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Quando o filme é melhor do que o livro

Costumamos ter como máxima que livros são sempre melhores do que suas adaptações cinematográficas. Parece ser ponto pacífico que nos seus originais literários as histórias encontrem uma realização mais complexa, mais total. Inclusive, muito se argumenta em favor do formato do audiovisual seriado, por ser um tempo-espaço onde uma trama consegue se desenvolver com um ritmo em tese mais aprofundado do que o clássico longa-metragem. Mas ainda assim, mesmo nesse território, adaptações costumam ganhar a fama de versões pioradas de livros. Este definitivamente não é o caso de “A Menina Que Tinha Dons”.

a_menina_que_tinha_dons_1411999395bO livro de M.R. Carey nos traz a história de Melanie, uma criança da segunda geração de um mundo infectado por um fungo que desencadeou o apocalipse zumbi, aqui chamados de “famintos”. A segunda geração contaminada apresenta as funções mentais preservadas, e inclusive Melanie é algo como uma superdotada, extremamente inteligente e plenamente capaz de nutrir afeto, o que a coloca numa luta interna com seus instintos bestiais. Um grupo de crianças é mantido numa base militar sob rígida rotina de confinamento, constrição corporal e higienização, na qual são monitorados por uma médica, Dra. Caldwell, que busca desvendar o código de comportamento do fungo para um dia chegar à cura da pandemia. As crianças também têm aulas diárias, como numa escola tradicional, onde permanecem amarradas da cabeça aos pés a cadeiras de rodas, para proteger os adultos não-infectados. As aulas são uma maneira de, acima de tudo, monitorar as capacidades cognitivas das crianças. No entanto, uma psicóloga e professora, Helen, costuma ler mitologia e literatura para a turma, instigando sua criatividade e pensamento abstrato. Por Helen, a protagonista Melanie sente um carinho filial, correspondido, e é nessa interação que os dilemas da história se sustentam.

De cara, a premissa já anuncia uma abordagem dessa temática distópica que traz elementos frescos a um modelo de narrativa às vezes repetitivo. Só que o filme é mais eficiente em todos os aspectos do storytelling. O longa depura muito bem as informações e conflitos apresentados no livro, destila as múltiplas camadas numa dinâmica imagética precisa e comovente, além de resolver muitas coisas que no livro ficam soltas ou gratuitas.

Antes de qualquer análise mais profunda, é preciso admitir que “A Menina…” é um livro que está inserido numa cultura de entretenimento que se calca numa linguagem, numa estrutura e num ritmo que não almejam fazer nenhum manifesto literário, obter prestígio acadêmico ou algo assim. O que interessa ao leitor/espectador é como a história se desenvolve, como as peças se encaixam e como esse encaixe o surpreende e o faz se emocionar e refletir sobre o que leu/viu. Não interessa muito se o autor floreia o texto, ou lança mão de técnicas específicas de engajamento. Isto posto, é preciso dizer: o livro é inconstante e muito mal escrito.

Há momentos de metáforas surpreendentes e trechos em que as motivações dos personagens aparentam se sustentar em fundamentos sólidos, porém esses são picos raros e esparsos nas 382 páginas de “A Menina…” O texto tem um foco excessivamente descritivo e explicativo, pontuado por construções frasais e quebras de linha visando “efeito dramático” que são de revirar os olhos. Muitas vezes, na escrita de um roteiro, a quebra de linha em uma descrição é feita com o intuito de sugerir decupagem, ou destacar um elemento. Mas isso é um instrumento da escrita para a tela, que corre sério risco de ficar tosco quando aplicado à prosa.

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E é aí que vem o plot-twist: o roteirista do filme é o próprio autor do livro. Carey tem no currículo os roteiros de quadrinhos como Lucifer, Hellblazer e X Men. De fato, a história de “A Menina” tem uma essência muito imagética, um apelo visual que se imprime instantaneamente na tela. No seu trabalho de adaptação, Carey consegue chegar ao cerne de sua distopia de forma envolvente e muito mais sofisticada do que na sua literatura. É como se as peças do quebra-cabeça fossem rearranjadas e tivesse as arestas aparadas, o que fortalece sua estrutura e potencializa a narrativa. O filme comunica visualmente com impacto, tem diálogos bem modulados, as informações são liberadas de maneira equilibrada e, ao final, avassaladora.

Há outros pontos que sustentam minha confiança de que o longa-metragem é “A Menina” em tudo que ela tem de melhor a oferecer, e compartilho a seguir. Como vi o filme primeiro, foi uma espécie de engenharia reversa. Mas, para aprofundar a comparação, spoilers são inevitáveis. Então só prossiga com a leitura estando ciente disso!

[ALERTA DE SPOILERS literários e fílmicos]

Em termos de estrutura, o livro busca aprofundar todos os personagens no que diz respeito a histórico, memórias e pensamentos. Em determinados trechos, é como se cada capítulo alternasse o ponto de vista e a perspectiva emocional dos integrantes da trama, algo que remete a “As Crônicas de Gelo e Fogo”, por exemplo. Nesse esforço, porém, o autor despende tempo e energia demais sobre elementos que parecem retardar a história ao invés de avançá-la, não oferecendo muito mais do que entrega gratuita de motivações.

É enriquecedor para a experiência não entender tudo sobre todo mundo, não saber necessariamente por que um personagem age daquela forma, evitando, assim, transitar por um labirinto de histórias pregressas que são evocadas com propósitos puramente explicativos.

O filme é sagaz ao se concentrar no que realmente move o espectador/leitor: a relação entre Melanie e a professora Helen, toda a carga de afeto primordial e apego que transita ali, apesar de todos os pesares. Não precisamos que Helen tenha acidentalmente atropelado uma criança anos antes para entender seu carinho por Melanie. Da maneira que isso se constrói no livro, é como se Helen fosse movida mais pela culpa do que pelo vínculo. Isso é muito mais fraco do que a espontaneidade da ligação das duas no longa. Todas as atuações estão embebidas dos backgrounds dos personagens, mas não os carregam por aí como neons na testa, muito menos fazem grandes revelações em momentos previsivelmente catárticos, o que deixa tudo mais instigante e converge a empatia do público para o que realmente está se tentando elaborar.

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Uma outra diferença importante é que, no livro, há grupos de humanos sobreviventes que vivem independentes da força militar, chamados de “lixeiros”, e são eles que provocam o acidente na base que propulsiona toda a acentuação da trama, colocando Melanie, Helen, a Dra. Caldwell e dois militares numa luta pela sobrevivência marcada pela convivência forçada. Já na versão adaptada, isso é provocado pela invasão de uma horda massiva de famintos. A existência dos “lixeiros” é perfeitamente verossímil, faz todo sentido que haja grupos humanos desvinculados da restrita organização militar disputando recursos e território. Entretanto, isso acaba sendo um fio solto no livro. É bem apresentado, mas só aparece para cumprir uma função catalisadora de eventos, ao invés de realmente estar engendrado na dinâmica de conflitos. O filme mantém as coisas objetivas: somos nós versus eles, e eles são os famintos. Ponto.

Na versão original, a Dra. Caroline Caldwell é não só mais vilanesca (com direito a jaleco branco, salto alto e batom vermelho) como também não tem a relação com Melanie que é apresentada no filme. Na versão cinematográfica, as duas têm uma interação frequente e rica em ambiguidades; no livro isso é meramente maniqueísta. O filme tem sucesso ao estabelecer esse vínculo agridoce entre as duas e brincar com o jogo de predador e presa no qual as posições são alternadas. O maior acréscimo da adaptação à personagem da médica é sua admiração e cumplicidade para com Melanie, ao invés de vê-la como mera cobaia. Isso, somado ao respeito que Melanie tem por ela, faz com que o embate final entre as duas seja um dos momentos mais sublimes do filme, todo calcado em sutilezas das atrizes, que transmitem a bagagem particular daquela interação.

Mas a diferença mais crucial diz respeito à maneira que cada versão trabalha a personagem de Melanie. No livro, Melanie permanece boa parte do tempo meio que à mercê das decisões tomadas, sem manifestar tão veementemente sua personalidade, e seus conflitos são vividos de forma muito internalizada e passiva, até que no final ela dá uma virada repentina. No longa, ela é assumidamente protagonista, e transita pelas angústias e intempéries de um lugar narrativamente ativo. Isso não só reforça o caráter especial da menina em meio às demais pessoas, tanto crianças quanto adultos, como também estabelece uma base sólida para quando ela gloriosamente assume as rédeas da História – com H maiúsculo mesmo.

a_menina_que_tinha_dons_1411999395b“A Menina que tinha dons”
Autor: M.R. Carey
Editora: Fábrica 231
Páginas: 384

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