Livro, Resenhas
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Dândi norte-americano em Madri

Viciado em antidepressivos, o poeta americano Adam Gordon aproveita sua estadia em Madri, financiada por uma bolsa de estudos para seu projeto de pesquisa que, por depender de sua vontade própria, não avança. Assim começa “Estação Atocha”, romance de estreia do também poeta e também americano Ben Lerner.

Valendo-se de uma narrativa aparentemente horizontal, típica de um personagem dândi, o livro acerta em cheio ao brincar com alguns clichês do mundo artístico e abordar questões como a autenticidade das reações de um observador em relação a uma obra de arte. Ao contrário de todos ao seu redor, para Adam uma ida ao museu é um passeio sem emoção, sem catarse, ele não consegue ser tocado por uma obra de arte. A fim de não parecer estranho, de continuar “pertencendo ao grupo”, ele adota uma saída: Finge reações, um ator da vida real – e que ator talentoso ele se revela!

“(…) com apreensão, me dei conta de que ela esperava me encontrar mexido, muito comovido e que era assim mesmo que eu tinha que me mostrar a ela (…). Virei-me para a cerca, lambi as pontas dos dedos e passei cuspe debaixo dos olhos para parecer que eu tinha chorado”.

Em minha opinião, este é o grande ponto do livro, que levanta ótimas questões sobre o pensar intelectual. Afinal, bem no fundo a gente sabe que Adam não é o único a fingir. Ele, que se sente uma fraude no meio artístico, nos faz pensar se não seriam todos os outros as verdadeiras fraudes; pessoas afetadas “demais”, emocionadas “demais”, caricaturas de si mesmas.

“Por muito tempo, eu convivera com a preocupação de ser incapaz de passar por uma profunda experiência artística e me custava a acreditar que alguém mais fosse, pelo menos entre os meus conhecidos. Nutria profundo ceticismo a respeito das pessoas que alegavam que um poemo ou uma música tinham ‘mudado a vida delas’, especialmente porque, observando-as antes e depois dessa experiência, não conseguia detectar a menor mudança.”

Além disto, também é interessante o processo de modificação de Adam no decorrer da história. No início uma figura exótica e desajustada em país desconhecido, aos poucos ele vai se encontrando e se conhecendo de verdade. Sem falar que Adam é um personagem tão contraditório e tão imensamente lúcido de sua contraditoriedade, que torna-se cativante.

Autor e personagem são americanos e poetas não por acaso. Segundo Lerner, o protagonista é uma espécie de versão exagerada do que ele próprio foi quando mais jovem – ele também já foi bolsista em Madri. E acredite, saber disso faz da leitura uma experiência ainda mais intensa. Enquanto objeto, o livro é impecável, apresentando toda a excelência editorial da Rádio Londres. Enquanto romance, pode ser revelador. Recheado de humor, sexo e passagens muito boas, tudo muito bem escrito e encadeado, o livro é capaz de provocar muitas reflexões.

Em “Estação Atocha” nenhum silêncio é como o outro; são todos diferentes, cada qual com sua densidade e peculiaridade. Com escrita simplesmente inteligente, Ben Lerner mostra ao invés de dizer. Os diálogos são muito bons e reais, fruto de muita destreza ao passar emoções para o leitor: o desconforto, em algumas cenas, é latente. O que deve ser engraçado também é. E tudo isso em timing perfeito.

estação atocha ben lernerTítulo: Estação Atocha
Autor: Ben Lerner
Editora: Rádio Londres
Páginas: 224

*Livro cedido em parceria com a editora.

19 comentários

  1. O que me chamou atenção nesse livro, foi o fato do autor ter criado essa visão exagerada dele mesmo no personagem. Acho que isso torna o enredo do livro mais interessante, e o que me atraiu para colocá-lo na minha lista. Confesso que não é o meu tipo de leitura, mas eu gostei da sua resenha, me envolvi e quero ler!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Olá Monalisa,
    Sem dúvidas aqui temos uma história bem diferente… Acredito que nunca li nada semelhante até porque não é o meu estilo de leitura, mas essa obra e a sua resenha me deixou curiosa. Se tiver oportunidade sem dúvidas o leria.

    beijos
    Mayara
    Livros & Tal

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  3. Catharina diz

    Olaaa
    A premissa do livro é bem diferente e chamativa, não o conhecia ainda mas fiquei curiosa apesar de não fazer meu gênero, bela dica.

    Beijos
    Reality of Books

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