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Um dia de FLUPP

“Tente apenas reproduzir os gestos dele. Você vai ouvir a história do senhor José Farias, que perdeu o filho vítima de bala perdida com 2 anos de idade há 20 anos atrás”. Me ajustam o Oculus no rosto e o fone sobre os ouvidos, e a experiência começa. Sentado no sofá de casa, olho para baixo e sou seu José. Minha pele é negra, visto uma camiseta com a foto do meu filho. Minha esposa, Penha, entra na sala e me entrega uma foto dele. Quando ergo as mãos, tateio a foto que ela me alcança, abaixo-a e a levanto, revisitando com o olhar os contornos de Maicon. Minha esposa narra toda a cena do dia em que Maicon morreu, e como o encontrei. Ela então me coloca seus tênis nas mãos, e tateio os cadarços e os vincos do solado, e posso apenas imaginar o tamanho de seu corpinho no meu colo.

Nesse momento, eu, Adélia, sinto a experiência pesar, e me descolo do corpo de Seu José, num ímpeto de chorar. Porque Seu José não chora, fala calmamente na minha cabeça. Volto a mim – ou melhor, a ele – quando reproduzo seus gestos de acarinhar os próprios braços, como Maicon fazia. Corro as mãos dos cotovelos às unhas e minha pele é negra, meu corpo é homem. Então, a esposa me pega pelas mãos e me ergue do sofá. Vejo a sala de casa sob outro ângulo, chego a sentir certa vertigem, e então vamos para fora. Me vejo diante das plantas que me lembram Maicon e passo as mãos nas folhas. 

Quando visualizo a palavra “FINAL” no Oculus, e o equipamento é retirado, a respiração pesa e o coração esgarça o peito, mas ainda assim não posso ousar imaginar a dor de Seu José e Dona Penha, mesmo tendo estado em seu ponto de vista.

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“The Machine to be Another”, em tradução livre “A Máquina para ser o Outro”, é uma das atrações da Festa Literária das Periferias de 2016. A realidade virtual é utilizada para colocar o visitante no lugar de alguém cuja vida é marcada pela violência, trazendo um forte ponto a favor das tecnologias como instrumentos de conexão entre as pessoas, e não meros dispositivos de distanciamento e liquefação de vínculos, como facilmente se afirma. No entanto, encerro o dia inclinada a pensar que o cerne dessa questão ainda é a necessidade pura e simples de ver e ouvir o outro. De ser capaz de se colocar na sua pele independentemente dos recursos mais avançados da informática. Apenas estar, olhar, ouvir e sentir, mesmo que simbolicamente em um ou mais sentidos.

Participei da FLUPP como integrante da banca de pitching da produtora Film2B, que ouviu histórias de internos e ex-internos da Casa Viva, instituição vinculada ao Viva Rio, que trabalha com menores infratores. Nós nos apresentávamos como pessoas que buscam histórias, e eles nos chegavam como enigmas. Ninguém teria a ingenuidade de esperar que um primeiro encontro já fizesse emergir os mais cândidos relatos, mas ainda assim o caminho do diálogo era algo como um meio-fio entre o muito a dizer e o receio de falar. 

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Os jovens participaram de oficinas de escrita criativa na Casa Viva, e estavam ali hoje para lançar os livros que fizeram no processo. Cada um escreveu e ilustrou seu próprio livro. Uns rumam mais em direção à poesia, outros ao diário. Cada um tem sua singularidade, para além do estilo, e os textos transitam entre metáforas lúdicas e colocações objetivas. Nas nossas tentativas de rachar suas esfinges, os olhares hora se sustentavam, hora se perdiam. Os sorrisos que nos eram ofertados hora expressavam lembranças afetuosas, hora carregavam vivências trágicas. Entre o vivido no passado e o que se permitia demonstrar no agora, fizemos o possível para manifestar a eles que queremos ouvir, que há muitos que querem ouvir, e que a troca de histórias é algo que une e empodera as pessoas. “O papel e a caneta são os meus melhores amigos”, diz G. “Vai que eu tenho um futuro com esse negócio de livro”, diz J. 

Num contraste aparentemente radical, logo em seguida acompanhei um Slam Colegial, um concurso de poesias que animava a tenda ao lado. Jovens de escolas estaduais e municipais declamavam seus poemas, com fortíssimo teor político-ideológico, maestria de vocabulário e de ritmo, confiança de expressão e domínio do público. “O que separa esses jovens daqueles que acabei de ouvir?”, pensei. Afetos, instrumentos, tantas respostas possíveis. Mas então percebi que essa reflexão era um vício de pensamento. O talento, a aptidão e os conteúdos estão em todos eles. Cada um a seu modo. Nesse sentido, a diferença não é o que os separa, e sim o que os une. O que nos une. A importância gigante de fazer ouvir a própria voz, mesmo e especialmente diante daquele que parece falar outra língua. 

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Somos todos um, é o slogan da FLUPP, mas não somos idênticos. Lutamos por direitos iguais que garantam nossas liberdades enquanto diferentes. A empatia não é enxergar o outro como totalmente igual, e sim a possibilidade de vincular-se na diferença, de vivenciar simbolicamente o que nos é inacessível. Por mais que eu me veja com a pele negra em um dispositivo tecnológico, sei que quando o retiro ainda sou a mesma branca de classe média, que de cara já teve tantos privilégios e já foi poupada de tantas agruras que meros 10 minutos de imersão numa vivência diferente da minha já me levam às lágrimas, e não correspondem nem de longe à realidade da situação.

Desse dia, ficou ressonando na minha cabeça uma brincadeira fonética, evocada na apresentação da mesa de autógrafos dos menores do Casa Viva, que carrega muito da força da FLUPP enquanto uma festa literária maciçamente frequentada por jovens do ensino fundamental e médio da periferia. Um lema, um mantra, um eco:

MENOR 

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