Livro, Resenhas
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A ficção autobiográfica de Chico Buarque

“E eu que nunca morri de amores por aquele irmão, eu que o teria trocado por um irmão alemão sem pestanejar, passei a me inquietar com a ameaça de ficar sem irmão nenhum” (pág. 160)

Chico Buarque escreveu sua autobiografia recheada de episódios ficcionais. Espécie de romance baseado em fatos reais, recortado pela descoberta e consequente busca de um suposto irmão bastardo nascido na Alemanha, permeado de história mundial e brasileira. E mais: “O Irmão Alemão”, o mais recente livro de Chico, apresenta aos seus leitores uma verdadeira declaração de amor aos livros:

“Até então, para mim, paredes eram feitas de livros, sem o seu suporte desabariam casas como a minha, que até no banheiro e na cozinha tinha estantes do teto ao chão. E era nos livros que eu me escorava, desde muito pequeno, nos momentos de perigo real ou imaginário, como ainda hoje nas alturas grudo as costas na parede ao sentir vertigem. E quando não havia ninguém por perto, eu passava horas a andar de lado rente às estantes, sentia certo prazer em roçar a espinha de livro em livro. Também gostava de esfregar as bochechas nas lombadas de couro” (pág. 16)

Filho de um homem apaixonado por livros, cujo ritmo de leitura não era menor que um por dia e cuja biblioteca alcançou, ao fim da vida, os 20 mil exemplares, Francisco nasceu e cresceu numa casa ocultas por estantes, uma residência onde os livros são onipresentes. Como quem encontra agulha em palheiro, eis que descobre ao acaso, durante a adolescência, uma carta misteriosa escondida entre as páginas de um dos livros do acervo. Endereçada ao seu pai e já gasta pelo tempo, a carta traz as palavras de uma tal Anne, antigo caso do pai e mãe de seu meio-irmão alemão.

Embora a história seja recheada de fatos reais, incluindo perseguições e sumiços ocasionados pela Ditadura Militar, o alterego de Chico é inventivo, dado às amplas imaginações. Faz-se, assim, uma narrativa quase cinematográfica, que passeia com sutileza entre realidade e ficção. Aliado a uma escrita madura e bem humorada, tudo isto faz de “O Irmão Alemão” uma ótima literatura, que além de muito bem amarrada, faz sorrir com ótimo timing. A citação abaixo, por exemplo: Em apenas um fragmento de cena, temos uma gata com nome de mulher, uma mulher como nome de nematelminto e a comicidade da surpresa:

“Bate a porta, e estou no portão quando ela torna a abri-la: psiu. É para Piaf, que vinha atrás da Minhoca e volta correndo para dentro”. (pág. 109)

Clique aqui e leia o primeiro capítulo do livro!

IRMAO-ALEMAO-433x620Título: O Irmão Alemão
Autor: Chico Buarque
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 240
Sinopse: A narrativa se estrutura numa constante tensão entre o que de fato aconteceu, o que poderia ter sido e a mais pura imaginação. Na São Paulo dos anos 1960, o adolescente Francisco de Hollander, ou Ciccio, encontra uma carta em alemão dentro de um volume na vasta biblioteca paterna, a segunda maior da cidade. Em meio a porres, roubos recreativos de carros e jornadas nem sempre lícitas a livros empoeirados, surgem pistas que detonam uma missão de vida inteira. Ao tentar traçar o destino de seu irmão alemão, parece também estar em jogo para o narrador ganhar o respeito do pai, que, apesar dos arroubos intelectuais de Ciccio, tem mais afinidade com Domingos, ou Mimmo, seu outro filho, galanteador contumaz, leitor da Playboy e da Luluzinha, e sempre a par das novas sobre Brigitte Bardot. A despeito das tentativas de mediação da mãe, Assunta – italiana doce e enérgica, justa e com todos compreensiva -, a relação dos irmãos é quase feita só de silêncio, competição e ressentimento.
Num decurso temporal que chega à Berlim dos dias presentes, e que tem no horror da ditadura militar brasileira e nos ecos do Holocausto seus centros de força, O irmão alemão conduz o leitor por caminhos vertiginosos através dessa busca pela verdade e pelos afetos.

*Livro cedido pela editora

25 comentários

  1. Olá.
    Dificilmente leio biografias, exeto no caso de pessos que sou muito fã ou que eu esteja pesquisando sobre a vida dela. Em geral gosto mais de ficção do que realidade. Mas A bibliografia de Chico Buarque deve ser fantástica pela história de vida e sua trajetória.
    Parabéns pelo post.

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