Mês: novembro 2016

Precisamos falar sobre “O Filho Eterno”

É sempre um risco falar de maternidade e paternidade. Independente do conteúdo ou da forma, sempre paira no ar toda a carga de julgamentos morais que, apesar de recentes na História, parecem estar tão entranhados na nossa corporalidade, e às vezes é inevitável que eles se presentifiquem. Um livro como “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza, faz com que essas fibras imaginárias se contorçam permanentemente, ao mesmo tempo gerando repulsa e atração no leitor. O livro de Tezza é daqueles em que se sofre a cada página, mas também é impossível parar. Não no sentido de um masoquismo vazio, mas porque é uma experiência rara a de se ver enlaçado por coisas que você não quer ouvir, e que talvez atinjam em algo parecido com seu âmago. O livro acaba de ser adaptado para os cinemas, com estréia prevista para o dia 30 de novembro, e a convite do Literasutra pude conferir o filme em primeira mão. “O Filho Eterno” é a história de um homem cujo filho tem síndrome de Down. O desvio do termo “pai” …

Antropofagia: Homem em pele de Cobra Norato

Publicado originalmente em 1931, “Cobra Norato” é considerado um dos marcos da primeira geração do Modernismo e recentemente ganhou nova edição pela Editora José Olympio. O poema épico de Raul Bopp reflete a ideologia vanguardista da época, a ânsia por “romper as amarras com o passado”, mas preocupa-se em cultivar uma essência genuinamente brasileira.

Uma Vela Para Deus

Deus está morto e Terry Eagleton é o detetive que, investigando o caso, chegou à conclusão de que [alerta de spoiler] não, não foi o Coronel Mostarda na sala de música com um castiçal. O título provocativo “A Morte de Deus na Cultura” faz uma alusão à famosa frase de Nietschi Niecthe Nietzsche, filósofo mais citado e mal interpretado por meninas de 16 anos no instagram e pintores frustrados que tentaram estabelecer o Terceiro Reich Alemão. O que me fez querer ler esse livro foi uma curiosidade um tanto cética quanto ao título: é impossível passar um dia sem ficar frustrada com algo que a bancada evangélica fez ou disse no congresso, da mesma forma que notícias sobre os conflitos entre grupos fundamentalistas religiosos no oriente médio não param de chegar. Como alguém pode afirmar que vivemos numa cultura sem religião? Já nas primeiras linhas do prefácio Eagleton esmaga meus questionamentos: “O leitor que considera a religião tediosa, irrelevante ou ofensiva não precisa se intimidar com meu título. Este livro fala menos de Deus que …

Um dia de FLUPP

“Tente apenas reproduzir os gestos dele. Você vai ouvir a história do senhor José Farias, que perdeu o filho vítima de bala perdida com 2 anos de idade há 20 anos atrás”. Me ajustam o Oculus no rosto e o fone sobre os ouvidos, e a experiência começa. Sentado no sofá de casa, olho para baixo e sou seu José. Minha pele é negra, visto uma camiseta com a foto do meu filho. Minha esposa, Penha, entra na sala e me entrega uma foto dele. Quando ergo as mãos, tateio a foto que ela me alcança, abaixo-a e a levanto, revisitando com o olhar os contornos de Maicon. Minha esposa narra toda a cena do dia em que Maicon morreu, e como o encontrei. Ela então me coloca seus tênis nas mãos, e tateio os cadarços e os vincos do solado, e posso apenas imaginar o tamanho de seu corpinho no meu colo. Nesse momento, eu, Adélia, sinto a experiência pesar, e me descolo do corpo de Seu José, num ímpeto de chorar. Porque Seu …