Livro, Resenhas
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Uma Vela Para Deus

Deus está morto e Terry Eagleton é o detetive que, investigando o caso, chegou à conclusão de que [alerta de spoiler] não, não foi o Coronel Mostarda na sala de música com um castiçal. O título provocativo “A Morte de Deus na Cultura” faz uma alusão à famosa frase de Nietschi Niecthe Nietzsche, filósofo mais citado e mal interpretado por meninas de 16 anos no instagram e pintores frustrados que tentaram estabelecer o Terceiro Reich Alemão.
O que me fez querer ler esse livro foi uma curiosidade um tanto cética quanto ao título: é impossível passar um dia sem ficar frustrada com algo que a bancada evangélica fez ou disse no congresso, da mesma forma que notícias sobre os conflitos entre grupos fundamentalistas religiosos no oriente médio não param de chegar. Como alguém pode afirmar que vivemos numa cultura sem religião?
Já nas primeiras linhas do prefácio Eagleton esmaga meus questionamentos:

“O leitor que considera a religião tediosa, irrelevante ou ofensiva não precisa se intimidar com meu título. Este livro fala menos de Deus que da crise gerada por seu aparente desaparecimento. Com isso em mente, parto do Iluminismo para no fim chegar à ascensão do Islã radical e à chamada guerra ao terror. Começo mostrando de que maneira Deus sobreviveu ao racionalismo do século XVIII e concluo com seu dramático ressurgimento em nossa época supostamente sem fé. Entre outras coisas, esta narrativa tem a ver com o fato de que o ateísmo de modo algum é tão fácil quanto parece.” (página 9)

Ao longo da leitura o autor argumenta com a maestria de um esgrimista como essas aparentes provas de que Deus está vivo e vai bem, obrigado, na nossa cultura na verdade são reações diretas ao secularismo que dominou a sociedade ao longo dos últimos séculos. Usando seu amplo arsenal de fontes faz uma recapitulação da filosofia ocidental partindo dos primórdios do Iluminismo ao mundo pós 11 de setembro para traçar a história do secularismo e seus (inevitáveis) efeitos colaterais.

“A versão contemporânea da religião é o esporte. É o esporte, com seus ícones sagrados, suas tradições reverenciadas, suas solidariedades simbólicas, suas assembleias litúrgicas e seu panteão de heróis, que vem constituir o ópio do povo. É também a cultura do povo, nos dois principais sentidos da palavra: uma forma comunitária de vida, mas também uma oportunidade de exibir ou apreciar um tipo de talento artístico do qual em geral a massa dos cidadãos é em grande medida excluída.” (página 48)

Para meu alívio o autor não trata a religiosidade com desdém, então os ateus militantes que andam com livros do Richard Dawkins debaixo do braço não vão encontrar munição para usar em suas discussões online enquanto teclam furiosamente e respiram de forma pesada. Como o autor é um acadêmico (leciona Literatura nas Universidades de Lancaster e Notre Dame) sua escrita segue bastante os moldes de publicações do meio: neutra, organizada, densa e carregada de fontes e citações. É bom frisar a última parte, já que quem dormia nas aulas de Filosofia no ensino médio provavelmente vai se sentir perdido entre os nomes com várias consoantes que são metralhados em cada parágrafo.
Apesar de ser um livro curto a leitura condensada pode se mostrar desafiadora a quem não possui conhecimento básico da história da filosofia ocidental ou não está acostumado a ler textos acadêmicos. O jorro de informações e os insights incríveis que o livro provoca causam o famoso fenômeno descrito por Roland Barthes como “ler levantando a cabeça”, o que torna a leitura mais exigente ainda.
Se você quer entender como em um mundo onde andamos com aparelhos de bolso que permitem que tenhamos acesso  a todo conhecimento público que existe ainda existem pessoas que prejudicam a vida alheia porque teimam em seguir ao pé da letra textos escritos por nômades do oriente médio a milênios atrás então recomendo bastante esse livro; mas se você não possui um interesse particular por antropologia e filosofia ou simplesmente é apático à macropolítica então é melhor deixar as citações filosóficas para as legendas das fotos que tirou na sua última viagem à região dos lagos.

A Morte de Deus na Cultura
“A Morte De Deus Na Cultura”
Autor:
Terry Eagleton
Editora: Record
Páginas: 223
*Livro cedido em parceria com a editora.

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