Mês: março 2017

Os prazeres que a dor me traz

Já faz muito tempo que não choro enquanto minha mãe passa merthiolate no meu joelho ralado. Primeiro porque eu não ralo o joelho há muito tempo; segundo porque, mesmo que ralasse, eu mesma faria o curativo e merthiolate não arde mais. Em outras palavras, já fazia muito tempo que eu não tinha um machucado que fica doendo por vários dias (cólicas menstruais não entram no pacote). Até que, depois de muita procrastinação, eu tomei a vacina contra a febre amarela. Era uma sala pequena de pouco espaço para muita gente. Três enfermeiras na triagem, três pessoas sentadas apreensivas na frente delas, dois adultos sem função definida mas que mesmo assim conversavam muito alto a respeito do jogo Flamengo e Vasco, duas mães e um pai com seus respectivos filhos que gritavam muito alto a respeito das seringas que dois enfermeiros preparavam. E eu. Eu estava tranquila, apesar de confusa com o barulho. Depois que as crianças saíram, e ainda bem que saíram, eu estendi o meu braço e fui vacinada. Resultado: é sempre bom saber que você já pode viajar sem medo de pegar febre …

“As Primeiras Quinze Vidas de Harry August” ou Como Viajar no Tempo Sem Querer Querendo

“As Primeiras Quinze Vidas de Harry August” não poderia ter um título mais autoexplicativo. Dizer que são as primeiras implica na existência de próximas e é exatamente isso que acontece no livro. O protagonista e narrador é Harry, um rapaz que nasceu fruto de estupro e que perdeu a mãe no momento de seu nascimento – 1 de Janeiro de 1919. Foi criado por pais adotivos em uma família relativamente pobre. Depois de viver como uma pessoa comum nas mesmas condições – combater na Segunda Guerra Mundial, trabalhar na terra como um empregado e morrer em 1989, no dia da Queda do Muro de Berlim – Harry acorda para um novo ciclo da mesma vida. Ele é um bebê que vê o mundo com olhos de um adulto de 70 anos e aos 3 recupera todas as memórias da vida passada. Como você reagiria se isso acontecesse? Bem, Harry nos explica que há 3 etapas na vida de um kalachakra: rejeição, exploração e aceitação. E veremos todas elas neste livro. Você pode estar se perguntando …

O triângulo isósceles-amoroso de “The Kiss of Deception”

Na minha lista de “piores clichês do mundo literário”, o triângulo amoroso está em segundo lugar. Em primeiro está o romance forçado, aquele que gera beijos demorados no meio de uma perseguição zumbi, porque aparentemente os zumbis respeitam o amor. Mas o assunto desse texto são os triângulos amorosos. Especificamente o de “The Kiss of Deception”, primeiro volume  das Crônicas de Amor e Ódio. Escrita pela californiana Mary E. Pearson, a história ganhou reconhecimento da crítica especializada e dos leitores, e não sem merecer: mesmo partindo de um plot clichê, a autora desenvolveu a narrativa de uma forma que não somente surpreende o leitor, mas também passa mensagens muito necessárias.

Duas adaptações para Dois Irmãos: Entrevista com Milton Hatoum

Yaqub e Omar, gêmeos protagonistas de uma vida de rivalidades: eis o plot de “Dois Irmãos”. Vencedor de um prêmio Jabuti e pai de duas adaptações, o romance de Milton Hatoum foi lançado há 17 anos e hoje é considerado um clássico da literatura brasileira. Em entrevista exclusiva ao Literasutra, o autor comentou sobre a minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho e exibida recentemente na TV Globo: “Para mim ela foi um filme de arte na tevê, um filme longuíssimo, esteticamente ousado, com uma forte dimensão dramática e histórica”. Esta não foi a primeira vez que o livro inspirou outras obras. Em 2015, assinado por Fabio Moon e Gabriel Bá, “Dois Irmãos” gerou uma HQ ganhadora de 2 prêmios na categoria  de “melhor adaptação de outros meios”; mesmo assim, Hatoum corrige: “O mais correto seria chamar estas adaptações de ‘reinvenções em outras linguagens’. Eles desenvolveram um estilo, uma forma de narrar muito pessoal. Buscaram isso em obras muito sofisticadas. Por exemplo, o livro em quadrinhos Daytripper (de Fabio Moon e Gabriel Bá) e o filme Lavoura Arcaica (de Luiz Fernando Carvalho) são exemplos notáveis”. “O mais …

Quando o filme é melhor do que o livro

Costumamos ter como máxima que livros são sempre melhores do que suas adaptações cinematográficas. Parece ser ponto pacífico que nos seus originais literários as histórias encontrem uma realização mais complexa, mais total. Inclusive, muito se argumenta em favor do formato do audiovisual seriado, por ser um tempo-espaço onde uma trama consegue se desenvolver com um ritmo em tese mais aprofundado do que o clássico longa-metragem. Mas ainda assim, mesmo nesse território, adaptações costumam ganhar a fama de versões pioradas de livros. Este definitivamente não é o caso de “A Menina Que Tinha Dons”. O livro de M.R. Carey nos traz a história de Melanie, uma criança da segunda geração de um mundo infectado por um fungo que desencadeou o apocalipse zumbi, aqui chamados de “famintos”. A segunda geração contaminada apresenta as funções mentais preservadas, e inclusive Melanie é algo como uma superdotada, extremamente inteligente e plenamente capaz de nutrir afeto, o que a coloca numa luta interna com seus instintos bestiais. Um grupo de crianças é mantido numa base militar sob rígida rotina de confinamento, …