Livro, Resenhas
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Somos mais do que aquilo que somos sozinhos

Se tivesse sido lançado pela primeira vez recentemente, “62: Modelo Para Armar” seria chamado (ainda que erroneamente) de spin-off. Isso porque o romance (se é que pode ser classificado como tal) do argentino Julio Cortázar nasceu a partir de um outro livro seu, muito mais conhecido: “O Jogo da Amarelinha”, de cujo capítulo 62 ele é um desdobramento. Mas Cortázar é da turma old school, falecido cinco anos antes de eu nascer. E é justamente por isso que ambos os livros são considerados tão inovadores – e embora tenham inspirado um séquito de obras de outros autores, até hoje ainda não foram superados.

O Jogo da Amarelinha conta a história de Horacio Oliveira e Maga (entre vários outros personagens), que durante uma música ou outra de jazz e entre vários copos de bebida conversam sobre as grandes questões da vida. Mas o que realmente chama a atenção do leitor num primeiro momento não é a sinopse, mas sim as múltiplas finalidades da história, que brinca com a subjetividade do leitor. Existem duas formas de ler o livro propostas pelo autor (e mais tantas você conseguir imaginar): Uma delas é seguindo a ordem convencional das coisas, até encontrar o final da história no capítulo 56. A outra é seguir o mapa indicado na primeira página do livro (ou no final de cada capítulo), de forma que começa-se pelo de número 73, depois 1, 2, 116, 3, 84, e assim por diante.

Conforme já dito, 62: Modelo Para Armar é a dita continuação do capítulo de “Amarelinha” onde estão expostas suas ideias centrais. E eu, que ainda não decidi se estou subvertendo a ordem natural das resenhas ou se apenas fazendo jus à liberdade sugerida pelo próprio Cortázar, venho aqui apresentar um texto sobre o dito spin-off antes mesmo de falar sobre o livro “principal”. Falar de “O Jogo da Amarelinha” é tarefa muito mais difícil do que eu poderia imaginar, então vou vagarosamente pela tangente, esperando que algo se ilumine dessa forma.

Acontece que “62” não é uma continuação propriamente dita: Não apresenta os mesmos personagens nem forma de organização. O que continua é a reflexão sobre as relações sentimentais, sociais, e aquela perguntinha contundente que indaga “Quem somos nós?”. Note que há uma grande diferença entre fazer esta pergunta no singular e no plural. A intenção de Cortázar nesse livro é demonstrar como o coletivo é mais importante que o individual: somos muito mais do que aquilo que somos sozinhos. Cada indivíduo é um pequeno ponto numa rede de ligações, que é a verdadeira protagonista. Toda ação desempenhada por um ou outro indivíduo é na verdade parte do sistema, do movimento conjunto da rede.

Se “O Jogo da Amarelinha” faz o tipo que merece ser lido e relido, com alguns de seus capítulos tendo recebido a fama de “lendários” até hoje, “62: Modelo Para Armar” não acompanha tanto o ensejo. Embora seja indiscutivelmente bom, a ideia de que se trata de uma continuação do capítulo 62 de “Amarelinha” pode fazer o leitor criar expectativas erradas. Isto não atrapalha a leitura, mas descortina novas possibilidades de interpretação da história anterior – algumas até acredito que contrárias à intenção de Cortázar (mas não vamos contar isso a ele, combinado?).

Neste texto:

62_MODELO_PARA_ARMAR_145870374712268SK1458703747B“62: Modelo Para Armar”
Autor: Julio Cortázar
Editora: Civilização Brasileira
Páginas: 256

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O_JOGO_DA_AMARELINHA_1360757862B“O Jogo da Amarelinha”
Autor: Julio Cortázar
Editora: Civilização Brasileira
Páginas: 640

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15 comentários

  1. Oi! Puxa achei que esse livro ten uma certa complexidade nos temas abordados! Achei interessante o autor nos dar várias formas de efetuar a leitura embora eu prefira ser tradicional e ler do início ao fim… Rsrs!
    Fiquei ainda mais curiosa com o livro Amarelinha! Espero que consiga trazer resenha dele aqui também!

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  2. que história curiosa, eu não conhecia, mas lendo tua resenha criei um certo fascínio, adoro livros com uma reflexão e o fato de ser voltado ao social me deixa curiosa, principalmente pra saber a que resposta ou ”quase” resposta o autor chegou. Vou marcar no skoob ❤

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  3. Italo TEIXEIRA diz

    Oi Monalisa, tudo bem?
    Não consegui me interessar pela obra e por mais que você tenha falado dela e o autor seja bem aclamado, eu não consegui me interessar. Não faz o meu tipo de leitura e por esse motivo, deixo passar.

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