Livro, Resenhas
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Na Companhia de Linha M

Demorei mais de um mês para percorrer as pouco mais de 200 páginas de “Linha M”, de Patti Smith. Atribulações do cotidiano somadas a outras demandas de leitura e a uma certa falta de ritmo esticaram a presença do livro na minha cabeceira. No entanto, ao encerrá-lo, tive a sensação de que o livro durou o tempo que tinha que durar, numa consonância involuntária com o próprio sentimento do texto.

Patti Smith parece pairar sobre a própria trajetória, aproxima-se e afasta-se dos eventos com uma serenidade quase etérea. Numa dinâmica entre a evocação melancólica de memórias e reencontros nostálgicos com pessoas e lugares, Patti transita pela sua rotina, seu dia a dia de civil numa narrativa de leitura macia que é como um gosto do que talvez fosse estar em sua companhia.

Escrito ao longo de horas diante de cafés e seu Moleskine, Linha M mostra o lado de Patti Smith mais distanciado do rock, mais próximo das suas referências artísticas e de seus hábitos cotidianos. O leitor acompanha suas oscilações entre releituras de Sylvia Plath, visitas a túmulos de cineastas japoneses e indulgentes maratonas de The Killing. Em saltos no tempo e espaço guiados pelos seus afetos, Patti lança diversas ressignificações sobre suas memórias, fazendo do texto algo não exatamente como um diário, mas talvez uma tentativa de novamente experimentar momentos a partir de um olhar do presente, num desejo de estar aqui e lá simultaneamente.

Há poucos dias, eu reli meus diários de adolescente. Sugestionada pela aura de Linha M, revisitei sentimentos e impressões de uma jovem que descobri não ser tão diferente assim de quem sou hoje, para o bem e para o mal. Se pude perceber que as questões que me causavam sofrimento intenso há uma década hoje ainda me atormentam, mas de outra forma; se pude entender que a trajetória pessoal, assim como o curso da História, não é um vetor única e exclusivamente para frente e para a superação, pude também aceitar a realidade daquilo que me marca, e fechar os cadernos com surpreendente contentamento. Na medida em que a leitura de um livro conversa com a vida do leitor, a urgência de Patti Smith de se agarrar às pequenas e grandes belezas, aos sentimentos vívidos, numa nostalgia do agora, esteve em fina sintonia com meu estado emocional ao longo do percurso das páginas.

A episódica “contação” de histórias de Linha M, em suas idas e vindas no tempo, me fez pensar em Patti como uma espécie de Eva, do filme “Only Lovers Left Alive”, de Jim Jarmusch. Uma vampira, no sentido de ser uma alma antiga, que transita pelo mundo absorvendo arte e emanando criação. Até visitar o Tânger, onde vive a personagem de Jarmusch, Patti visita. Com uma vida atravessada pela literatura, poesia, música, fotografia, Patti Smith é uma rock star extremamente culta, porém jamais pedante. Sua relação com suas referências exala uma profunda gratidão pelo papel formador e sustentador de sua história. Mesmo quando se coloca diante dos grandes nomes que cita, estejam eles em carne e osso ou em seus túmulos, o tom do discurso é sempre o de uma reverência solene. Mas existe uma qualidade no texto de Patti que combina o ritmo da prosa com o impacto do verso. O leitor, então, sabe que está diante de mais do que um livro de memórias, e sim de algo que coloca o relato da experiência em um terreno entre ficcionalização e confissão.

Talvez uma boa imagem para simbolizar Linha M seja o ouroboros, a cobra comendo a própria cauda (citado no próprio livro), que é, de certa forma, a vida em seu próprio movimento, que se encerra e se renova ao mesmo tempo, a cada escolha, perda ou laço. Por sua vez, Patti é essa vampira que suga de si mesmo e de seus recortes mnêmicos o sentimento de estar no mundo e suportar isso, repetindo ciclos mas sempre trocando de pele.

A espontaneidade impulsiva de comprar o bangalô de Rockaway Beach, a necessidade de ter um Álamo, um canto no mundo que, apesar de tudo, resiste. Em outro momento de sintonia com os afetos do livro, redijo minhas reflexões às vésperas de fechar um apartamento que abrigou uma audaciosa tentativa de um Álamo – ainda que por algum tempo bem-sucedida, porém agora encerrada em definitivo, o que me traz um misto de tristeza e resignação.

“O que perdi e não consigo encontrar eu guardo na lembrança. O que não consigo ver eu tento chamar. Trabalhando em uma série de impulsos, no limiar da iluminação.”

Como Patti fantasiando conversar com Sylvia Plath, fantasio eu mesma receber dela um olhar encorajador enquanto viro a chave que encerra um capítulo na minha própria história.

Screen Shot 2016-05-20 at 10.48.17 PM
“Linha M”
(M Train)
Autora: Patti Smith
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 216

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22 comentários

  1. vinicius nascimento diz

    boa resenha. estava adiando ler esse livro pq gosto bastante da Patti Smith. como gosto do Nick Cave e achei o A Morte de Bunny Munro bem fraco.

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  2. Maria de Lourdes Sette diz

    Excelente resenha! Gostaria de usá-la como exemplo de resenha com alunos de graduação da PUC de vários departamentos. Ensino a disciplina de Análise e produção do texto acadêmico e profissional e resenha é um dos assuntos do programa. Posso? Se você autorizar, poderia me enviar esse texto por e-mail em pdf?

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    • Adélia Jeveaux diz

      Oi Maria! Muito obrigada.
      Pode usar a resenha sim, me passa seu email para eu enviar o texto em pdf?
      Abraço!

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  3. Olá, não conhecia a obras, e pra falar a verdade é algo que eu dificilmente leria. Parece se tratar de algo bem denso e complexo, acho que eu demoraria meses para finalizar a leitura de algo do tipo…parabéns!

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  4. Francine Porfirio diz

    Oi, flor!
    Acho que também demoraria a realizar essa leitura, mas talvez por falta de empatia com a história. Não sei, a protagonista não me interessou como uma personalidade que gostaria de desvendar. Mesmo assim, sua resenha – reconheço – apresenta vários aspectos instigantes que certamente me manteriam envolvida na leitura. O que dizer? Se o livro “caísse na minha mão”, eu o leria. Mas não pretendo ir atrás dele.

    Beijos!
    http://www.myqueenside.com.br

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  5. Não tinha a menor ideia de que a autora desse livro era uma rock star até ler sua resenha! Mas não fiquei com vontade nenhuma de ler o livro, não é meu tipo de enredo, não tenho interesse em conhecer memórias de uma pessoa de quem nunca ouvi falar.

    Beijo.

    Ju
    Entre Palcos e Livros

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  6. Morgana Brunner diz

    Oiii Adélia, tudo bem?
    Eu realmente me surpreendi diante dessa sua resenha e entendo perfeitamente em relação de como e demorada uma leitura dessas, e acredito que tenha sido de muita qualidade! Sua resenha está gloriosa.
    Beijinhos

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