Livro, Resenhas
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E se a Alemanha tivesse ganhado a Segunda Guerra Mundial?

Partindo de uma premissa simples, “O Homem do Castelo Alto”, de Philip K. Dick, aborda muito mais que uma inversão de realidade, abrange-se para o próprio sentido da palavra – afinal, o que significa “realidade”, senão o conjunto de nossas próprias impressões? Este foi o meu primeiro contato com a obra do autor norte-americano cujos livros são mestres em inspirar obras cinematográficas, e devo dizer: Preciso ler todos os outros!

“Nós realmente vemos astigmaticamente, no sentido fundamental da expressão: nosso espaço e nosso tempo são criações da nossa própria mente, e quando momentaneamente falham… é como uma perturbação aguda do ouvido médio.”

O título deste texto já lhe deu a sinopse, mas vou desenvolvê-la aqui pra você. Nos Estados Unidos de uma realidade alternativa na qual os países do Eixo (Alemanha, Japão, etc) venceram os Aliados (EUA, Inglaterra, etc), vivem os personagens de “O Homem do Castelo Alto”: Um judeu recém-desempregado; uma mulher adepta de encontros casuais; um rico empresário dono de uma fábrica de plásticos (a grande matéria-prima do momento); seu rico cliente japonês; o dono de uma loja de antiguidades que só vende objetos americanos datados do período pré-guerra (relógios de Mickey Mouse, por exemplo).

Seriam personagens normais vivendo suas vidas normais, não fosse por dois livros que pontuam aqui e ali toda a história: O “I Ching”, famoso oráculo japonês usado como guia tanto para as grandes decisões quanto para coisas corriqueiras (um paralelo com a nossa astrologia atual), e “O gafanhoto torna-se pesado”, ficção baseada na premissa: E se os Estados Unidos tivessem ganhado a Segunda Guerra Mundial? SIM! Temos aqui um livro dentro de outro livro, praticamente um inception de realidade alternativa! Como não amar?

“O que é que Abendsen quis dizer? Nada sobre seu mundo de faz-de-conta. Sou eu a única que sabe? Aposto que sim; ninguém mais entendeu realmente o sentido do Gafanhoto: os outros apenas imaginam que entenderam.”

É daí que surge o título do livro (refiro-me aqui ao livro real, este que hoje mora na minha estante): “O Homem do Castelo Alto” faz referência a Abendsen, o personagem autor de “O gafanhoto”, que precisa isolar-se num castelo inalcançável para não ser morto pelos nazistas – afinal, quanta audácia em imaginar uma realidade alternativa em que a Alemanha perde para os Estados Unidos, não é? Seu livro é proibido, e não preciso dizer que, por isso mesmo, é lido por todos.

Revezando-se entre os núcleos de personagens, Philip K. Dick delineia uma sociedade dominada por valores e cultura bem diferentes da que estamos acostumados. Os judeus, vítimas de décadas de perseguição nazista, devem sua sobrevivência a sucessivas plásticas que lhes disfarçam “traços característicos”. Os negros são escravos. Consulta-se o I Ching como quem lê o horóscopo pela manhã. A relação de superioridade entre americanos e alemães é inversa, e não esqueça de colocar os japoneses na equação.

“Via-se um dos técnicos alemães apontando alguma coisa e os americanos tentando ver o que era. Acho que eles enxergam melhor que nós, pensou ela. Há vinte anos que comem melhor. Eles podem ver coisas que ninguém vê; é o que nos dizem.”

É possível imaginar as vozes dos personagens, de tão bem construídos que eles são. E a narrativa, embora em terceira pessoa, transita do olhar de quem observa para os pensamentos mais íntimos dos personagens com muita destreza. Eis aqui o talento do autor: Contar uma história aparentemente ambiciosa de forma muito natural, como quem conta o que comeu no café da manhã. “O Homem do Castelo Alto” é, definitivamente, um livro para ser lido.

o homem do castelo alto philip k dick“O Homem do Castelo Alto” (“The Man in The High Castle”)
Autor: Philip K. Dick
Editora: Aleph
Páginas: 304

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