Livro, Resenhas
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Três irmãos em realismo fantástico

“Em água turva, as substâncias não se veem”

“Os Malaquias”, da paulista Andréa del Fuego, é um livro poderoso. Não por acaso, ganhou o Prêmio Literário José Saramago. Publicada pela editora Língua Geral em uma edição que salta aos olhos, a obra tem magnetismo do começo ao fim. Sabe quando uma história mexe tanto contigo que te faltam palavras para falar sobre ela? Então: Para escrever este texto me foram necessários 3 meses de reflexão e duas releituras!

Nico, Julia e Antônio, irmãos, perdem os pais (funcionários de uma fazenda) esturricados por um raio numa noite de tempestade. Pobres, as crianças são separadas em adoções um tanto duvidosas: Nico, por exemplo, vai morar com o dono da fazenda. Chega muito doente, com garganta inflamada e febre alta, e mesmo assim é forçado a trabalhar. Julia tem o mesmo destino, com a diferença de que é adotada por uma família árabe que mora na cidade. E Antônio, como ninguém se interessa por ele, permanece no orfanato sob os cuidados de duas freiras francesas.

“Júlia habitava o quartinho dos fundos com a mesma resistência que habitava o orfanato. O rosto nunca aderia por completo ao travesseiro, sempre um intervalo entre ela e o ambiente. Ela só podia circular pela casa com a autorização de Leila, a mãe adotiva. Comia na cozinha e tinha que se recolher no fim do dia. Aos domingos Leila colocava Júlia para ajudar Dolfina, senhora que já cuidava da mansão há anos e também dormia nos fundos” (pág 41)

Filhos de donos de nada, eles, seus pais e todos os outros que vivem nos arredores da fazenda são propriedades privadas de Geraldo, o fazendeiro. “Os Malaquias” retrata um universo onde pessoas são tratadas como coisas, onde todas elas são propriedades de alguém. Um universo ainda muito verdadeiro em muitos lugares do Brasil, infelizmente.

Para abordar um tema tão árduo e difícil, Andréa del Fuego se vale de todo o seu talento para o lirismo, compondo assim uma história permeada de realismo fantástico – uma delícia indescritível de se ler! Seu estilo claramente foge do clichê, é notável a procura por formas diferentes de se expressar. Um bom exemplo é a primeira cena após o alagamento de um vale que, mesmo sendo habitado por dezenas de famílias, foi vendido para a construção de uma represa:

“Antes do amanhecer a água mudou o tato das coisas. Um vento sob a represa que a superfície disfarçava, o chão soltando ar, as plantas ficando de lado, aconteciam peixes.” (pág. 117)

E assim vão vivendo os irmãos, fisicamente separados mas unidos por algo intangível. As crendices típicas de interior dão o tom cômico e por vezes tragicômico da história; gente que, acostumada à luz de velas, vê a elétrica chegar com entusiasmo. E por trás de tudo isso, onipresente, está Geraldina, a matriarca da fazenda, que mesmo morta ainda vive. Poético.

Neste livro encontrei uma das cenas mais bonitas que já li. Da páginas 234 à 237, vemos a passagem do tempo narrada por meio da decomposição de um corpo, mas incrivelmente sem o caráter moribundo que isso possa trazer. Descrita de forma bela e natural, a cena é facilmente palatável e não causa nenhum constrangimento; pelo contrário, gera vontade de ser relida. E não só a passagem do tempo é abordada na cena, mas também a unificação de todos, a igualdade inerente, uma alusão à ideia de que todos são iguais perante a morte. Lindo!

“Os Malaquias”, definitivamente, deve ser lido. Por jovens, adultos, pobres e ricos, ele é capaz de ultrapassar barreiras, acredite. O final pode parecer um pouco forçado, a princípio, mas depois ele se ajeita na cabeça. O livro abre, conduz e fecha com chave de ouro; é história que fica marcada na gente, que motiva, emociona, faz a fibras vibrarem.

Clique aqui e leia o primeiro capítulo do livro!


Os Malaquias Andréa del Fuego Língua GeralTítulo: “Os Malaquias”
Autora: Andréa del Fuego
Editora: Língua Geral
Páginas: 272
Sinopse: “Se um nome define aqueles que o carregam, então Malaquias é nome de gente viva. No intrincado novelo de histórias que constituiu o romance de Andréa del Fuego, cada personagem é uma pessoa. A vida é-lhes soprada por aquilo que é matéria da literatura: a linguagem, os nomes. Aqui, as palavras têm cheiro e sabor, podem ser sentidas com a ponta dos dedos, possuem temperatura. As páginas que acompanham os Malaquias, que os fazem nascer, viver e morrer diante de nós, são feitas de assuntos infinitos – terra, céu – são feitas de distância e de aqui. Aqui mesmo, o teu rosto, o meu rosto, nós.
“Vida” é uma palavra grande, constituída por palavras grandes, nestes capítulos, nestes anos, Andréa del Fuego não teme nenhuma delas, mistura-as com a natureza: natureza humana e natureza-natureza. Por essa via, as personagens vivem, o mundo destas páginas vive e nós, leitores de milagres, vivemos também. Somos parte dessa mesma natureza, existimos nesse mesmo tempo de gerações, de bênçãos ou maldições eternas, esse tempo como um raio que fulmina ou como água que afoga, também nós somos donos de uma memória, que é do tamanho da Fazenda Rio Claro, pelo menos.
Vale a pena ler Os Malaquias para sabermos de nós próprios. Um dia, depois de tudo, se estivermos à altura da vida, cada uma das nossas histórias fará parte de uma vertigem como a que é descrita nestas páginas. Então, talvez possa haver leitores a se emocionarem, a se sobressaltarem, a se deslumbrarem, como acontece ao longo desta obra magistral de Andréa del Fuego.”
José Luís Peixoto

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