Experimentos, Literatura
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Eu preciso que eles melhorem

Sempre que eu ouço alguém falando desses garotos e garotas com tanta raiva, eu me lembro daquele menino. Franzino, a altura não passava do meu tórax, hoje ele deve estar maior, quase com 16. Vinha num grupo de cinco, quatro talvez. Todos sorridentes, correndo, pés no chão, as pernas magricelas desafiando a física. Passou por mim, recém-saído da sombra do poste. O peito nu combinando com a sombra escura do poste. Passou por mim e agarrou minha correntinha de ouro, arrancou-a do meu pescoço ao mesmo tempo em que me chamava de gostosa e soltava um sorrisinho, o talento para várias tarefas simultâneas.

Mas ele parou de correr, eu olhando pra trás, a mão direita segurando os três dedos de cicatriz que ele me deixou. Ele olhou pra trás, bem sério, tinha uma faquinha na cintura. Um menino de 8, 9 anos com uma faquinha na cintura. Sozinho, muito magro, muito sujo. Parou, olhou pra trás, meu olhar puxou o dele. Uma conexão inusitada, não mais que um segundo expandido pela nossa percepção, realidade paralela. Até que “Corre, muleke!” de um lado, “O que houve, Mona?” de outro. “Aquele menino”, “Quê?”, “Aquele menino pegou meu cordão”. E ele já havia sumido, sabe-se lá pra onde. E eu chamei um táxi, voltei pra casa, chorei deitada na minha cama, minha mãe fez chá pra mim.

Lembro daquele outro também, anos antes. Uma versão mais velha e mais perigosa do menino do colar. Devia ter a minha idade na época, 16 ou 17, e me causou horas de muito terror. Entrou na minha casa, ameaçou meu pai de morte, minha mãe, meu tio, minha tia, meus primos, meu cachorro. Entrou com uma arma carregada no lugar que eu acreditava ser o mais seguro do mundo. O lugar onde eu nunca mais dormiria tranquila, onde todos os dias eu passaria a acordar vomitando de tanta ansiedade. Me fez entrar na caixa d’água para que ele não me descobrisse. Roubou o carro do meu pai, os arquivos do meu pai, meses de fonte de renda da minha família, e foi embora. No dia seguinte, na faculdade, tive muita dificuldade em prestar atenção à aula. Já ele, eu não tenho ideia do que poderia estar fazendo.

Eu vejo essas pessoas falando com tanta raiva desses garotos e garotas e lembro da Dora, do Pedro Bala, do Sem-Pernas. Eu tenho medo de todos eles. Muito, muito mesmo. Eles roubam, eles matam, eles estupram. Mas eles precisam de mim, e eu preciso deles, preciso que eles melhorem. E educar é mais eficiente do que punir.

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Espécime da safra de 89. Recentemente descobriu que não consegue escolher uma coisa só, então alterna a vida profissional entre as funções de jornalista e fotógrafa. Criou o projeto fotográfico "Uma Pessoa Por Dia", onde consegue mesclar as duas coisas.

30 comentários

  1. Oi, tudo bem? Adorei o post, muito pertinente. A sociedade não entende que jogar um menor (que, sim, sabe o que está fazendo, mas fica a pergunta: alguém sabe sobre a vida dele?) numa cela com gente formada no crime é pedir para esse menor nunca mais ser resgatado. Acredito que lidar com a juventude não é apenas remediar, isso é operação tapa-buracos. Ao invés de aumentar celas e presídios, por que não as escolas? Fala-se tanto em educação, mas cadê o pessoal entendendo, de fato, que esse é o único meio de melhorar um indivíduo? Daqui a pouco, vão ter que fazer celas pro pessoalzinho da creche. E outra coisa: Capitães de Areia é, eternamente, o meu clássico brasileiro preferido ❤ Adoro cada um daqueles meninos!

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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  2. Oi Mona,

    adorei o seu texto. Aqui pelo trabalho, costumo fazer pautas com frequência em casas de menores infratores, DEGASE e presídios. É difícil, beeem difícil. Principalmente quando eu entro em um presidio onde os detentos trabalham em uma padaria interna, fazem jardinagem, tem aulas de reforço escolar e entro em um DEGASE onde a quadra de esportes fede a xixi, onde as celas tem infiltrações, onde as celas mal tem uma janela em um calor do rio de janeiro de 60 graus. Ver essas crianças de 12 anos assaltando nas ruas é deprimente. Coisa de pais que não educam e coisa das próprias crianças e veem em exemplos perto de onde moram uma forma de ganhar a vida fácil. Só vou ser a favor da redução da maioridade penal quando o sistema de penitenciaria para os jovens tiver a menor condição de dar, pelo menos uma educação para eles. Eles ficam lá, presos, sem ter nenhuma condição, não há uma vontade de dar uma outra opção para eles. Isso é terrível.

    Bom, já falei demais

    beijos
    Kel
    http://www.porumaboaleitura.com.br

    Curtido por 1 pessoa

  3. Oi ^^
    Adorei o texto, fiquei encantada com as suas palavras e a forma de se expressar.
    Apoio totalmente a ideia de que estas crianças precisam de ajuda, educação, saúde, acolhimento., etc.
    Pensar em punições piores não é a forma de ajudar essas crianças.

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  4. Hey, tudo bem?

    Nossa, adorei demais o seu texto. Com essa sutileza você disse tudo. Sério, me representou. Punir por punir é simplesmente tão ignorante e fico chocada como as pessoas não percebem isso. Eles causam medo? Sim. Mas falta uma análise mais profunda, uma base mais firme, correta, humana. Quando essa base, essa educação, for fornecida igualitariamente e de forma correta veremos os resultados, assim espero.

    Beijos,
    Dois Dedos de Prosa

    Curtido por 1 pessoa

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