Livro, Resenhas
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Tarde demais para ser odioso

Uma fala do filme “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, diz: “Há dois caminhos na vida: o da natureza e o da graça”. Imanência e transcendência, instinto e racionalidade, biologia e cultura. Dualismos à parte, muitas vezes descobrimos que os caminhos são ao mesmo tempo infinitos e ao mesmo tempo um só. “O Pescoço da Girafa”, de Judith Shalansky, traz Inge Lohmark, uma mulher de meia-idade, professora de adolescentes numa escola situada na região que pertencera à Alemanha Oriental. Inge é uma mulher aparentemente agarrada a um outro tempo, e carrega notas de desgosto em cada olhar que direciona à juventude com que convive. Suas observações percorrem um território sem fronteiras no texto, ora se está imerso no fluxo de pensamento da personagem, ora se está de fora, e há momentos em que simplesmente não é possível diferenciar.

No entanto, essa melancolia amarga de quem supostamente viveu tempos melhores é apenas a superfície de Inge. O rancor da personagem se dirige a tudo: à beleza e ao sofrimento da adolescência, às demonstrações de carinho de jovens e de adultos, aos seus colegas de trabalho que transitam duramente pelos novos tempos e aos que procuram lubrificar seus caminhos. A todo momento, o fluxo de Inge recorre ao vocabulário e à dinâmica da biologia evolutiva. Tudo no olhar da personagem está sujeito a uma metódica comparação de eficiência e funcionalidade tendo a sobrevivência crua como único parâmetro.

Duas leituras são possíveis diante das colocações ásperas de Inge: uma delas é a do humor negro e cínico; a outra, a minha, foi de uma frigidez generalizada diante da vida. Sem dúvida, na mão de um bom diretor chegado a altas doses de auto-depreciação, Inge poderia ganhar nuances perturbadoramente cômicas, mas no contato direto com a palavra, sem o elemento humano (que, inclusive, a autora se esforça para afastar), foi difícil não rolar os olhos e soltar o ar com força em muitos momentos. Não se enganem, o livro é excelente. Vamos deixar isso explicitado aqui. Mas o vetor do texto é pra baixo, é pro chão. A edição é pontuada por belíssimas ilustrações de animais e plantas, um respiro fundamental para suportar a presença de Inge Lohmark, pois nada lhe escapa. Nada é poupado. Tudo está no seu alvo, para ser decomposto e analisado até deixar de existir.

As narrativas tradicionais talvez nos tenham acostumado a esperar transformações na trajetória das personagens. Algum momento de quebra de padrão que aponte para a resolução de um conflito interno profundo que centrifugue suas motivações. Esse conforto da expectativa de mudança é sacodido por personagens-monolito como Inge Lohmark. Em alguns momentos é possível, sim, enxergar através dela, e ver que muito do que engrossa essa tinta disfórica está calcado no desejo. Porém, Inge não se redime. Não amolece. Permanece até as últimas páginas jogando dardos nos olhos dos amantes. Sempre colocando a humanidade e tudo que nela se fez possível em comparação a organismos simples, animais selvagens ou plantas centenárias, em virtude de um olhar que finca a existência num mero sobreviver.

A ironia mais arrebatadora em “O Pescoço da Girafa” é a completa e absoluta omissão ao acaso como fator crucial da roda da evolução, que a personagem tanto preza. Despida a vida na Terra das ideologias, dos desejos, das sofisticações simbólicas, das drásticas modificações ambientais que toda e qualquer presença causa, o elemento fundamental de toda vida que conhecemos não é bem o que Inge valoriza, mas o que ela ignora. Até mesmo na elaboração sobre o que dá título ao livro, o pescoço da girafa, Inge escorrega num discurso sobre esforço e mérito que mostra o quão estanque é sua existência.

Com a cabeça a dois metros do coração, a girafa poderia ser uma metáfora para Inge Lohmark. Mas isso seria ceder a um dos mais ingênuos dualismos: o que separa a razão dos afetos.

Quem já leu outras postagens minhas no Literasutra sabe que não descosturo o livro do momento da vida em que ele se insere. Isso numa resenha acadêmica talvez seja considerado um erro, mas o que eu faço aqui não é crítica literária, é compartilhar uma experiência de leitura. Há personagens pelos quais nos apaixonamos. Há personagens que nos inspiram. Inge Lohmark é uma com quem eu gostaria de brigar. E briguei, o livro inteiro. Pois esse é um momento perigoso no mundo para se embarcar em discursos decompositores e esvaziadores.

Qualquer um que já tenha visto uma girafa sabe bem que natureza e graça são um só, e nosso privilégio de sapiens sapiens é poder perceber isso. Que não esqueçamos.

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“O Pescoço da Girafa”

Autora: Judith Shalansky
Editora: Alfaguara
Páginas: 232
*Livro cedido em parceria com a editora.

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