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“Marco Archer era amigável, extrovertido e animado”, conta autora de Nevando em Bali

Há dois anos, em janeiro de 2015, os brasileiros ficaram em choque com a notícia do fuzilamento do instrutor de vôo livre Marco Archer, o Curumim, na Indonésia por tráfico de drogas. O carioca estava desde 2004 no corredor da morte e foi o primeiro ocidental a ser executado no país. A jornalista australiana Kathryn Bonella conhece a fundo essa e outras histórias de traficantes condenados no país – muitos deles brasileiros. A escritora tem três livros sobre o tema: No More Tomorrows, que fala sobre a estudante Schapelle Corby, condenada por porte de maconha; Hotel Kerobokan, que revela detalhes da famosa prisão; e, o mais recente, Nevando em Bali, que expõe o submundo das drogas na mais famosa ilha da Indonésia. Kathryn concedeu ao Literasutra uma entrevista onde falou sobre os bastidores da prisão e o processo de criação dos livros. Confira a entrevista completa:

kathryn-bonellaVocê deixou a carreira de apresentadora de TV para fazer uma investigação sobre o submundo do crime em Bali, que resultou em três livros. O que te motivou a tomar essa decisão tão radical? Ter uma conterrânea presa foi o que te impulsionou?

Como uma jornalista do “60 Minutes” (popular programa de jornalismo da TV australiana) eu trabalhei em uma das maiores histórias ao redor do mundo. Mas a história sobre uma jovem australiana de 27 anos, presa no aeroporto de Denpasar, em Bali, com 4,2 quilos de maconha dentro da capa de sua prancha de bodyboard, mudou minha carreira, me transformando em uma autora best-seller. A estudante de uma escola de beleza, que jurava ser inocente, dividiu os australianos, se tornando a maior história do país. Seu veredicto, culpada e 20 anos de reclusão, foi transmitido ao vivo por todos os canais de TV da Austrália. Quando a família dela me pediu para escrever sua autobiografia, eu pedi demissão e me mudei para Bali. Qualquer jornalista teria feito o mesmo – o livro saiu dez meses depois e se tornou imediatamente número um em vendas.

Durante o processo de produção do livro, eu passei centenas de horas com a garota, Schapelle Corby na penitenciária Kerobokan, o que me levou para os meus próximos dois livros – “Hotel K”- um relato gráfico e interno do mundo bizarro e sombrio que caracteriza a penitenciária Kerobokan, em Bali, e “Nevando em Bali”- sobre os chefões ocidentais da cocaína que comandavam Bali – a maioria brasileiros.

Você ficou quanto tempo na Indonésia? Todo o seu trabalho foi feito sozinha? Alguém te ajudou?

Hotel Kerobokan (Hotel K) levou dois anos de pesquisa e produção de texto e “Nevando em Bali” levou outros 18 meses – eu fiz toda a pesquisa e as entrevistas sozinha – era necessário já que eu precisava ganhar a confiança das pessoas, para que elas que se abrissem verdadeiramente. Elas me disseram coisas que não haviam dito nem para seus melhores amigos nem para suas namoradas/esposas/amantes – Rafael, o principal chefe da droga de Bali, me disse que para ele parecia que eu era sua psiquiatra. Ele começou falando de maneira receosa, mas após alguns meses de entrevistas, ele já estava me contando detalhes extremamente gráficos sobre seus negócios no mundo da drogas e suas orgias com modelos famosas.

Foi preciso fazer centenas de entrevistas e muitas pesquisas, para que o resultado fosse um relato gráfico e preciso das vidas destes chefões da droga em Bali – “Nevando em Bali” leva o leitor direto para o interior do mundo de glamour, sexo, orgias e finais sombrios.

Mesmo com histórias parecidas de tráfico, prisão e pena de morte, os entrevistados têm suas peculiaridades. Mas  o que mais eles têm em comum além do crime?

O aspecto único sobre os traficantes de Bali é que a maioria deles são pessoas educadas, inteligentes, de boa aparência e fluentes em várias línguas – e vivem vidas incrivelmente glamourosas e hedonistas no paraíso. A outra coisa que a maioria deles tem em comum é que eles amam surfar, e foram as ondas que os levaram até Bali, e depois um desejo para se manter motivado para encontrar uma maneira rápida e relativamente fácil de conseguir dinheiro – por isso acabam tornando-se traficantes. E, com a abundante cocaína à venda no Brasil, esta foi a direção óbvia.

Aos poucos, a maioria destes caras perdeu o contato com surf, se envolveu de maneira mais íntima na vida hedonista e milionária de Bali: orgias, festas, viagens e uso de drogas.

Muitos traficantes vêm de uma família com boas condições financeiras. O que faz com que eles larguem tudo para arriscarem a vida na Indonésia?

A maioria vem de famílias de classe média alta, com uma boa educação – mas para viver nesse mundo, ainda requer um trabalho de nove às cinco, uma rotina – eles vêem isso como arrastar uma corrente diariamente. Aqueles que eu entrevistei para ‘Nevando em Bali’ detestam o sentimento de estarem presos na rotina, querem cortar o aprisionamento de trabalhar de nove às cinco e viver livremente – esquiando, surfando, festejando. Poucos empregos podem pagar esse tipo de liberdade, mas o tráfico de drogas pode. A ironia é que a maioria dos traficantes eventualmente é presa e acaba com muito menos liberdade do que uma pessoa comum.

Como você chegou aos entrevistados do livro “Nevando em Bali”, como os brasileiros Marco Archer e  Rodrigo Gularte? Você esteve com eles quantas vezes? Como foram esses encontros?

Eu conheci o Marco Archer, o Curumim, quando eu estava visitando outro brasileiro que estava preso na mesma penitenciária, enquanto pesquisava para “Hotel K”, o meu segundo livro. Marco fez um almoço para mim, e era um cara incrivelmente engraçado – alguém fácil de se conectar. Quando eu comecei a pesquisar para “Nevando em Bali”, eu já sabia bastante sobre sua história da prisão em Jakarta com quilos de cocaína, então eu perguntei se ele podia me contar sua história. Ele ficou entusiasmado, eu acho que eu dei a ele algo para fazer, além do fato dele adorar reviver seus dias de “glória” como traficante. Eu encontrei várias vezes com ele durante sua prisão, e falava com ele com frequência por telefone. Rodrigo Gularte, que eu também conheci na penitenciária, ele estava muito mal, parecia cansado e doente, e não estava lavando suas roupas, cuidando de si próprio. Era impossível não lamentar por sua situação.

curumimMesmo à beira da morte, Curumim não deixava o bom humor de lado. O que ele dizia sobre estar no corredor da morte? Ele acreditava que teria uma salvação porque o governo da Indonésia nunca tinha executado ocidentais e ele já estava há dez anos preso?

Marco tinha uma grande personalidade, era amigável, extrovertido e animado – ele fazia almoço para mim e ria bastante. Ele me disse que iria para o Rio algum dia – que ele não seria executado, por que o governo da Indonésia nunca havia executado um ocidental, e também por conta de uma forte oposição internacional. Eu também achava que não havia muita chance dele ser executado – mas depois de 12 anos no corredor da morte, um novo presidente fez a execução acontecer rapidamente.

Há relatos de que Gularte tinha transtornos mentais por causa do trauma da prisão. Como era o comportamento do brasileiro?

Ele estava claramente depressivo e não estava em um bom estado mental – Marco me disse que nem banho ele tomava e me disseram que ele passava boa parte de seu tempo chorando nos fundos da igreja – foi lá aonde eu o vi pela primeira vez.

Entrevistar pessoas que só esperam a hora de morrer deve ser bem difícil. Alguma vez você se viu chorando com as histórias que te contavam?

Não, eu não fiquei emocionada. Mas é claro que eu fiquei triste quando eles foram executados.

Qual foi seu sentimento quando alguns dos seus entrevistados foram brutalmente assassinados? Você tinha esperança que a situação fosse revertida?

Pelas mesmas razões que o Marco achou que não seria executado, eu acreditava que ele morreria velhinho na prisão. A Indonésia nunca havia executado um ocidental, e houve muita oposição internacional. Mas o fim veio rápido após 12 lentos anos no corredor da morte.

Você recebeu algum tipo de ameaça por denunciar a corrupção nas prisões em seu livro?

Não, mas eu entrei para lista negra do Hotel K (ela não tem mais autorização para entrar no presídio).

Você pretende continuar mergulhando nesse tema ou você acredita que já tenha completado o ciclo e é hora de buscar novos ares? Qual será o próximo projeto?

Eu amo entrevistar pessoas que têm histórias incríveis para contar. Este é o privilégio de ser jornalista, ter pessoas confidenciando para você histórias que eles não contaram nem para os seus parentes e amigos mais íntimos – e com isso vem a responsabilidade de contar bem suas histórias. É a minha paixão encontrar e escrever histórias atraentes e reais. Eu sempre farei isso, mas não necessariamente sobre drogas. Eu estou trabalhando em um novo livro no momento, mas não revelarei o assunto até eu terminar.

nevando_em_bali-livro
“Nevando em Bali”

Autora: Kathryn Bonella
Páginas: 368

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