Experimentos, Literatura
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Eu não sou uma fracassada, eu tenho ansiedade

Eu tenho ansiedade, e ser ansiosa é diferente de ter ansiedade. “Ser ansiosa” serve para quando você quer impressionar numa entrevista de emprego e dizer que é dinâmica e faz as coisas bem rápido. Mas “ter ansiedade” é uma coisa completamente diferente. Por exemplo, eu tenho ansiedade mas não sou ansiosa. Contraditório? Pra caramba. Eu preferia que fosse o contrário.

Ansiedade é uma doença. “Isso é transtorno de ansiedade”, o médico vai dizer pra você. E a partir daí você vai ter um nome para todos os seus momentos de insônia, falta de ar, apertos no peito, enjôo intenso (ou fome interminável). E vai descobrir que o cardiologista não tem nada a ver com esse seu coração que, de repente, acha que precisa bater os batuques de toda uma vida em um único segundo.

“Você, sendo você, é a melhor pessoa para se enganar e também a melhor para cair na sua própria enganação como um patinho.”

Se você for como eu (e eu recomendo que nesse caso você seja), você vai procurar um psicólogo. E vai passar um bom tempo fazendo isso, porque psicólogo é como a sua melhor amiga: nem todas as pessoas servem para o cargo. Se você tiver a minha sorte, já na sua segunda tentativa você vai encontrar alguém tão maravilhosa como a que eu encontrei. E então você vai aprender a controlar a sua respiração, a movimentar o corpo de formas que te fazem relaxar, a desviar o seu pensamento para outras coisas. Depois de um tempo você se sentir mestra nisso, vai se sentir poderosa e inclusive começar a ensinar aos seus amigos todos os truques que aprendeu. Mas vai chegar um momento em que isso vai mudar.

Se você for como eu (e nesse caso eu desejo muito que não seja), vai se sentir forte o suficiente para deixar de ir à psicóloga. E qual seria o problema disso, já que você agora consegue controlar todos os seus sintomas? Então as coisas vão começar a piorar. Aqui e ali você vai abandonar os seus projetos no meio — ideias, sonhos, vontades, faculdade, curso de inglês, qualquer coisa. E é importante dizer que existe uma grande diferença entre abandonar coisas porque você deixou de acreditar nelas e abandoná-las porque você não acredita em si mesma. É difícil perceber essa diferença, mas se você for como eu o seu motivo na maior parte das vezes claramente será o segundo — claramente para quem estiver de fora, e não para você. Porque você, sendo você, é a melhor pessoa para se enganar e também a melhor para cair na sua própria enganação como um patinho.

“Existe uma grande diferença entre abandonar coisas porque você deixou de acreditar nelas e abandoná-las porque você não acredita em si mesma.”

Isso tudo porque a ansiedade é muito mais complexa do que você imaginou a princípio. E, sendo uma coisa assim tão complexa, é muito difícil vencer sozinha. Os sintomas físicos são só uma parte. Mas baixa autoestima, procrastinação, falta de concentração, irritação… Surpresa! Tudo isso existe em você por causa da ansiedade! Você não é uma pessoa preguiçosa, você tem ansiedade. Você não é burra, você tem ansiedade. Você não está com problemas de memória, você tem ansiedade. Você não é uma pessoa grossa de pavio curto, você tem ansiedade. Até os medos irracionais entram nessa lista: medo de ser atropelada na calçada, medo de dobrar o braço enquanto faz exame de sangue, medo de ser comida pelo tubarão durante a aula de natação (numa piscina). Esses são medos reais, eu não os inventei. Eles já me fizeram chorar e quase me afogar (no caso da piscina, porque não dá pra se afogar numa clínica).

Se você for como eu, algumas pessoas e circunstâncias da vida podem fazer você se sentir uma fracassada. Mas você não é uma fracassada, você tem ansiedade. Eu não sou uma fracassada, eu tenho ansiedade.

E ansiedade dá pra resolver.

*Imagem: Esra Roise.

Este post foi publicado em: Experimentos, Literatura
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Espécime da safra de 89. Recentemente descobriu que não consegue escolher uma coisa só, então alterna a vida profissional entre as funções de jornalista e fotógrafa. Criou o projeto fotográfico "Uma Pessoa Por Dia", onde consegue mesclar as duas coisas.

11 comentários

  1. triste viu?
    acho que sofro desse mal…algumas pessoas me indicaram psicologo ou terapia, pq claramente -segundo elas – eu tô com alguma coisa, porque não é normal agir – ou deixar de – como venho fazendo há ANOS.

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    • Val, terapia/psicóloga é um adianto ENORME na vida da gente. Procure alguém com quem você consiga se identificar, vale muito a pena! Todas as pessoas deveriam fazer terapia, não só quem tem algum “problema”. Pq todo mundo tem questões mal resolvidas. Beijo!

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    • Nina, também é muito importante saber que a gente não está sozinha. Uma das coisas que mais levei tempo pra aprender foi justamente isso. A gente não precisa guardar tudo só pra gente. Desde que tenham pessoas por perto nas quais a gente confie, a gente pode (e deve) trocar experiências. Aprender sozinha leva anos, aprender em conjunto leva menos tempo. 😉

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