Livro, Resenhas
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Uma vaca em jornada rumo à Índia

“Holy Cow: Uma Fábula Animal”, a princípio, tem tudo o que precisa para ser um bom livro. Uma premissa promissora, um início empolgante e uma protagonista muito divertida e com voz própria. Mas concisão é uma arte, e David Duchovny definitivamente não a domina. O autor, mais conhecido pelo seu papel em Arquivo X, tinha dois caminhos a tomar: simplificar sua ideia para um conto muito bom, ou desenvolvê-la em uma história maior. Ele escolheu a segunda opção e acabou ficando perdido.

Elsie Bovary é uma jovem vaca cheia de personalidade. Assombrada (não literalmente) pela ausência repentina da mãe, que apesar de ser uma vaca muito boa e atenciosa desaparecera sem se despedir, Elsie esbanja toda a sua bovinidade no cercado que divide com suas companheiras bovinas. Até que, certa noite, caminhando sorrateiramente até a casa da fazenda, ela presencia a cena que mudará o seu destino: Na sala da casa, reunidos em torno da televisão, os humanos assistem a um programa sobre fazenda industrial. E então, horrorizada, Elsie descobre que tudo em que acreditou até então era mentira. A vida não é tão pacífica quanto parece e sua mãe não a abandonou, ela foi brutalmente assassinada para virar comida.

“Vocês, humanos, bebem o nosso leite e comem os ovos das galinhas e das patas. Isso já não é suficiente? Não é suficiente darmos a vocês o que seria destinado a nossas crianças? E se não é, quando será? Tudo que vocês, humanos, fazem é pegar, pegar, pegar da Terra e de suas criaturas magníficas, e o que dão em troca? Nada. Sei que os humanos consideram um insulto grave serem chamados de animais. Bem, eu nunca daria a um humano a honra de ser chamado de animal porque os animais podem até matar para viver mas não vivem para matar. Os humanos vão precisar reconquistar o direito de ser chamados de animais”. (Pág. 58)

A partir daí, Elsie começa sua jornada. Com dois amigos em sua cola (um porco judeu e um peru munido de um iPhone), lá se vai ela rumo à Índia, a maravilhosa terra onde vacas são sagradas (e consequentemente não são comidas). No entanto, o que teria tudo para ser uma aventura emocionante, engraçada e instrutiva, acaba se perdendo na ânsia do autor de contemplar mais visões animais que a de Elsie. Se tivesse apenas a vaca, a história envolveria mais. Mas David Duchovny achou interessante colocar um porco e um peru não tão bem construídos enquanto personagens numa jornada que parece ter sido escrita às pressas.

Sabe quando você começa a fazer algo, perde o interesse no meio do caminho mas ainda precisa terminar, então você faz, mas não faz bem acabado? Essa é a impressão que “Holy Cow” nos passa. Mesmo assim, eu diria que este é um livro que merece ser lido por toda a mensagem que é capaz de ensinar.

“Se vou ser morta para virar comida, pelo menos me coma e me cague e me deixe reingressar no ciclo da natureza. Não me mate sem motivo.”
(Pág. 119)


Holy Cow David Duchovny review resenha literasutra“Holy Cow: Uma Fábula Animal”

(“Holy Cow: A Modern-Day Dairy Tale”)
Autor: David Duchovny
Páginas: 208
Editora: Record

*Livro cedido pela editora.

Este post foi publicado em: Livro, Resenhas

por

Espécime da safra de 89. Recentemente descobriu que não consegue escolher uma coisa só, então alterna a vida profissional entre as funções de jornalista e fotógrafa. Criou o projeto fotográfico "Uma Pessoa Por Dia", onde consegue mesclar as duas coisas.

20 comentários

  1. Terminei o livro com a mesma impressão que você! As sacadas e críticas ao ato de comer carne e ao mercado editorial são ótimas, mas são feitos todos pela vaca. Os companheiros não fazem muita diferença, a não ser para as mudanças de caminho da Elsie. As ideias boas meio que ficam perdidas num monte de bagunça :s
    Vale a pena, é rápido e divertido – mas é mesmo necessário não esperar muito!
    Beijo*

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  2. Oi Mona tudo bem, não vai rir do que vou te revelar agora, mas eu devorei esse livro na loja petz enquanto eu esperava na fila para minha cachorra tomar banho, e como é por ordem de chegada fiquei umas horinhas por lá, e aproveitei para ler esse livro, eu gostei da forma como ele foi conduzido e li em um instante. Vc comentou na minha resenha dizendo que não via a hora de terminar, mas eu nem percebi kkkkk Mas o mais engraçado vem agora… tinha muitos cachorros nesse dia latindo muitoooo, e fiquei por um momento pensando o que eles estava tentando se comunicar kkkk olha a viagem. Bjkas

    Curtido por 1 pessoa

    • Hahahahahaa! Dani, eu acho que teria pensado a mesma coisa que você! Eu li o livro em duas partes, digamos. Na primeira vez eu gostei muito, já na segunda eu não via a hora de terminar. Uma parcela dessa impaciência pode ter sido o meu clima naquele dia, será?

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  3. Oie Monalisa
    A começar pela capa, o livro já não me chamou atenção. Lendo a sinopse também não me animei e seu post também não ajudou a despertar interesse. É triste quando a história não desencanta e não nos dá um bom motivo pra empolgação. Enfim, vou passar essa leitura.
    Bjo

    Curtido por 1 pessoa

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