Livro, Resenhas
Comentários 17

Um belíssimo romance histórico

Alheia às comemorações de réveillon, uma avó conta sua história de vida para a neta. Assim começa “Uma Praça em Antuérpia” que, com sua narrativa não-linear transitando entre presente e passado, conta a saga das gêmeas Olívia e Clarice na fuga do nazismo. Uma história sobre as várias formas de amor e sua capacidade de, sem licença para metáforas, transformar duas pessoas numa só. Escrito pela carioca Luize Valente, o livro é um romance histórico. Ou seja, tudo nele é real: datas, locais, notícias de jornal, tudo é fruto de um exímio trabalho de pesquisa, com a exceção dos personagens centrais, criados pela autora como uma espécie de licença poética para conseguir retratar a época em questão.

“O mais repugnante, ela dissera, é que os alemães estavam chocados com os incêndios e a depredação, mas não com o fato de judeus serem vítimas de ataques e agressões físicas” (Pág. 137)

Embora trate de um tema amplamente explorado, esta não é apenas mais uma obra sobre a Segunda Guerra Mundial. Pelo contrário, se destaca e prova que o assunto é inesgotável. Com destreza, a autora consegue transferir o sentimento dos personagens para o leitor, tamanha é a identificação que eles causam. Sendo judeu ou não, tendo ou não na família um sobrevivente da guerra, o leitor se comove. Nesse quesito, o livro cumpre uma das mais belas funções de uma obra de arte: a de informar e gerar empatia.

“O que, até um dia antes, era impessoal, pertencia a uma realidade que ela via pela televisão, pelo cinema, nos livros, agora cravava suas entranhas. A Segunda Guerra deixava de ser um capítulo da história do mundo para virar um capítulo da sua própria história. Seis milhões e judeus morreram no Holocausto. ‘Quando os mortos não têm rosto nem nome’, ela pensou, ‘a ordem de grandeza dificilmente comove’. Agora era diferente”. (Pág. 242)

A escrita é simples e sem mistérios, a surpresa fica por conta da narrativa: Luize sabe como surpreender. Os capítulos curtos, interligados por frases marcantes, fazem a leitura das mais de 300 páginas algo natural, além de denunciar a origem da autora: jornalista, trabalha há mais de 20 anos com edição de texto em televisão. Dessa forma, a narrativa de seu segundo romance apresenta elementos típicos de um texto televisivo: agilidade, concisão e um poder de descrição quase cinematográfico.

De tudo isto, resta pouco do que reclamar: No primeiro terço da obra, os diálogos de avó e neta por vezes ficam um pouco cerimoniosos, aparentemente deslocados da época em que acontecem (o primeiro dia do ano 2000, logo após o réveillon). De forma alguma isto compromete a qualidade do livro. O incômodo existe mas não persiste: o conjunto é bom demais. Ao final da leitura resta o sentimento de que “Uma Praça em Antuérpia” mereceria uma adaptação para o cinema ou teatro. Ficarei na torcida!

 Clique aqui e leia as primeiras páginas do livro!

*Livro cedido em parceria pelo Grupo Editorial Record

Uma Praça em AntuérpiaTítulo: Uma Praça em Antuérpia
Autora: Luize Valente
Editora: Record
Páginas: 364
Sinopse:
 Após sua estreia literária com O segredo do oratório, sucesso de público e crítica, Luize Valente volta a mergulhar, de maneira ainda mais surpreendente, na história de uma família de migrantes em Uma praça em Antuérpia. Com domínio da narrativa, que vai e volta do ano-novo de 2000 em Copacabana para os anos da eclosão da Segunda Guerra na Europa, Luize reconstitui a desgraça imposta pelo nazismo aos judeus, razão pela qual muitos deles viriam fazer a vida no Brasil.
Reunindo sensibilidade pelo drama humano e extensa pesquisa histórica, Luize retrata a chaga do nazismo na miudeza do cotidiano, na intimidade das famílias alemães e europeias, com bárbaros desdobramentos em Portugal, no lar de Clarice e Olivia, de onde a narrativa parte para ganhar o mundo e o Brasil. Acompanhamos a fuga de Clarice e seu marido, o pianista judeu Theodor, por grande parte da Europa, sempre um passo à frente da perseguição nazista, fuga que leva parte da família a cruzar o oceano. Como se não bastasse essa narrativa de tirar o fôlego, Luize presenteia o leitor com um final emocionante e totalmente inesperado.

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17 comentários

  1. Olá!
    Acredita que eu tenho esse livro, mas ainda não havia pensado em colocá-lo na frente da lista de leituras?
    Tua resenha me deixou curiosa e com bastante vontade de conhecer melhor esta história 😀

    bjs

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    • Oi, Angélica! Bem, acho que você pode gostar bastante desse livro. Ele não se foca na perseguição da Guerra, mas nas relações de amor. Tem personagens muito bons, também, e a narrativa é muito ágil, pega a gente de jeito. Super recomendo! 🙂

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  2. Oi Monalisa, quando comecei a ler sua resenha, lá no início mesmo, me lembrei de um que li não tem muito tempo e cujo pano de fundo é mais ou menos este, uma história real contada como se fosse fictícia. Mesmo tendo isso parecido entre ambas, e por se tratar do nazismo, percebo que as autoras conseguiram manter seus enredos bem diferentes. Gostei e vou procurar para ler.
    Bjs, Rose.

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  3. Olá!!!!!
    Não conhecia esse livro mas, gosto muito de livros que nos contam histórias reais e princialmente se elas se passaram na Segunda Guerra, adorei a indicação e a resenha. beijão*…*
    Thais/Notinhas de Rodapé

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  4. fernandazanetti1 diz

    Não conhecia essa leitura,achei bem interessante, porém não estou na vibe desse gênero no momento, mas é uma ótima pedida, num futuro pretendo estar lendo,
    Bjus

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  5. Monalisa, recebi esse livro da editora e gostei da sinopse, ainda não inciei a leitura.
    Gosto quando as histórias são reais, requer pesquisas dos escritores e escritoras. Primo por esse tipo de obra, enquanto leitora e escritora.
    Essa obra em questão, dá uma sensação de rememorar contadores de história, aqueles que estão em extinção, mas quando encontramos, aproveitamos cada segundo. Também lembrei das histórias de trancoso, tudo isso com a sinopse. Meio receio em começar é justamente por ser um diálogo entre familiar, avó e neta e meus avós estão só esperando a hora… Acredito que ficarei bem emocionada! Mas, tudo isso são só divagações… Fico pensando, quantas histórias morrerão juntos com eles sem que ninguém saiba?
    Bjs, adorei a resenha!

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