Livro, Resenhas
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Umberto Eco e seu manual do mau jornalismo

Certo dia sua torneira simplesmente deixa de funcionar, e é sua vizinha quem descobre o mistério: o registro estava fechado. Uma solução simples para uma questão simples, mas que acaba gerando um problema bem maior. Afinal, você mora sozinho e até então sequer sabia onde o tal registro ficava. Ou seja, alguém entrou em seu apartamento durante a noite, enquanto você dormia, e não fez nada mais que fechar o registro. Mas que motivação mais inusitada para um invasor, meu caro Watson!

Pois é. E nosso personagem, que definitivamente não tem dons para a espionagem, de repente se vê envolvido num mistério desses. Mas “Número Zero”, o mais novo romance de Umberto Eco (mesmo autor de “O Nome da Rosa” e mais um tanto de livros importantes), não é uma história de suspense ou espionagem, embora tenha lá suas doses de ambos. Ele é, antes de tudo, um grande manual do mau jornalismo. Muito divertido e pertinente, aposto que entrará na bibliografia complementar de muitos cursos de comunicação social.

“Os perdedores, assim como os autodidatas, sempre têm conhecimentos mais vastos que os vencedores, e quem quiser vencer deverá saber uma única coisa e não perder tempo sabendo todas, o prazer da erudição é reservado aos perdedores.” (pág 20)

Colonna é um ghost-writer que se autodenomina um perdedor. Certo dia, recebe uma proposta de Simei para um trabalho eticamente duvidoso. Incapaz de recusar o que será a solução de seus problemas financeiros, se envolve no seguinte: Infiltrado na redação de um jornal que só existe como fachada para lavagem de dinheiro e extorsão, ele se apresenta aos colegas como editor-chefe, mas na verdade sua função ali é outra. Colonna deverá escrever um livro, como ghost-writer, contando todas as memórias de Simei, falsas memórias que contarão a história fictícia sobre como o jornal morreu por pressões comerciais antes mesmo de seu nascimento – porque o jornal ainda está em seu “número zero”, uma espécie de edição-teste antes de seu lançamento oficial.

“Observem os grandes jornais. Quando falam, sei lá, de um incêndio ou de um acidente de carro, evidentemente não podem dizer o que acham daquilo. Então inserem no artigo, entre aspas, as declarações de uma testemunha, um homem comum, um representante da opinião pública. Pondo-se aspas, essas afirmações se tornam fatos, ou seja, é um fato que aquele sujeito tenha expressado tal opinião. Mas seria possível supor que o jornalista tivesse dado a palavra somente a quem pensasse como ele. Portanto, haverá duas declarações discordantes entre si, para mostrar que é fato que há opiniões diferentes sobre um caso, e o jornal expõe esse fato irretorquível. A esperteza está em pôr antes entre aspas uma opinião banal e depois outra opinião, mais racional, que se assemelhe muito à opinião do jornalista. Assim o leitor tem a impressão de estar sendo informado de dois fatos, mas é induzido a aceitar uma única opinião como a mais convincente”. (pág 55)

Mas coisas acontecem, ou você acha que as pessoas saem completamente ilesas de uma coisa dessas? Embora o livro em sua maior parte esteja mais para um grande exercício de observação dos bastidores do jornal, muitas coisas de fato acontecem. Você já quis ser uma mosquinha só para descobrir como as coisas funcionam? Então acredite, você gostará muito de “Número Zero”. Alguns diálogos são geniais, capazes de causar um enorme desconforto. Afinal, trata-se da redação de um jornal que subestima seus leitores e não tem nenhum comprometimento com a verdade, só se interessa em vender. E então, alguma semelhança com a realidade? Garanto a você que não é mera coincidência!

– Os jornais ensinam como se deve pensar.
– Mas os jornais seguem as tendências ou as criam?
– As duas coisas, senhorita Frésia. As pessoas no início não sabem que tendências têm, depois nós lhes dizemos e elas percebem que as tinham. É bom não fazermos filosofia demais e trabalharmos como profissionais.
(pág 95)

Clique aqui e leia o primeiro capítulo do livro!

Assista à entrevista de Umberto Eco para o GloboNews Literatura!


número zero umberto ecoTítulo original: “Numero Zero”
Autor: Umberto Eco
Editora: Record
Páginas: 208
Sinopse: Um grupo de redatores, reunido ao acaso, prepara um jornal. Não se trata de um jornal informativo; seu objetivo é chantagear, difamar, prestar serviços duvidosos a seu editor. Um redator paranoico, vagando por uma Milão alucinada (ou alucinado numa Milão normal), reconstitui cinquenta anos de história sobre um cenário diabólico, que gira em torno do cadáver putrefato de um pseudo-Mussolini. Nas sombras, a Gladio, a loja maçônica P2, o assassinato do papa João Paulo I, o golpe de Estado de Junio Valerio Borghese, a CIA, os terroristas vermelhos manobrados pelos serviços secretos, vinte anos de atentados e cortinas de fumaça — um conjunto de fatos inexplicáveis que parecem inventados, até um documentário da BBC mostrar que são verídicos, ou que pelo menos estão sendo confessados por seus autores. Um perfeito manual do mau jornalismo que o leitor percorre sem saber se foi inventado ou simplesmente gravado ao vivo. Uma história que se passa em 1992, na qual se prefiguram tantos mistérios e tantas loucuras dos vinte anos seguintes. Uma aventura amarga e grotesca que se desenrola na Europa do fim da Segunda Guerra até os dias de hoje.

23 comentários

  1. Oi, Monalisa.
    Na correria louca da minha vida estava um tempo sem vir aqui no blog. Estou feliz de estar colocando a leitura em dia. Como é gostoso ler seus textos!

    Tinha ouvido falar dessa publicação mais recente do Eco, mas não tive tempo de descobrir mais sobre ela antes de me mudar. Trouxe comigo um livro dele chamado “Construir al enemigo” (imagino que o título em português seja semelhante) que comprei em uma viagem. O tema me
    é caro por ser recorrente no discurso de relações internacionais. Como acho as colocações dele bastante pertinentes, estou curiosa com esse exemplar da minha parca estante no estrangeiro. Só que agora fiquei ainda mais curiosa com “Número Zero”.

    Há um texto do Eco em que ele usa o conceito de hiperrealidade (de Baudrillard) para falar sobre as encenações midiáticas do suposto “fato” ( ele usa como exemplo o casamento do príncipe Charles e Diana, salvo engano). Lembra que vimos um pouco disso na aula de filosofia do primeiro período da faculdade? Imagino que o atual romance tenha bastante a ver com essas reflexões que ele já publicou em forma de não-ficção.

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  2. Oiee.

    Não consigo me lembrar deste autor, rs. Creio que não ouvi sobre ele ou estava desligada durante a aula hahahaha.
    Bom, adorei sua resenha, no entanto, não sei se gostaria de ler a obra, mas vou deixar na lista para uma possível leitura qualquer dia.

    PS. Seu cabelo é lindo ❤

    Beijos!

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  3. Lembranças de aulas durante a faculdade me vieram à cabeça hahahaha
    Eu nunca consegui terminar de ler O Nome da Rosa. E sim, eu SEI, eu SEI que esse livro é MUITO bom. Sou um fracasso, porque infelizmente nem consegui terminar de ler o primeiro capítulo.

    Mas definitivamente um dia eu termino. E um dia eu vou ler Numero Zero! (é quase uma meta de vida)

    http://www.ummetroemeiodelivros.com

    Curtido por 1 pessoa

  4. Olá Monalisa!!! Que lindo este post. Desde que conheci o autor, a obra né srr, gostei muito. Ele tem muitos temas que eu gosto de refletir. Esses dias vi uma reportagem com uma declaração dele que me deixou muito chateada. E hoje você me fez ver aquela declaração de uma forma diferente. Acho que se eu tivesse lido este livro não teria interpretado daquele jeito.

    Adorei seu texto e já coloquei este livro na minha lista de desejados! =D

    Ps.: Você comentou lá no blog sugerindo uma parceria, troca de Banners. Vamos fazer sim!! Fiquei super feliz com tua proposta, mas só agora pude responder. Se você ainda quiser, será um prazer tê-la como parceira!

    Mil beijinhos pra ti!
    http://www.pensamentosvalemouro.com.br

    Curtido por 1 pessoa

      • Oi Monalisa! Vamos ajeitar tudo então. =D
        Sobre a frase do Umberto Eco. Foi uma polêmica por que ele disse que a “internet deu voz a legião de imbecis” tem vários links, aqui um ( http://goo.gl/DmffEp). Assim, não digo que ele tenha sido feliz na fala. E a gente nem sabe se foi isso mesmo que foi dito… Por isso que digo que gostaria de ler o livro. =D

        Bjus!

        Curtido por 1 pessoa

      • Hahaha! Polêmica mesmo! Mas como o jornalismo está sempre pronto pra dissecar as frases, extraindo delas qualquer coisa que possa se tornar bombástica, é sempre bom ficar com o pé atrás, você está certa! ☺️

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  5. Diana Canaverde diz

    Olá… tudo bem??
    Super legal esse livro ein.. falando do inverso e da sabedoria do “perdedor” fiquei interessada… achei bem criativo e interessante… vou ler o primeiro capitulo… acho que será uma leitura bem legal e enriquecedora…. xero!

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