Livro, Resenhas
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Para a Flávia

Li “Cravos” de uma vez. Abri o livro, não li nada a respeito, nem a orelha, fui direto pro texto. Fui capturada, mas sem arroubo. Foi algo como o espontâneo e suave rodopio de Cyd Charisse que inicia o pas-de-deux com Fred Astaire, em The Bang Wagon. O texto é verdadeiramente uma dança, mesmo quando não faz referência a bailarinos e coreógrafos, aos nomes técnicos de passos, ao linóleo (referências estas que, pra mim, têm um sabor especial). Ler “Cravos” é como ver um palco cujo holofote acende e apaga em recantos alternados, ora com um solo, ora com uma composição de dois ou mais corpos.

Um amor complicado, por um homem que parece falar sempre as coisas certas, que é narrado pela linguagem do corpo, dos gestos, dos cheiros e texturas. Ler “Cravos” é como experimentar uma sinestesia, a sensação de ouvir cores e poder nomear as nuances dos toques. Em diversos momentos, suspirei em onomatopéias e precisei desviar o olhar das páginas, pra recapturar o ar que faltava, uma vez que realmente não é só em acidentes de avião iminentes que precisamos de máscara de oxigênio.

“Cravos” experimenta com as bordas da estrutura, e não se resume a uma história de amor, pois por mais que o fio da meada esteja lá, o prazer da sua leitura não está propriamente em segui-lo, mas em se emaranhar nele.

Olhando agora para o livro, sobre meus lençóis que coincidentemente têm a mesma cor da capa, vejo as inúmeras páginas que dobrei para facilitar meu reencontro com passagens marcantes. Algumas delas me fazem lembrar de amores que tive. Homens que falam as coisas certas nas horas certas, há muitos deles por aí, para o bem e para o mal. Outras passagens me fazem fantasiar amores que ainda posso viver. Mas as páginas que mais me tocam são as que descrevem um amor que nunca acabou em mim, que eu de tempos em tempos revisito com uma saudade avassaladora, que no fundo nunca quis romper, e que compartilho com a autora: a dança.

Isso acontece com quem ama dançar, a gente encontra formas de falar sobre isso e de usar o vocabulário que a gente aprende no linóleo mesmo quando não estamos usando o corpo. E só quem dança consegue descrever a dança assim, te dando a sensação quase alucinatória de estar dançando junto. Ler Cravos foi dançar junto. Me trouxe as memórias dessas mesmas tardes quentes de ensaio, da dureza que é o caminho pra alcançar movimentos que existem independentemente de você, mas que exigem o seu corpo pra poderem ser vistos. Me peguei numa profunda nostalgia de chegar atrasada pra encontrar amigos porque estava levando água na cara da coreógrafa que dizia “pára de pensar e solta, Adélia”.

Das investigações que a vida volta e meia nos demanda, foi na dança que obtive mais respostas. E sinto isso ecoando no texto de “Cravos”, também. Permitir-se explorar o bilinguismo na linguagem do corpo é libertador quando a palavra não se ajusta ao que se sente. Ou mesmo quando se ajusta. Tem coisas que a gente precisa falar de muitos jeitos.

cravos
“Cravos”

Autora: Julia Wähmann
Editora: Record
Páginas: 144
*Enviado pela editora.

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