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“Bowie”: Uma biografia que não faz jus

Há seis meses acordei de ressaca, às 6 e pouco da manhã, com uma mensagem de Whatsapp de um amigo que dizia que Bowie estava morto. Minha reação inicial foi abaixar o celular e tentar dormir mais, “talvez ele esteja sendo metafórico, não deve ter gostado do disco novo”, vai saber. Alguns segundos depois, meu coração disparou, joguei no Google e vi a notícia.

O dia foi muito pesado, lembro de cada momento e de cada nuance, tudo tão carregado de emoção. A comoção dos amigos, amigos de amigos e nos vídeos que circulavam de todos os cantos do mundo na internet foi algo sem precedentes. “Foi como perder um Beatle”, alguém disse. Não. Foi como perder Bowie.

Quando recebi a biografia escrita por Wendy Leigh, mergulhei com entusiasmo. No entanto, conforme percorria as quase 300 páginas, percebi algumas constantes no texto que foram (por total falta de melhor expressão) completamente broxantes.

Não sou uma ávida leitora de biografias, nem mesmo de ídolos pessoais como David Bowie. Mas na medida em que há uma gama de vieses possíveis para construir um biografado como personagem, Wendy Leigh faz a opção menos interessante, focando a narrativa em intrigas comerciais e conquistas sexuais, disfarçadas de uma tentativa de mostrar “o homem por trás do mito”.

É de se perder a conta do número de vezes em que é mencionado o tamanho do “membro” de David, ou a quantidade de situações descritas em que o foco é dado ao sexo. E que fique claro: o problema não é aprofundar-se sobre a sexualidade de Bowie, o problema é a forma como a autora faz isso. É sabido que Bowie teve uma vivência sexual libertária, que sempre se permitiu explorar e experimentar, e que isso era uma fonte de criação para suas personas e sua arte. Mas Wendy Leigh aborda esse aspecto da vida de Bowie de forma tão repetitiva e rasa, concentrando-se no que pessoas falaram em diversos contextos, que foi como ler uma enorme revista de fofoca.

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Mesmo as passagens referentes aos trâmites do show business, ou à vida conjugal com Angie Bowie, mãe de seu primeiro filho, são marcadas por um certo posicionamento difamatório. Não se trata de verter “fan tears” diante de informações que apontem que Bowie não era uma pessoa perfeita. Mas a biografia falha na sua tentativa de mostrar o lado humano, através de uma estrutura de disse-me-disse que não traz nenhuma credibilidade.

O traço mais lamentável do livro de Leigh é o descarte quase que total da história dos discos e das personas de Bowie ao longo das décadas. Enquanto a conquistas sexuais e intrigas são dados longos parágrafos e páginas, os lançamentos dos álbuns são usados como meros instrumentos de pontuação temporal. São muito poucos os momentos em que o texto se presta a aprofundar o processo criativo e a elaboração artística de Bowie, e é nesse ponto em que Leigh realmente perde o leitor-fã. Fecha-se “Bowie” com a sensação de que não se aprendeu muita coisa sobre Bowie.

O livro abrange inclusive a repercussão da perda do artista na comunidade artística e de fãs. Talvez seja por isso que o subtítulo seja “A Biografia”. Mas seria mais justo (e mais honesto) que se vendesse como “uma” biografia.

Se cabe uma dica ao leitor que busca conhecer mais sobre Bowie e sua obra, o livro da exposição “David Bowie Is” (do Museu Victoria and Albert de Londres, que passou pelo Musei da Imagem e Som de São Paulo), editado pela também lamentavelmente falecida Cosac & Naify, proporciona uma verdadeira imersão na complexidade dessa figura que tanto marcou a cultura contemporânea. O livro ainda pode ser encontrado, tanto no estoque de algumas livrarias online quanto em sites de revenda.

E nesse dia que marca um certo ciclo de luto coletivo pela morte de Bowie, reproduzo um trecho de uma oração que escrevi naquele 10 de janeiro, quando tentava dar conta de uma emoção que me acometeu com surpreendente força:

“Da sua voz tirei vontade de ser mais, coragem pra ser outra, e com ela me conformei quando precisei ser menos. Não há um momento de se estar no mundo, seja ele sensível, crítico ou político (certamente muitas vezes todos) que você não abarcasse. Você ajudou a libertar corpos, amores e anseios. O mundo é um lugar menos terrível porque você existiu.”

BOWIE_1461358641580017SK1461358641B“Bowie: A Biografia”
Autor: Wendy Leigh
Editora: Best Seller
Páginas: 322
*Livro cedido pela editora.

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2 comentários

  1. histericaspontocom diz

    Ai que pena guria 😦
    Eu ia falar sobre a biografia editada pela Cosac, mas tu ja falastes a respeito e tem tb a do Marc Spitz que é bem boa.
    Confesso que só consegui ouvir o último album dele mês passado e ainda sim eu chorei bastante ouvindo. Vai fazer muita falta mesmo, todo o talento e unicidade do Bowie.
    Beijos ❤

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