Filme, Livro, Resenhas
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Precisamos falar sobre “O Filho Eterno”

É sempre um risco falar de maternidade e paternidade. Independente do conteúdo ou da forma, sempre paira no ar toda a carga de julgamentos morais que, apesar de recentes na História, parecem estar tão entranhados na nossa corporalidade, e às vezes é inevitável que eles se presentifiquem. Um livro como “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza, faz com que essas fibras imaginárias se contorçam permanentemente, ao mesmo tempo gerando repulsa e atração no leitor. O livro de Tezza é daqueles em que se sofre a cada página, mas também é impossível parar. Não no sentido de um masoquismo vazio, mas porque é uma experiência rara a de se ver enlaçado por coisas que você não quer ouvir, e que talvez atinjam em algo parecido com seu âmago. O livro acaba de ser adaptado para os cinemas, com estréia prevista para o dia 30 de novembro, e a convite do Literasutra pude conferir o filme em primeira mão.

“O Filho Eterno” é a história de um homem cujo filho tem síndrome de Down. O desvio do termo “pai” na frase anterior é proposital, uma vez que ter um filho não equivale a ser pai dele, tenha a criança Down ou não. O livro, inclusive, reitera a palavra “pai” como única forma de identificação do personagem, e minha leitura sobre isso é a de uma afirmação repetida do vazio daquele lugar. O personagem (no filme, Roberto) vive a dificuldade, senão impossibilidade, de ocupar esse espaço de “pai”, descrevendo de forma implacável a aversão, o desgosto e o inconveniente que a criança lhe provoca.

Não cabe aqui uma enumeração das diferenças entre livro e filme, especialmente porque em termos de narrativa, as alterações foram muito felizes. A história consegue se inscrever no tempo e no ritmo do Cinema com marcações e oscilações que, ainda que sistematizem um pouco as temporalidades mais soltas do livro, são muito eficientes.

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A força da história de “O Filho Eterno” é imensa, assim como o incômodo que causa, e ambos estão presentes na adaptação. No entanto, o filme peca no emprego dos tantos outros recursos narrativos que o Cinema proporciona. Aqui cabe uma observação: há uma estranha tendência no cinema brasileiro mainstream de aproximar a estética cinematográfica da televisiva, ao passo que a televisiva fica cada vez mais cinematográfica. Isto posto, em “O Filho Eterno” a fotografia e a decupagem parecem querer assumir um lugar neutro na história. Os enquadramentos tendem a ser muito gerais, e, portanto, pouco narrativos. Nos raros momentos em que a câmera arrisca ir além, acaba entregando demais. A fotografia, salvo alguns trechos, não comunica, não acrescenta camadas. Parece querer se isentar de qualquer posição, o que por definição é impossível em termos simbólicos, além de frustrante em termos plásticos. Se isso foi uma estratégia para “facilitar” o caminho do público ao filme, posso apenas especular, mas também afirmar que é um tiro saído pela culatra. Até a trilha musical derrapa e beira o genérico, podendo estar ao fundo qualquer drama. A dureza de “O Filho Eterno” merecia (para não dizer demandava) maior sofisticação estética.

Comentou-se bastante sobre o desafio de ter Marcos Veras, um ator de comédia, no papel principal de uma trama tão pesada. Particularmente, considerei as ambiências e a mise-en-scène mais nocivas ao desempenho de Veras do que sua bagagem cômica. De todo modo, Veras tende a permanecer num continuum disfórico muito calculado, com poucas oscilações para mais ou para menos. Nesse continuum, o personagem às vezes se perde. Não em relação à empatia do público, uma vez que de cara ela já é complicada, e sim em termos de complexificação da trajetória. Porém, em alguns momentos o ator vai mais fundo, se desequaliza, e é aí que realmente conhecemos Roberto – e acreditamos em Veras. E esses lampejos não se dão exatamente nos pontos mais óbvios da trama.

Débora Falabella, colega de cena de Veras, por vezes ameaça entrar numa semelhante constância, ainda que num tom quase oposto ao de Veras. Mas o aplainamento emocional dela tem força narrativa, é um elemento de suporte do ponto de vista de Roberto. Contribui para a sua visão de que o terrível da situação recai apenas sobre ele, enquanto sua mulher supostamente goza na sua ingenuidade.

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Apesar das ressalvas, e admito que não são poucas, “O Filho Eterno” é um filme corajoso, e filmes corajosos têm algo a acrescentar. Não é fácil contar histórias que o espectador não quer ver, expor facetas do Humano que não gostamos de admitir que sejam do Humano.

“O Filho Eterno”, na sua crueza e por vezes crueldade, dialoga com a narrativa trágica de “Precisamos falar sobre Kevin”, de Lionel Shriver. Se no livro de Tezza temos um pai que não consegue ser pai, no de Shriver temos uma mãe que não consegue ser mãe. Não estou fazendo qualquer comparação entre as crianças das histórias, até porque nenhum dos livros é sobre as crianças, ainda que os títulos o insinuem. Estou propondo a suspensão das especificidades delas, para ligar seus progenitores.

Ambos os livros, e suas respectivas adaptações cinematográficas, partem do descompasso brutal entre expectativa e realidade com relação aos filhos, que tanto marca os seus personagens. Por mais que as trajetórias e os desfechos sejam díspares, o ponto de partida é o abismo que, nos ensinam, existe em toda relação parental. No entanto, uma das facetas de ser pai ou mãe de alguém é transpor esse abismo continuamente. Ligar-se ao real, ainda que a fantasia seja uma das coisas que o alimenta. Eva (de “Kevin”) e Roberto (de “O Filho Eterno”) conseguem viver apenas na vertigem de olhar desfiladeiro abaixo.

Mas mesmo quando o amor não vem, e a ponte não se ergue, a travessia é a única chance.

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“O Filho Eterno”

Autor: Cristovão Tezza
Editora: Record
Páginas: 222
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