Livro, Resenhas
Comentários 14

Poema Bandido

Vou contar algo que pode ser meio chocante para vocês: a década de 70 não foi muito legal no Brasil. Ta, eu nem sonhava em existir durante essa época, mas felizmente prestei atenção nas aulas de História e li algumas coisas pra saber que a ditadura não era um mar de rosas. Mas o mais interessante é o efeito que a repressão causa em uma sociedade: os artistas precisam refinar suas obras para driblar a censura, além de tornar sua arte mais visceral para bater de frente com o pensamento conservador e retrógrado. Ser artista, estar na margem da sociedade, vira um ato de resistência.

“Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.”

(CACASO; trecho de “Jogos Florais”; página 71)

Por esse e outros motivos que o artista plástico Hélio Oiticica cunhou a famosa frase “seja marginal, seja herói”. Em um contexto histórico e cultural que vê o artista como vagabundo (visão que já foi superada, espero) fazer arte é uma transgressão ao status quo, mesmo que suas obras aparentemente não tenham discurso político (ênfase no “aparentemente”).

“Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.

Marginal, escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha.”

(LEMINSKI, Paulo; página 91)

A antologia “Destino: Poesia” reúne 5 dos maiores poetas dessa época: Ana Cristina Cesar (homenageada na Flip 2016), Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão (se essa antologia fosse um álbum música, Leminski provavelmente seria o single promocional). Organizada por Italo Moriconi, ela já abre com ótimos textos do organizador que contextualiza um pouco a vida desses autores. Gosto de pensar que antologias de autores diferentes são portas de entradas para drogas mais pesadas como compilações, poéticas completas e até sarais de poesia. O cardápio variado de autores oferece à pessoa que não está familiarizada com o estilo literário uma chance de se encantar com algum específico e, posteriormente, talvez buscar mais publicações para se aprofundar na obra do mesmo.

Independentes e subversivos, buscaram quebrar os padrões dominantes tanto de pensamento quanto do formalismo na arte. Produziam suas obras de forma independente, imprimiam seus poemas em mimeógrafos (daí a alcunha de “geração mimeógrafo”) e vendiam nas ruas, em bares, portas de museus e centros universitários. Também publicavam seus trabalhos em revistas alternativas de forma fragmentada.

Quem tem as aulas de literatura do ensino médio como única referência de poesia pode estranhar um pouco o estilo desses autores. A maioria das pessoas associa poesia com contar sílabas para classificar o tipo de redondilha ou com malabarismos lógicos para descobrir porque o autor escreveu “a cortina azul” (como se fosse possível descobrir o que se passa na cabeça de qualquer ser humano). Só que as obras dessa antologia fogem desse formalismo. A poesia é resgatada do pedestal ao qual foi confinada pela academia e recebe um sopro de vida coloquial com pitadas senso de humor. Os versos são livres, o tom é conversacional e a “cortina azul” pode ser o que o leitor quiser, pois essa galera não tinha a menor preocupação em dar um sentido fechado ao que escrevia. O autor pode ter escolhido esse termo pela maneira como ele enche a boca quando é dito em voz alta, pode ser porque essa era a cortina do quarto de criança dele ou talvez porque ele viu isso numa viagem muito louca quando experimentou LSD. Não importa, até porque o legal é deixar a interpretação em aberto. Você passa a ser cocriador da obra.

“Não quero meu poema apenas pedra
nem seu avesso explicado
nas mesas de operação.”

(CACASO; trecho de “Cartilha”; página 63)

Outro ponto interessante destacado na apresentação é a relação próxima que essa geração teve com a música. Muitos poetas e escritores dessa época fizeram colaborações com musicistas talentosos, principalmente do movimento Tropicalista. O leitor provavelmente não vai conseguir ler certos poemas sem cantarolar as melodias de suas versões musicadas por gigantes da música como Gilberto Gil, Gal Costa e Adriana Calcanhoto. Prato cheio para quem é fã de mpb.

Para quem está cansado das poesias matemáticas sobre vasos chineses ensinadas no cursinho de pré-vestibular essa antologia é um excelente começo. A leitura é leve, bem humorada e cumpre o objetivo do organizador, que é justamente deixar um gostinho de “quero mais”. A quem se interessar também por essa relação entre poesia e música recomendo o documentário “Palavra Encantada” (dirigido por Helena Solberg; 2009).

DESTINO_POESIA_146329337988134SK1463293379B
“Destino: Poesia”

Autores: Ana Cristina Cesar; Cacaso; Paulo Leminski; Torquato Neto; Waly Salomão
Organização: Italo Moriconi
Editora: José Olympio
Páginas: 160
*Livro enviado pela editora.

Compre o seu pelo menor preço neste link e ajude o Literasutra a crescer! ❤

14 comentários

  1. debyhsama diz

    Olá,
    Já vi o documentário que você mencionou, e realmente é um assunto que dá para refletir bastante, sem contar que gosto muito das letras de mpb dessa época.

    http://euinsisto.com.br

    (comentei de novo pq não sei se o outro foi)

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s