Livro, Resenhas
Comentários 40

Para se apaixonar por clássicos

Não lembro quando nem onde, mas sei que li um artigo que falava sobre a rejeição dos jovens em relação aos clássicos. O texto dizia que essa falta de interesse se deve à ideia que a palavra “clássico” geralmente tem: uma coisa chata, empoeirada, ultrapassada. Em seguida, listava alguns livros que provam exatamente o contrário, e este livro era um deles.

“As Aventuras de Huckleberry Finn” é considerado a obra-prima do escritor norte-americano Mark Twain. E não é por menos: Há muito tempo eu não me divertia tanto lendo um livro! Isto porque Huck e Jim são tão maravilhosamente bem construídos, com suas singularidades e complexidades, que você para e se pergunta como é possível serem somente personagens de literatura. Mark Twain é tão mestre, que criou Huck e Jim com dimensões de pessoas reais. Mas quem são eles, afinal? Eis um pouquinho da história, sem nenhum spoiler:

Órfão de mãe, apenas duas opções restam para o menino Huck Finn, e nenhuma delas o agrada: Ficar sob os cuidados de duas mulheres beatas e extremamente conservadoras ou submeter-se aos descuidados do pai alcóolatra e abusivo. Almejando a liberdade, o garoto encena a própria morte e parte para sua independência. Seu caminho se cruza com o de Jim, um escravo fugitivo cujo sonho é reunir-se com a família – e então começa uma jornada dupla de aventuras e descobertas, e acredite em mim, é tudo muito bom e envolvente.

Com uma rápida busca no google, você encontrará inúmeros sites classificando o livro como racista, mas arrisco a dizer: Não há nada de racista nele. Muito se fala sobre o diálogo abaixo, motivo inclusive de várias petições para que o livro seja banido de currículos escolares e bibliotecas:

– Santo Deus! Alguém ficou ferido?
– Não, madame. Só matou um negro.
– Bem, foi sorte, porque às vezes as pessoas ficam feridas.
(Pág. 244)

Concordo, uma leitura literal causaria revoltas. Mas o problema é exatamente este: não se lê literalmente um texto que não tem este propósito. Acrescente-se à experiência um pouco de paciência e receptividade, e logo se descobrirá uma narrativa que se utiliza de larga dose de ironia a fim de servir como crítica social. Afinal de contas, que sociedade é esta, de boas moças e rapazes, que se autoproclama virtuosa e cristã, mas que não considera a morte de um negro como válida de nota? E pior: sequer o considera como ser humano! Eis a mensagem transmitida pelas entrelinhas.

“Ele tava pensando na mulher e nos filhos, lá bem longe, e ele tava abatido e com saudades de casa, porque nunca tinha saído de casa antes na vida, e acho que ele gostava tanto do pessoal dele quanto os brancos gostam dos seus. Não parece natural, mas acho que é assim. (…) Ele era um negro muito bom, o Jim” (Pág. 175)

“As Aventuras de Huckleberry Finn” é, antes de tudo, uma história sobre a liberdade. Um homem e um menino de realidades completamente diferentes se unem pela mesma causa, e a amizade que se segue é tão linda que inspira. Ao ler o livro, é interessante colocar-se na posição de investigador, como quem faz trabalho de campo numa realidade muito injusta que é uma sociedade escravagista. Também é muito interessante notar a evolução dos personagens, principalmente de Huck: Um garoto branco, criado com ensinamentos racistas, que começa a ser confrontado com novas ideias a partir do momento em que convive com um negro.

Chega a ser um misto de pena e graça, por exemplo, sempre que Huck se martiriza por estar ajudando Jim, um escravo fugitivo. Ele sabe que está fazendo o “errado”, foi isso o que aprendeu por toda a sua vida, mas mesmo assim não consegue evitar. É impressionante que a consciência de um menino bagunceiro de 13 anos seja mais acurada que a se uma sociedade inteira!

“Mas é sempre assim, não faz diferença se você faz o certo ou o errado, a consciência de uma pessoa não faz sentido, apenas vai pra cima dela de qualquer jeito. Ela ocupa mais espaço que todo o resto das entranhas da pessoa e mesmo assim não funciona” (Pág. 255)

O livro, portanto, é um daqueles “extremamente necessários” para qualquer lista de leitura. Ele é mais que encantador! Sua oralidade é perfeita, dá o tom exato e fortalece ainda mais a construção dos personagens. Tudo na narrativa tem seu propósito, e as páginas avançam sem que se perceba. Um livro para quem gosta de se emocionar (seja rindo ou chorando), e principalmente pensar.

As Aventuras de Huckleberry Finn Mark TwainTítulo original: “Adventures of Huckleberry Finn”
Autor: Mark Twain
Editora: L&PM Pocket
Páginas: 320
Sinopse: Lançado em 1885 como sequência de As aventuras de Tom Sawyer (1876), a história de Huck Finn, no entanto, ganhou autonomia: é unanimemente considerada a obra-prima de Mark Twain e mudou para sempre o imaginário dos Estados Unidos.
Para se livrar do pai bêbado e violento, Huckleberry Finn se refugia em uma pequena ilha do rio Mississippi, onde se alia com Jim, um escravo fugido. Em busca de liberdade, a inusitada dupla se lança numa viagem pelo leito do rio, às margens da sociedade pré-Guerra Civil.
Marco fundador da narrativa estado-unidense, o romance registrou a fala comum da gente simples e inaugurou a tradição – central das artes americanas – do anti-herói jovem e espirituoso que, graças à condição de desajustado, goza de uma visão privilegiada do mundo. Muitas vezes alvo de polêmicas, Huck Finn não cessa de suscitar reflexões sobre o absurdo da humanidade.

40 comentários

  1. Angel Sakura diz

    As pessoas que pedem o banimento desta obra não conseguem entender o quanto o livro serve pra despertar a consciência de muitas pessoas. O livro, é como você disse, uma obra prima. Recomendo que todos leiam, é tão divertido e completo.
    Adorei ler uma resenha sobre ele, me trouxe um gostinho feliz de quando li o livro. Obrigada,.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s