Livro, Resenhas
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Laranjas mecânicas não dão suco

A garrafa de leite, a maquiagem marcante, o vocabulário esquisito. É difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar em “Laranja Mecânica”, mesmo que superficialmente. Publicado pela primeira vez em 1962 pelo britânico Anthony Burgess e adaptado para o cinema em 1971 pelas lentes de Stanley Kubrick, tanto livro quanto filme são clássicos. Mas não se intimide por isso! A história é sensacional e você merece conhecê-la.

“Mas eu não conseguia deixar de me sentir um pouquinho decepcionado com as coisas do jeito que eram naquela época. Nada contra o que lutar de verdade. Tudo era fácil como tirar doce de criança. Mas a noite ainda era mesmo uma criança.” (Pág. 55)

Alex é um adolescente delinquente. Aos 15 anos, acompanhado de seus três druguis (amigos), suas maiores diversões são roubar, estuprar, matar e… ouvir música clássica. No mesmo quarto de onde grita com seus pais subservientes, Alex guarda uma coleção de discos invejável. Mas a vida de Alex está prestes a mudar radicalmente: Após ser preso em flagrante, o garoto é levado para a prisão. Poucos dias são necessários para que o adolescente passe a almejar uma vida fora daquele lugar péssimo, de celas superlotadas e nenhum estímulo cultural. E esta oportunidade pode estar na técnica Ludovico.

Ainda em fase experimental, a Técnica Ludovico é polêmica (muito mais do que mamilos). Consiste em condicionar o preso a reações indesejáveis, como náusea e dor intensa, sempre que houver um mero vislumbre de violência. Ou seja, assim como as técnicas mais cruéis de adestramento de cães, um ser humano que passar pelo famigerado experimento passará a sentir náuseas sempre que pensar ou presenciar uma cena violenta – como roubo, estupro, espancamento, etc.

Sem saber no que está se envolvendo, ansiando apenas por sair daquele ambiente enlouquecedor, Alex se voluntaria. E então começa a grande questão proposta pelo livro já desde o título: Uma laranja mecânica (e consequentemente fabricada, artificial) nunca substituirá uma laranja natural. Laranjas mecânicas não produzem suco, não têm nenhuma essência. Quem deseja uma laranja autêntica e de boa qualidade deve cuidar de sua árvore, fornecendo-lhe todos os nutrientes necessários – não adiantaria injetar o suco de outra fruta dentro dela.

“A bondade vem de dentro. Bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem.” (Pág. 141)

Os livros tornam-se clássicos não só por causa de sua idade, mas pela sua relevância. Curiosamente, uma obra publicada nos anos 60 ainda tem muito o que ensinar e transmitir no século XXI. E não é somente no âmbito político e social que “Laranja Mecânica” continua a se fazer notar. Quando o assunto é simplesmente a literatura, o livro ainda pode ser considerado inovador. Anthony Burgess criou uma linguagem completamente original, espécie de dialeto falado pelos adolescentes na época futurista da narrativa. O recurso é perfeito para nos inserir completamente no mundo fictício.

Existem várias edições de “Laranja Mecânica”. A mais recente foi publicada em 2015 pela Editora Aleph, aproveitando a excelente tradução de Fábio Fernandes feita anteriormente para a edição de 2012. Esta, aliás, é minha preferida: Lançada pela editora em comemoração ao aniversário de 50 anos da obra, é bem mais cara, custando o dobro do preço da versão mais recente, mas tem seus motivos: Além da capa dura, o livro conta ainda com as ilustrações (sensacionais) de Angeli, Dave McKean e Oscar Grillo, trechos do livro restaurados pelo editor inglês, notas do editor, artigos e ensaios escritos pelo autor (e até então inéditos em língua portuguesa), entrevista inédita com o autor e reprodução de seis páginas do manuscrito original. Ou seja, se você puder gastar, opte pela edição de 2012! Você não vai se arrepender. ❤

laranja mecânica resenha 50 anos anthony burguess“Laranja Mecânica – Edição Especial de 50 Anos”
Autor: Anthony Burguess
Páginas: 352
Editora: Aleph

31 comentários

  1. Olá
    Sua resenha está ótima e me deixou muito curiosa com esse livro, eu já tinha visto e lido meio por auto do que se tratava, mas não tinha lido uma resenha que me deixasse tão interessada e muito bom quando um livro escrito a tanto tempo ainda nos fala no tempo atual. Espero ler em breve. Parabéns pela resenha.

    Beijo
    Lovesbooksandcupcakea.blogspot.com

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  2. A edição mais recente é a que quero comprar. Acredita que ainda não li? A Editora Aleph está entre as minhas preferidas e, no entanto, a lista de compra é enorme. Quem sabe esse semestre? Beijos e sucesso, bela resenha.

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  3. italo teixeira diz

    Oi Monalisa, tudo bem?
    Conhecia Laranja Mecanica há algum tempo mas não sabia uito bem como é seu enredo. Adorei sua resenha e fiquei bem curioso com o livro. Esse método Ludovico, será ele eficaz no livro? Quero muito ler!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Eu sou apaixonada por Laranja Mecânica, apesar de algumas das cenas descritas no livro me darem muita repulsa (principalmente as de estupro). Consegui comprar essa edição linda da Aleph por R$20,00 esses dias no submarino, super achado!

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  5. Olá, tudo bem? Sempre ouvi falar de Laranja Mecânica mas confesso que ainda não conhecia a sua história. Fiquei com vontade de ler o livro, não apenas por ser um clássico, mas também porque quero saber o que acontece com Alex e o experimento, realmente o livro tem uma mensagem importante a passar e eu adorei o quote escolhido!

    Beijos,

    Mari

    cantinhodeleituradamari.blogspot.com.br

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  6. Oi Mona! To bem ansiosa para ler esse livro. Coloquei nos 10 livros para ler em 2016. Estou com as expectativas bem altas.Espero não me atrapalhar com esse dialeto “gíria” próprio de que tem no livro. Eu tenho essa edição linda de 50 anos. Bjus

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