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Um reflexo para Charlie Brown

Só alguém inundado em emoção consegue unir inocência e realismo com profundidade na mesma arte. E não há ingrediente melhor para uma imersão sentimental do que a solidão, ou há? Esse foi o caso de Charles M. Schulz. Quando criança, era do tipo esquisitão, que afasta os outros: extremamente tímido, sem autoestima, cheio de espinhas e mirrado demais para praticar qualquer esporte. Sparky, como era conhecido, ia mal em todas as matérias, sofria com a opressão de seus professores e não conseguia falar quando estava perto de alguma garota. Um desastre completo, que colecionava frustrações.

O garoto só se sentia bem quando refugiado na acolhedora escuridão das salas de cinema, ou quando entretido pelos quadrinhos de jornal, entre eles “Popeye” e “Turbinho”, sucessos da década de 30. Felizmente, não demorou muito para Sparky tentar seus próprios rabiscos e descobrir que da paixão nascia vocação. E foi dos lápis desta figura extremamente icônica que em 2 de outubro de 1950 nasceram os Peanuts (também conhecidos no Brasil como “Minduim”), uma série de tirinhas protagonizadas pelo bom e velho Charlie Brown, espelho da infância de Schulz. Um presente dado ao mundo pela solidão do autor.

Charles M. Schulz e sua criação

Charles M. Schulz e sua criação

Charlie Brown, Snoopy e seus amigos se tornaram uma fantasia de apelo praticamente perfeito, atraindo tanto crianças quanto adultos e capaz de tocar os medos mais íntimos de seus leitores em um tom de comédia e descoberta. As tiras encontraram o timing perfeito para mesclar a força de uma autêntica filosofia com a leveza do imaginário pueril. Logo as figuras de Sparky se converteram também em um fenômeno ininterrupto de marketing aos mais diversos produtos.

Com seus quadrinhos, Sparky mostrou ao mundo um grupo de crianças que não tinha pudor e estava acostumada a sempre dizer a verdade, ainda que grosseira. Personagens simples e muito inteligentes, com falas e ações precisas. Em tudo há uma mensagem, assim como humor, cultura e harmonia. Não é exagero dizer que os Peanuts foram uma revolução, e seu sucesso completamente compreensível. Os quadrinhos de Charlie Brown começaram a ser impressos no auge do pós guerra. O povo ainda sofria pelo tremor mundial e caminhava desorientado para uma nova era. A dor e sentimento de fragilidade faziam parte do ar, mesmo que demonstrar-se infeliz no país vitorioso fosse quase um crime.

Até então predominavam tirinhas de heróis perfeitos e o humor pastelão. Shultz ousou ao transportar seu próprio desconforto e vazio ao papel, retratando nos desenhos, pela primeira vez, um sentimento engasgado na sociedade. Com um traçado extremamente simples e contido, ele abordou tabus como religião e intolerância.

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O leitor sabia dos medos de Charlie Brown, sua insegurança e sentimentos de inferioridade. Mais do que isso, se reconhecia nele. A sensação de que o mundo não precisa de nós, e está contra nós. O medo do fracasso, do amor. A vontade de fazer a coisa certa e o desespero de errar. A sensação permanente de não pertencimento. As curtas tramas são capazes de expressar os mais terríveis infortúnios sentimentais do homem e, raras vezes, consolá-lo. Por outro lado, quando lemos as desventuras do pobre Charlie, notamos que não somos os únicos. Encontramos no desolo dos outros um pé de afinidade. Na solidão, nos unimos.

O mirrado Charles M. Schulz se tornou um gênio pioneiro dos quadrinhos, que conseguia ser sensível e cruel, como a vida. Isso sem falar de sua estupenda velocidade e voracidade na produção dos desenhos e roteiros. Parecia uma máquina, diziam. Já os Peanuts se consagraram como uma corrente de personagens fortíssimos, resistente aos anos. Apenas em 2000, ano da morte de Schulz, a produção de novos episódios da turma foi freada. Felizmente, este não foi o fim. Em janeiro de 2016, o primeiro longa-metragem em computação gráfica chega às telonas. Após mais de 60 anos, continuaremos acompanhando o bom e velho Sparky Charlie, vendo nosso próprio reflexo naquela bela cabeça de amendoim.

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  1. Pingback: Dia do Amigo: Como Charlie Brown e Snoopy se conheceram! | Literasutra

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