Mês: junho 2015

Um reflexo para Charlie Brown

Só alguém inundado em emoção consegue unir inocência e realismo com profundidade na mesma arte. E não há ingrediente melhor para uma imersão sentimental do que a solidão, ou há? Esse foi o caso de Charles M. Schulz. Quando criança, era do tipo esquisitão, que afasta os outros: extremamente tímido, sem autoestima, cheio de espinhas e mirrado demais para praticar qualquer esporte. Sparky, como era conhecido, ia mal em todas as matérias, sofria com a opressão de seus professores e não conseguia falar quando estava perto de alguma garota. Um desastre completo, que colecionava frustrações. O garoto só se sentia bem quando refugiado na acolhedora escuridão das salas de cinema, ou quando entretido pelos quadrinhos de jornal, entre eles “Popeye” e “Turbinho”, sucessos da década de 30. Felizmente, não demorou muito para Sparky tentar seus próprios rabiscos e descobrir que da paixão nascia vocação. E foi dos lápis desta figura extremamente icônica que em 2 de outubro de 1950 nasceram os Peanuts (também conhecidos no Brasil como “Minduim”), uma série de tirinhas protagonizadas pelo bom e velho Charlie …

Apresentando: Ninho de Escritores

Talvez você não tenha reparado, mas existe um botão no menu ali em cima que se chama “Experimentos”. Entre a opção que conta mais sobre este blog e a seção que apresenta todas as resenhas já publicadas aqui, “experimentos” deveria ser a parte mais ativa daqui. Mas não é. Por diversos motivos, entre eles a falta de confiança, escrevo bem menos do que deveria quando o assunto são meus textos autorais. Há alguns meses, no entanto, conheci o Ninho de Escritores. Comandado por Tales Gubes Vaz, escritor, o Ninho é antes de tudo uma comunidade de troca de informações e experiências entre aqueles que almejam, um dia, viver de escrever (por mais difícil que isto seja na vida real). Além de encontros presenciais, o Ninho também tem um grupo muito legal no Facebook. Tanto lá quanto no blog, o Tales propõe uma série de exercícios que visam o desbloqueio da escrita e da criatividade. E, bem, foi justamente isso que me fez escrever este texto. A partir de agora, pretendo fazer estes exercícios. Isto significa …

Uma surpresa a cada oito páginas

Em um universo distópico, no qual o mundo foi tomado por toxinas que matam em poucos minutos, a humanidade se resume às pessoas que vivem dentro de um enorme silo subterrâneo de 144 andares. Centenas de pessoas confinadas para sempre, a não ser que se cometa o crime mais grave de todos: mencionar o mundo exterior. “Mesmo assim, quando comparada com o silo sufocante, aquela vista cinzenta e enlameada parecia uma espécie de salvação, o tipo de ar livre que os homens tinham nascido para respirar.” A regra é simples: Quem expressa mínima curiosidade sobre o que existe lá fora acaba ganhando um passe só de ida. O criminoso é enviado para a “limpeza”, espécie de pena de morte na qual a pessoa é exilada no exterior  com a única responsabilidade de limpar as lentes das câmeras que, posicionadas no topo do silo, transmitem imagens do mundo lá fora para os habitantes lá de dentro. Curiosamente, por gerações e gerações, todos os que receberam a sentença a cumpriram devidamente, mesmo que tenham passado suas últimas horas no silo deixando bem claro …

SORTEIO: “O Sol é para todos”, de Harper Lee

Após longo período com status de “esgotado” nas livrarias, “O Sol é para todos” acaba de ganhar nova edição pela editora José Olympio, do Grupo Editorial Record. Sucesso mundial, o livro rendeu o Pulitzer de Literatura para sua autora, Harper Lee. Com personagens sensacionais e história marcante, sua continuação já foi anunciada. Mas o mais importante nisso tudo é que você pode ganhar um livro só seu! CLIQUE AQUI e participe!!! ❤ REGULAMENTO Podem participar: Pessoas com endereço de entrega no Brasil Como participar: Cumpra todos os passos do formulário de participação Premiação: – Será sorteado 1 (um) exemplar do livro “O Sol é para todos”, da autora Harper Lee (nova edição, publicada em 2015 pela editora José Olympio, Grupo Editorial Record) – O resultado será divulgado nas redes sociais do blog Literasutra – O vencedor será comunicado por email e terá o prazo de 24h para entrar em contato. Caso contrário, o resultado será desconsiderado e um novo sorteio será realizado com os participantes já inscritos. O sorteio será realizado no dia 30 de junho de 2015. Boa …

Travesseiro de Gueixa

A primeira vez em que lhe perguntaram o que seria quando crescesse, ficou com cara de boba sem saber o que dizer. Dois dias depois disso, assistindo a um filme escondida atrás do sofá, foi apresentada a um mundo completamente novo. Samurais, mulheres de roupas coloridas e maquiagem engraçada, e então se decidiu: Quando crescesse, ela seria gueixa. Esperou por muito tempo até que alguém fizesse de novo a pergunta. Semanas, meses se passaram, e ela se deu conta de que comunicar sua decisão ao mundo não seria o bastante. Não bastava dizer que seria, era preciso ser de fato. Empurrou uma cadeira até a estante da sala, alcançou a prateleira onde um livro grosso indicava as letras G-H. Era ali que o avô procurava quando não conseguia responder a alguma pergunta. Muito pesado, o volume escapou-lhe da mão e quase lhe atingiu a cabeça, mas com sorte foi cair sobre o tapete, que tratou de abafar o som. Ali mesmo, a mãe demoraria a voltar do mercado e o gato não se importava muito …

Sobre luzes de emergência

“Luzes de emergência se acenderão automaticamente” é o segundo romance publicado pela gaúcha Luisa Geisler, que figura entre as listas dos melhores jovens escritores brasileiros. Repleto de referências contemporâneas e gírias, o livro foi claramente escrito por jovem, sobre jovens e para jovens, o que torna tudo muito divertido de se ler. “Sabe o que é idiota? Isso de tratar adolescentes tipo crianças durante, sei lá, toda a adolescência. Daí, aos dezessete anos tu vira cento e oitenta graus. E daí tu quer que eles decidam nos próximos poucos anos o que tu quer fazer pelo resto da tua vida” (pág. 216) Aos seus vinte e poucos anos, Henrique passa ano após ano como um barquinho de papel à deriva no Atlântico. Um sonho frustrado pela necessidade de agradar às expectativas dos pais, e de repente não lhe sobra nada: apenas uma vida ordinária, com trabalho ordinário e namoro ordinário. E um melhor amigo, Gabriel, que entra em coma após um acidente também ordinário. Para superar o choque, Henrique se mete na empreitada de contar …

Breve ensaio sobre tpm

Tenho a impressão de que as decisões mais importantes da minha vida são tomadas durante a tpm, e isso diz muito sobre mim. Eu me demito, eu me declaro, eu saio de casa sem rumo, eu penso em me matar. E choro convulsivamente a morte das pessoas queridas, a morte futura das pessoas queridas, a sujeira impregnada das pessoas de rua. A ponto de fingir que estou gripada pra ninguém achar que estou chorando de verdade. Durante a tpm eu viro outra mulher. Eu sinto coisas que não são minhas, mas que na verdade são e eu tenho certo medo de admitir. Eu sinto tudo sob lente de aumento, com intensidade à la Artaud, acordo no meio da noite com medo de eletrodos. Durante a tpm eu me mato e no momento seguinte sei que sou a pessoa mais feliz do mundo. Ilustração: Esra Roise

Livro com fortes concorrentes a personagens preferidos

“Atticus tinha razão. Uma vez ele disse que a gente só conhece uma pessoa de verdade quando se coloca no lugar dela e fica lá um tempo” (pág 347) Atticus é o herói de “O sol é para todos” e grande candidato ao posto de Personagem Favorito de Todos os Tempos – que não é nenhuma lista oficial, apenas um ranking pessoal que criei há pouco tempo e nunca dividi com ninguém. Aliás, Atticus só não é eleito logo de cara porque tem fortes concorrentes, um deles proveniente do mesmo livro: sua própria filha, Scout. Mas é claro que uma criança criada por ele também entraria na disputa… Se você nunca ouviu falar de “O sol é para todos”, identifique aí uma boa falha. O livro já rendeu nada menos que o Pulitzer para sua criadora, a norte-americana Harper Lee, e foi merecido. Publicado pela primeira vez em 1960, sua temática continua sendo terrivelmente atual. Seus personagens muito bem construídos (até mesmo os secundários) criam mais do que a empatia necessária com o leitor; e a narrativa torna impensável qualquer abandono. Ele …

“A graça está na surpresa do trabalho conjunto”

MonoLAB é um projeto da Editora Monotipia que disponibilizará histórias em quadrinhos inéditas em plataforma online e de forma gratuita. E a partir de hoje você confere uma série de entrevistas com os autores! Octávio Aragão é o roteirista de “Tamasha e o Fim do Mundo”, uma das HQs do MonoLAB. Junto com a ilustradora Mika Takahashi, ele deu vida à pequena Tamasha, uma menina de sete anos que vive em um quilombo.  Os dois se conheceram por intermédio de Martins de Castro, criador do projeto, e pode-se dizer que foi paixão artística à primeira vista. Confira: Qual é a sua motivação com essa história? Em outras palavras, “de onde ela surgiu”? A cada história que escrevo tento diversificar o ponto de vista e as vozes dos meus personagens. Ao ver os desenhos da Mika, em sua maioria cheios de meninas em situações surreais, pensei que estava na hora de criar uma protagonista infantil. Já o cenário e as reviravoltas do enredo nasceram da vontade de propor desafios à ilustradora, saindo de sua zona de conforto. Queria ver como …