Livro, Resenhas
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O Gigante Enterrado é sobre todas as coisas

Eu estava por fora da hype. Meu primeiro contato com ele foi através de uma amiga. A Gabi Félix tinha os óculos mais legais da escola e foi ela que me apresentou uma das minhas séries favoritas, então eu confio no gosto dela. No dia seguinte em que a Gabi disse que queria ler “O Gigante Enterrado”, eu fui à livraria conhecê-lo ao vivo: Uma edição impecável, que encanta à primeira vista pela aparência, e já na primeira página pelo conteúdo. Comecei a ler ali mesmo, no café da livraria, e durante os dias que levei para terminar de lê-lo eu fui outra pessoa.

Como disse, eu estava fora da hype. Não desconfiava de nada. Não sabia que o autor, o nipo-britânico Kazuo Ishiguro, já havia escrito um best-seller e agora publicava a obra “mais arriscada, ambiciosa e estranha” dos seus 33 anos de carreira. Também não sabia que o livro levou quase uma década para ser terminado. Eu estava completamente por fora, e só descobri tudo isso agora, enquanto pesquisava um pouco mais para escrever este texto.

“O Gigante Enterrado” é ambientado numa Inglaterra fantástica de aproximadamente 1.500 anos atrás. Axl e Beatrice, um casal idoso apaixonado (e apaixonante), vivem num povoado como todos os outros: tomado pela pobreza, pelo medo dos ogros e outras criaturas que vivem lá fora e por uma neblina misteriosa que causa o esquecimento.

“Eu me pergunto se o que sentimos no nosso coração hoje não é como esses pingos de chuva que ainda continuam caindo em cima de nós das folhas encharcadas da árvore, apesar de a chuva em si já ter parado de cair faz tempo. Eu me pergunto se, sem as nossas lembranças, o nosso amor não está condenado a murchar e morrer” (Pág. 59)

Na busca por respostas, Beatrice e Axl partem juntos para uma viagem. Depois de lembrarem com muito custo que têm um filho, o casal decide visitá-lo em sua aldeia. Mas tudo o que têm na memória são lembranças vagas, impressões de acontecimentos; eles não se lembram do nome, rosto ou voz do próprio filho. Mesmo assim, sem ter muita certeza de qual caminho seguir (os perigos são muitos, principalmente para idosos), os dois seguem numa aventura sobretudo de autoconhecimento.

Certa vez alguém me disse que boas histórias são sobre tudo. “O Gigante Enterrado”, então, é uma história fantástica – tanto no gênero literário quanto na qualidade da obra. Com toda a sua peculiaridade, a história conseguiu acessar uma parte de mim que eu não lembro de nenhum outro livro ter conseguido. Ele provoca sensações e reflexões que permanecem ecoando dentro da gente por muito tempo.

“Mas a senhora tem mesmo certeza de que deseja ficar livre dessa névoa, boa senhora? Será que não é melhor que algumas coisas permaneçam encobertas?” (Pág. 169)

Este é um livro para ser lido com calma e carinho, para ser apreciado. Algumas histórias são capazes de te transportar para lugares mágicos e desconhecidos, e este é exatamente o tipo de história que você encontrará em “O Gigante Enterrado”. Já na primeira página, tornou-se o meu livro de cabeceira. Agora, já tendo terminado de lê-lo, ele deixou minha cabeceira: Foi parar em lugar permanente dentro de mim, tão profundo e onipresente que é difícil de explicar.

O Gigante Enterrado Kazuo Ishiguro

“O Gigante Enterrado”
Kazuo Ishiguro
Companhia das Letras
400 páginas

Leia o primeiro capítulo aqui.

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