Especiais

A besteira de achar HQs uma besteira

Fica você com Bukowski
e eu com Stan Lee.

Houve uma pequena versão do que eu sou hoje, no longínquo ano de 2002, que participou de uma cena digna de filme do Spielberg. Foi um daqueles momentos onde o jovem protagonista desajustado (podem reparar o padrão) entra em algum lugar que muda sua vida inteira. Para alguns é um sotão que guarda o mapa de um tesouro pirata, para outros uma estação de trem no meio do nada onde acontece um descarrilhamento imenso. Minha história aconteceu num quarto, mas nem por isso é menos grandiosa.

Era uma vez um Bruno de 12 anos de idade que, num belo dia de Sol, resolveu invadir a até então Área 51 que era o quarto de seu primo. Se você acha que essa história vai ser sobre a descoberta da pornografia, que infância terrível deve ter sido a sua. Sério mesmo, o que tem de errado com você? EU TINHA DOZE ANOS.

Pornografia a gente conhece bem antes.

O fato é que embora o sentimento seja um pouco diferente, a palavra que melhor descreve a minha relação com quadrinhos ainda é “tesão”. Por favor, caro pervertido, o “tesão” aqui é de empolgação, não o “tesão” de meu-Deus-no-ônibus-não.

Quando eu abri aquele armário dentro da Zona Fantasma (joga no Google, ésafe for work) foi como se as cortinas desse grande palco que se chama “vida” estivessem se abrindo. Ou algo assim. Eu tinha 12 anos, droga. Pareceu grandioso na época. Mas até hoje é difícil descrever a sensação que foi ler o primeiro quadrinho da minha vida que não fosse Turma da Mônica, e olha que eu me identifico com a Magali até hoje.

Meu primeiro quadrinho foi um ménage.

Viu como você prestou mais atenção? Que pessoa perturbada. Meu primeiro quadrinho foi uma trilogia, mas não uma qualquer, caro telespectador. Tratava-se de “Superman — Entre a Foice e o Martelo“, que mostrava como seria o mundo se o homem de Krypton fosse russo. Aquele quadrinho me apresentou conceitos como comunismo, ditadura e livre arbítrio. É claro que no longínquo ano de 2002 eu não fazia ideia disso, mas aquele momento definiu toda a minha vida.

A década de 90 foi marcada por alguns filmes de herói bastante duvidosos. É claro que eu gosto do Juiz Dredd com o Stallone, mas o Batman com mamilos de 97 foi sacanagem. Pra resumir: cresci num mundo onde o cinema não produzia nada perto do que faz hoje, então você pode imaginar que essa descoberta tardia do mundo mágico Marvel/DC foi um pequeno passo para o homem e um grande passo para o Bruno.

Entenda, caro pervertido, que isso me fez uma criança dos anos 30. Eu não nasci na época daGrande Crise, mas o meu primeiro contato com um quadrinho foi com o mesmo personagem que milhares de crianças (e adultos) da Grande Depressão aprenderam a gostar.Superman — Entre a Foice e o Martelo conta a história de uma realidade alternativa onde a nave do kryptoniano caí na Ucrânia, fazendo com que ele se junte ao movimento comunista soviético.

Fui pesquisar pra parecer que eu sei do que to falando e descobri que esse ano (2015) o quadrinho foi publicado pela primeira vez na Rússia e já virou um sucesso. É ótimo saber que as crianças russas acabaram de conhecer o Bruno de 2002. Prazer, дети.Eu não gosto de vodka.

Super poder é mudar o mundo.

Meu pai nunca me deu quadrinhos, mas isso é uma história triste que só minha psicóloga merece ouvir. Afinal, eu pago ela pra isso. A verdade é que quando um pai dá HQs de presente para seus filhos, ele quer fazer essas crianças acreditarem que podem voar. E nós não deveríamos perder esse sentimento nunca.

Mas quadrinhos são bem mais do que isso. Eu sempre gostei mais da história sobre o “Homem” do que do “Super”. Os quadrinhos são apenas um formato mais compreensível para mente de uma criança, e eles podem ensinar sobre tudo. Ou sobre nada.

Mas quando eles falam sobre alguma coisa, eles fazem com louvor. Simon Pegg deu um discurso recentemente falando sobre a cultura nerd. De muitas coisas que valeriam citar aqui, vou ficar com uma frase em especial:

“O gênero de fantasia, em todas as suas formas, é a metáfora social mais forte que existe, o que faz dele algo lindo e poético.”

A verdade é que o mundo parece um grande paradoxo, e eu não to escrevendo isso só pra encaixar “paradoxo” no meu texto. Mas só pra constar, já encaixei. Duas vezes. Pode não fazer sentido precisar de um jovem com uniforme de aranha e a habilidade de escalar paredes para ensinar sobre poder e responsabilidade, mas a fantasia das histórias nada mais é do que apenas fantasia. É um recurso usado para tornar uma história mais fantástica, mas a moral e as lições que o escritor quis passar estão ali durante toda a jornada do herói.

Histórias em quadrinhos nasceram para ajudar. CARA! O Superman ajudou a tirar os EUA da Grande Crise. Essas histórias nasceram para ajudar o planeta e num mundo que vai de mal a pior, me parece que nós precisamos cada vez mais de Batmans.

Porque elas não são uma realidade apenas para crianças. Adultos têm cada vez mais dificuldade em gerar empatia uns pelos outros e, de certa maneira, os quadrinhos podem ensinar vários truques novos para cães velhos, como por exemplo: O Super-Homem pode falar sobre imigração, o Batman sobre crime e corrupção e o Demolidor sobre superar deficiências (e amar a Netflix).

Pra provar o meu ponto eu vou atravessar o planeta com você.

A capacidade de contar qualquer história, inclusive tragédias, de uma forma quase divertida é com certeza o maior super poder da arte. É por isso queGodzilla (ou “Gojira”) foi um sucesso tão grande no Japão. É mais fácil encarar toda a dor de toda a nação, que as bombas nucleares causaram, quando você vê uma metáfora onde as cidades são destruídas por monstros gigantes.

Se você parar pra pensar, meu querido tarado, quadrinhos surgiram no tempo das cavernas. Pinturas rupestres são a primeira forma de quadrinho que eu conheço. E se eles duraram até hoje. O homem sempre precisou de mitos para ajudar na auto-compreensão, e os personagens de quadrinhos nada mais são do que a versão moderna de Deuses gregos.

Vou te dar até um minuto para digerir essa. A frase foi bonita.

O Super-Homem não surgiu quando o mundo quis, ele surgiu quando o mundo precisava e ajudou um país inteiro a sair de uma crise. Se um herói pode fazer isso por toda uma nação, imagina o que os Vingadores não podem fazer pelas nossas crianças?! Até porque eu sou uma delas que se recusou a “crescer” e achar que quadrinhos são uma besteira.

Pais, deem quadrinhos para os seus filhos.

*Texto publicado originalmente aqui.