Mês: janeiro 2017

Tarde demais para ser odioso

Uma fala do filme “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, diz: “Há dois caminhos na vida: o da natureza e o da graça”. Imanência e transcendência, instinto e racionalidade, biologia e cultura. Dualismos à parte, muitas vezes descobrimos que os caminhos são ao mesmo tempo infinitos e ao mesmo tempo um só. “O Pescoço da Girafa”, de Judith Shalansky, traz Inge Lohmark, uma mulher de meia-idade, professora de adolescentes numa escola situada na região que pertencera à Alemanha Oriental. Inge é uma mulher aparentemente agarrada a um outro tempo, e carrega notas de desgosto em cada olhar que direciona à juventude com que convive. Suas observações percorrem um território sem fronteiras no texto, ora se está imerso no fluxo de pensamento da personagem, ora se está de fora, e há momentos em que simplesmente não é possível diferenciar. No entanto, essa melancolia amarga de quem supostamente viveu tempos melhores é apenas a superfície de Inge. O rancor da personagem se dirige a tudo: à beleza e ao sofrimento da adolescência, às demonstrações de carinho de …

A evolução de um pseudônimo – Entrevista com Lemony Snicket (e Daniel Handler)

Algumas pessoas nascem de um encontro amoroso — às vezes nem tão amoroso assim. Outras nascem de um susto, como, por exemplo, quando não podemos revelar a própria identidade e então um outro ser nos cresce na testa como que por brotamento e passa a nos seguir assim como a sombra faz com Peter Pan. Lemony Snicket, infelizmente, nasceu da segunda forma. Após toda uma vida subindo e descendo as ladeiras de San Francisco, Califórnia, Daniel Handler precisou esconder seu nome verdadeiro de um espécime da vida adulta: “E foi como uma desculpa, ou quem sabe uma anedota. Lemond Snicket simplesmente escapuliu pela minha boca”, ele conta. “Eu gostaria de pedir desculpas a vocês por todo o trauma emocional que a série possivelmente vai causar”. (SNICKET, Lemony) Se você, assim como eu, é uma daquelas pessoas comuns que participam de fóruns de artistas pelo simples prazer de se imaginar pintando uma tela, escrevendo um romance ou pulando sobre sua plateia após um show de rock, você já deve saber que uma das manias mais românticas (e irritantes) dos artistas é dizer que suas criações têm …

“Marco Archer era amigável, extrovertido e animado”, conta autora de Nevando em Bali

Há dois anos, em janeiro de 2015, os brasileiros ficaram em choque com a notícia do fuzilamento do instrutor de vôo livre Marco Archer, o Curumim, na Indonésia por tráfico de drogas. O carioca estava desde 2004 no corredor da morte e foi o primeiro ocidental a ser executado no país. A jornalista australiana Kathryn Bonella conhece a fundo essa e outras histórias de traficantes condenados no país – muitos deles brasileiros. A escritora tem três livros sobre o tema: No More Tomorrows, que fala sobre a estudante Schapelle Corby, condenada por porte de maconha; Hotel Kerobokan, que revela detalhes da famosa prisão; e, o mais recente, Nevando em Bali, que expõe o submundo das drogas na mais famosa ilha da Indonésia. Kathryn concedeu ao Literasutra uma entrevista onde falou sobre os bastidores da prisão e o processo de criação dos livros. Confira a entrevista completa: Você deixou a carreira de apresentadora de TV para fazer uma investigação sobre o submundo do crime em Bali, que resultou em três livros. O que te motivou a …