Livro, Resenhas
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A distopia da vida real

Em um microcosmo cíclico e imutável, um grupo de jovens e adolescentes tenta a sobrevivência. Vestidos em uniformes que os iguala a ponto de os transformar quase na mesma pessoa, eles trabalham dia após dia com um único objetivo: seguir o Padrão. O Padrão tem regras claras, diretas e o mais importante de tudo para o sistema: imutáveis.

Parece ficção científica, mas é a estreia de Henrique Rodrigues no mundo dos romances. “O Próximo da Fila” é um retrato da grande distopia que é a vida real:

“Eu sou gado, todo mundo aqui é gado, essa é minha vida. Eu sou cem por cento carne bovina.”

Com contornos autobiográficos, o livro conta a história de um adolescente que, após a morte do pai, recorre a um emprego numa rede de fast-food para ajudar na renda da família. Sua narrativa cativante, onde o humor é bem dosado e a linguagem é fluida, faz da obra uma leitura rápida e prazerosa, mas não somente isso: O livro traz aqueles personagens sobre os quais normalmente não se fala; pessoas geralmente invisíveis na vida real, mas que aqui assumem posição central na trama.

“E a casa fica vazia, enfim. Olhando o caminhão lotado de móveis esquartejados e comprimidos na caçamba, pendo que eu, a mãe e o meu irmão também estamos sendo desmontados e levados de repente de um lugar para outro.
Somos sofás, armários, caixas com louças que se quebram fácil.
Os homens da transportadora costumam gostar das histórias por trás de cada mudança. Não é a primeira vez que veem casos como esse, tampouco chega a ser o mais triste já presenciado. Trata-se apenas de mais uma família que regride”. (Pág. 34)

Em entrevista ao blog da Editora Record, o próprio Henrique definiu sua obra: “Trata-se de uma visita aos primeiros anos da década de 1990, um período difícil da nossa história recente, sob a perspectiva de um jovem pobre. Passados mais de 20 anos, achei que o balcão de uma lanchonete seria um belo lugar a partir do qual poderia contar a trajetória de um personagem que, como muitos brasileiros, tinha que se virar para sobreviver numa época em que tudo era muito complicado para as chamadas classes C e D”.

No entra-e-sai da lanchonete, sob o olhar em primeira pessoa de um adolescente espirituoso (mas também por um narrador onisciente), temos acesso a uma abordagem sutil de assuntos como preconceito, desigualdade social e exploração no trabalho. E eis que, no meio de tanto vai-e-vem de esfregão e viradas de hambúrguer na chapa, há espaço para o surgimento do amor: Leitora assídua de Drummond, a cliente subitamente vira a musa do atendente do caixa.

o próximo da fila review literasutra“O Próximo da Fila”
Autor: Henrique Rodrigues
Editora: Record
Páginas: 192

*Livro cedido em parceria com a editora.

47 comentários

  1. Olá, Monalisa e amigos.
    Estava viajando quando me deparei com essa ótima resenha. Creio que a maioria de vocês não tinha nascido ou era bem pequena no (trágico e belo) período em que o livro se passa. E foi pensando mesmo em vocês que escrevi esse romance. Grande abraço e felicidades.
    P.S.: sim, trabalhei no McDonald´s no período, mas felizmente não rolou comigo o que se passa com o protagonista – pelo menos daquele jeito…

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  2. Comentário bobo, mas a capa do livro me deixou com fome rs.

    Quando eu li esse trecho que você separou do livro “Eu sou gado, todo mundo aqui é gado, essa é minha vida. Eu sou cem por cento carne bovina.”, já imaginei que o livro seria bom e ao longo da resenha vi que realmente O Próximo da Fila é um livro que aborda temas interessantes e que faz o leitor pensar. Gostei e pretendo ler.

    Beijos.

    http://livrosleituraseafins.blogspot.com.br/

    Curtido por 1 pessoa

    • Que bom, Ana! Espero que você goste dele tanto quanto eu. E preciso te dizer: Essa capa também me deixou com fome! Todas as vezes em que olho pra ela sou tomada por uma vontade intensa de comer batata frita! hahahaha!

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  3. Parece ser um livro incrível mesmo. A forma como você destaca os pontos altos, nos deixa ainda mais curiosos. Para mim, o que mais chamou atenção foi o fato do autor colocar um personagem que dificilmente vemos como o herói em livros.

    Beijos!

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  4. Não fiquei com vontade de ler, não encontrei nesse livro um diferencial que me atraísse. O que mais me desanimou foi o que o próprio autor disse, que é uma revisita ao início dos anos 1990, não costumo curtir coisas com esse viés de revisitar a história. E não curti a escolha da capa, mesmo que o protagonista trabalhe numa rede de fast-food me pareceu que não é esse o foco do enredo, mas posso estar enganada.

    Beijo!

    Ju – Entre Palcos e Livros

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