. Como está vazio, você pode inventar uma coisa nova para colocar nesse lugar. Você pode ser uma nova pessoa depois de fazer uma cena em que você ficou vazio no final. Ou seja, trabalhar como atriz cria espaços vazios, além de criar muita coisa.

E os momentos que antecedem as gravações? Como são?
Está aqui o pré-cena, eu carrego na bolsa. As músicas que ouço desde o começo são as mesmas, incluindo uma inédita, que nunca foi publicada. Só eu tenho essa música porque é do meu namorado, o Michel Melamed. E tem também os livros, que me acompanham sempre. São muitos, desde biografias até livros de poesia. Mesmo que eu não consiga lê-los, só de tê-los por perto já faz alguma diferença. Nunca são os mesmos livros. Às vezes eu olho para a minha estante e elejo aquele, sem nenhum motivo específico. Os livros e as músicas são tão importantes quanto o texto e o figurino. Eles são uma conexão com pessoas que eu admiro, com pessoas que mudaram a minha vida.

O que existe no universo interior que você construiu para a Linda?
Muita consciência de tudo. A Linda sabe de tudo, muito mais que todo mundo. E essa vida interna existe desde a primeira faísca de existência da personagem. Desde as primeiras cenas, eu procurava olhar para as coisas com o olhar de quem vê, de quem sabe. E é tão bonito chegar ao final da novela e perceber que houve conexão com o autor, porque ele faz a Linda dizer exatamente isso: “Eu ouvia vocês”. E isso significa “eu entendia, eu sabia, eu sei”.

O que você gostaria de dizer às pessoas que têm acompanhado seu trabalho?
Gostaria de dizer “obrigada”. Ouço tanta coisa das pessoas, e a Linda não existiria sem elas também. A construção de uma personagem depende do público, especialmente em uma novela em que a história é influenciada pelo que o público espera, e tudo muda o tempo todo. Então eu tenho que agradecer a todo mundo que está em volta. Parece um clichê, mas é verdade.

*Foto de abertura: João Miguel Junior.

Este post foi publicado em: Entrevistas

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Espécime da safra de 89. Recentemente descobriu que não consegue escolher uma coisa só, então alterna a vida profissional entre as funções de jornalista e fotógrafa. Criou o projeto fotográfico "Uma Pessoa Por Dia", onde consegue mesclar as duas coisas.

12 comentários

  1. Diana Canaverde diz

    Olá… tudo bem??
    Nossa que entrevista maravilhosa!!! Gostei muito de saber como foi fazer esse papel. Eu gostava muito da personagem e confesso que a minha maior vontade de assistir a novela era por ela… que fez o papel perfeitamente bem… que me fazia torcer por ela… e que eu queria que crescesse cada vez mais… adorei saber um pouco mais sobre a atriz… xero!

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