Livro, Resenhas
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Quando a vulnerabilidade coexiste com a perspicácia

Obras que ofereçam uma experiência infantil no texto, uma perspectiva da criança sobre o mundo adulto, são extremamente raras. Tanto em oferta quanto em êxito. Como leitora, roteirista e ex-livreira, estou em permanente caça a livros que transitem por esse universo, de modo que devo admitir que foi um deslize meu não ter ouvido falar de “Quarto”, de Emma Donoghue, até os primeiros sinais de que sua adaptação para o cinema apontava para indicações aos Oscar. Logo que li a storyline numa matéria sobre os filmes mais aguardados da temporada, fui atrás de mais informações sobre a história de “Quarto” e comprei a versão digital do livro, por conta de falta de estoque impresso em diversas livrarias. Não tinha nenhuma expectativa particular, meu interesse foi conhecer a versão original para poder, então, assistir ao filme, que será lançado no Brasil no próximo dia 18/02. Mas logo nas primeiras páginas entendi que estava entrando numa experiência forte, dura, e profundamente comovente em si mesma. Um livro doído de se ler, difícil de parar, e, principalmente, de terminar.

Em “Quarto”, Jack é um menino de 5 anos, filho de uma jovem que fora sequestrada aos 19 por um homem que a mantém em cativeiro desde então. E é importante marcar isso: Jack é filho de Mãe, e não de Mãe com Velho Nick. A jovem protege Jack de toda e qualquer interação possível com o homem que a capturou, de modo a desvincular completamente a existência do menino da situação de terror que o gerou. Mãe diz a Jack que ele foi um anjo que veio do céu para ficar com ela, e por mais que talvez muitas mães possam dizer isso a seus filhos, no caso de Jack há uma verdadeira salvação por trás de sua presença: viver em função de Jack é a única possibilidade de continuar a viver. Mãe faz do quarto o mundo inteiro, e elabora uma lógica que blinda Jack da crueldade da situação em que vivem. Com uma rotina de hábitos e tarefas, um leque de soluções simples e pequenas narrativas, o Quarto é parte de Jack na medida em que ali se concentram todos os elementos do real que o permitem construir seu imaginário. Mesmo a TV, à qual mãe e filho assistem, é tida como um objeto em si, e não uma janela para um exterior, e o que aparece nela é aceito por Jack como nela encerrado.

Quarto é uma entidade, que integra e forma Jack. O fato de ele jamais ter vivido fora de Quarto, sem saber sequer que existe um “fora”, por um lado lhe permite conhecer cada pedacinho de seu mundo, entender seu funcionamento e ter uma segurança profunda sobre sua própria existência. Isso é o que faz Quarto ser tão agridoce, pois o mundo real, o mundo aqui de fora, marca invariavelmente a infância pelo justo oposto. O cativeiro é transformado em redoma, e a redoma é cômoda. Precisa ser, caso contrário os dois sucumbiriam.

Na dinâmica entre mãe e filho, o microcosmo é o macrocosmo, e um é o anti-herói do outro, falhos e incompletos, mas ainda assim vitais. A relação dos dois tem a marca simbiótica importante da amamentação, que aos 5 anos ainda é um vínculo entre Jack e a mãe – porque, afinal, não há motivo para não ser. No entanto, as distinções e os limites entre os dois estão sempre claros, há muito de Mãe que Jack não acessa, e vice-versa, e quanto mais o menino compreende isso mais ele questiona tudo que sempre soube, vivenciando pela primeira vez a própria melancolia. A empatia do leitor permite que se imagine o que se passa na cabeça da jovem, e quando isso se justapõe ao contato tão íntimo com as suposições e abstrações de Jack, entranhadas na experiência da leitura, o livro atinge uma ambivalência comovente, um tanto devastadora.

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O texto de Quarto é a percepção de Jack do pequeno mundo à sua volta, é a criança de 5 anos tentando fazer sentido do que o cerca e o acomete. Logo de cara, o livro tem essa qualidade de conversar como a criança, indagar como a criança, encontrar uma linguagem ao mesmo tempo típica e particular, que transforma o texto numa coisa viva, pela qual o leitor passa a nutrir um carinho. Outros exemplos dessa proeza são “Passarinha”, de Kathryn Erskine, e “Extremamente alto e Incrivelmente perto”, de Jonathan Safran Foer, livros que também conseguem extrapolar a narrativa e virar algo com que o leitor genuinamente se importa, no qual acredita e ao qual se apega.

É preciso olhar além da comercializável e rasa noção de que Quarto é uma ode à pureza infantil diante do horror da vida, ou de que a infância é poética na sua superação espontânea das dificuldades. “Quarto” é um livro que não nega a angústia da infância, um momento da vida de vulnerabilidade porém não de impotência, de fragilidade porém de perspicácia, de muitas cores mas também de escuridão. Pelo contrário, o sofrimento de Jack é ao mesmo tempo apenas seu e de toda criança que se vê diante de uma grandeza a se atribuir sentido.

É difícil virar as costas para Quarto, mesmo com toda a melancolia que ele carrega e inflinge. O livro permanece com o leitor por dias a fio, dá saudade de estar com Jack e ver o mundo de dentro dele. Encerra-se a leitura órfão daquele menino.

“Quarto” entrou para minha lista de livros não só favoritos por suas qualidades literárias, mas também para a prateleira de livros queridos, de formação, que despertam sentimentos mais profundos.

É possível apenas especular sobre as escolhas que se manifestarão na adaptação para o cinema, e como roteirista compreendo que muitas vezes é preciso romper com a obra original, isso não é um defeito. Mas uma vez que concordamos que as experiências são invariavelmente díspares (sempre), a chance de o filme ter o mesmo sucesso do livro consiste em permitir ao espectador enxergar pelos olhos de Jack, e não meramente assistir à sua história narrada de cima para baixo.

quarto“Quarto” (“Room”)
Autora: Emma Donoghue
Editora: Verus
Páginas: 350

Leia o primeiro capítulo clicando aqui.

 

Adélia Jeveaux é roteirista de audiovisual infanto-juvenil e cursa Psicologia na PUC-Rio.

32 comentários

  1. Nossa, quantas palavras difíceis huahuahuahua. Legal ver a opinião de uma estudante de psicologia sobre o livro. Ele é muito marcante e, realmente, olhando de forma subjetiva, mostra como uma criança com uma visão muito pura de mundo, acaba caindo no “mundo real”. Mas eu acho que olhar desta forma apaga a verdadeira critica do livro, o fato da criança viver dentro de um Quarto, o horror da mãe ser estuprada constantemente pelo seu captor. O fato do filho “presenciar” isso mesmo sem saber o que se passava. Olhar o Quarto como uma forma de “inocência pura da criança” faz até com que aquele lugar se torne ‘justificável”, o que é um problema.

    beijos
    Kel
    http://www.porumaboaleitura

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