Livro, Resenhas
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Menina Submersa em si mesma

Caitlín R. Kiernan é uma mulher com superpoderes. Nascida na Irlanda, mudou-se para os Estados Unidos ainda criança, onde até hoje escreve seus contos e romances. Mas Caitlín, embora personagem de sua própria história, não é fictícia: Ela vive e pode ser tocada, assim como eu ou você. Caitlín é a autora de “A Menina Submersa”, um livro insistente que se funde ao leitor desde as primeiras páginas, pedindo – praticamente exigindo – tratamento exclusivo. Eis o superpoder da escritora.

“Será que eu sou uma louca que apenas transfere seus delírios e consciência perturbada para a palavra escrita?”

E o livro vai além. Se qualquer texto, por mais diverso que seja, caminha à sombra do autor, “A Menina Submersa” traz a opção adicional de ler como um investigador, captando e supondo aqui e ali quanto da autora há em cada personagem e situação. Por exemplo: Assim como Caitlín, Imp é escritora e Abalyn é transsexual. Falemos um pouco mais sobre elas, aliás.

“Imp” é apelido para India Morgan Phelps, a protagonista que vive assombrada pelo suicídio da mãe e da avó, das quais herdou esquizofrenia paranóica. Ela mora sozinha. Todos os dias, após seu emprego trivial, ela volta para seu apartamento e escreve contos ou documenta sua vida – coisa muito importante para alguém que não consegue diferenciar o factual do fictício, porque tudo lhe parece verdadeiro. Até que conhece (a futura namorada) Abalyn numa cena tão bem escrita que eu vou lhe reservar o direito de não saber nada sobre ela antes de ler a história.

“Nenhuma histórias tem começo e nenhuma história tem fim. Começos e fins podem ser entendidos como algo que serve a um propósito, a uma intenção momentânea e provisória, mas são, em sua natureza fundamental, arbitrários e existem apenas como uma ideia conveniente na mente humana. As vidas são confusas e, quando começamos a relacioná-las ou relacionar partes delas, não podemos mais discernir os momentos precisos e objetivos de quanto certo evento começou. Todos os começos são arbitrários”.

Por mais injusto que isto possa parecer, precisa ser dito mesmo assim: Se a condição psicológica de Imp lhe causa imensa confusão e sofrimento, é justamente isto que nos causa dependência incondicional do livro. Contada em primeira pessoa, a narrativa não-linear é tão confusa (no sentido de oferecer muitas pontas soltas, e não de ter sido mal executada) quanto a mente esquizofrênica da protagonista.

“Fantasmas são essas lembranças fortes demais para serem esquecidas, ecoando ao longo dos anos e se recusando a serem apagadas pelo tempo.”

O título do livro faz referência à principal fixação da personagem, um quadro intitulado de “A Menina Submersa”. Óleo sobre tela retratando uma garota nua recém-saída de uma floresta rumo a um lago misterioso; do seu rosto não se vê muita coisa, pois está voltado para algum ponto das árvores lá atrás. Um quadro inocentemente pendurado na parede de uma galeria, mas que serve como um trampolim para a jovem Imp afogar-se em si mesma. E uma tal de Eva Canning era o degrau que lhe faltava para alcançar o trampolim…

“A casa está tão quieta hoje à noite.
Nunca gostei de casas quietas. Elas sempre parecem estar esperando alguma coisa.”

Nenhuma resenha é capaz de preparar o leitor para o que está prestes a conhecer neste livro; nem mesmo Neil Gaiman ao dizer que “poucos escrevem como Caitlín”. Sua história intensa e original permanece na cabeça por muito tempo.

capa-menina-submersa-limited-edition
“A Menina Submersa”
(“The Drowning Girl”)
Autora: Caitlín R. Kiernan
Editora: DarkSide
Páginas: 317
*Clique aqui e saiba mais

Este post foi publicado em: Livro, Resenhas

por

Espécime da safra de 89. Recentemente descobriu que não consegue escolher uma coisa só, então alterna a vida profissional entre as funções de jornalista e fotógrafa. Criou o projeto fotográfico "Uma Pessoa Por Dia", onde consegue mesclar as duas coisas.

40 comentários

  1. Olá Mona tudo bem, lendo a resenha tirei a impressão ruim de uma postagem que vi no face falando mal desse livro, tinha acabado de fazer uma troca no skoob, tenho a capa com a menina, e a premissa do livro sempre me chamou atenção, portanto ainda esse ano quero desvendar os mistérios desse livro. Bjkas

    Curtido por 1 pessoa

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