Livro, Resenhas
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“As Primeiras Quinze Vidas de Harry August” ou Como Viajar no Tempo Sem Querer Querendo

As Primeiras Quinze Vidas de Harry August” não poderia ter um título mais autoexplicativo. Dizer que são as primeiras implica na existência de próximas e é exatamente isso que acontece no livro. O protagonista e narrador é Harry, um rapaz que nasceu fruto de estupro e que perdeu a mãe no momento de seu nascimento – 1 de Janeiro de 1919. Foi criado por pais adotivos em uma família relativamente pobre. Depois de viver como uma pessoa comum nas mesmas condições – combater na Segunda Guerra Mundial, trabalhar na terra como um empregado e morrer em 1989, no dia da Queda do Muro de Berlim – Harry acorda para um novo ciclo da mesma vida.

Ele é um bebê que vê o mundo com olhos de um adulto de 70 anos e aos 3 recupera todas as memórias da vida passada. Como você reagiria se isso acontecesse? Bem, Harry nos explica que há 3 etapas na vida de um kalachakra: rejeição, exploração e aceitação. E veremos todas elas neste livro. Você pode estar se perguntando o que é um kalachakra. De acordo com o Google, é “um termo em sânscrito usado no budismo tântrico que literalmente significa ‘tempo-ciclo'”. Neste livro, são pessoas que nascem e morrem e renascem para viver a mesma vida. Sim, Harry não é um floquinho de neve, existem mais como ele. Estes seres resolvem se juntar e formar o Clube Cronus, para auxiliar uns aos outros e transmitir mensagens do futuro para o passado e vice-versa. Um outro objetivo, é tentar manter os acontecimentos com o mínimo de variação possível. Você não pode matar Hitler nem impedir que alguém importante morra, porque essas mudanças afetariam de maneira drástica o futuro, impedindo o nascimento de outros kalachakras e talvez até causando o fim do mundo.

“Ouroboros”, o símbolo da eternidade.

E é nesse ponto que a narrativa vai se desenvolver. Harry está em seu leito de morte, na 11ª vida, quando uma garotinha lhe comunica que o mundo está acabando e que agora é a vez dele de tentar descobrir quem está fazendo isso e porquê. Durante o livro vamos acompanhar Harry em diversos momentos de sua vida e a investigação para descobrir o que está acontecendo. Temos um antagonista muito interessante, que eu não vou contar quem é porque ele só é revelado bem adiante e poderia estragar o momento para alguns leitores, mas adianto que esse livro não é nem um pouco maniqueísta. Não há mal absoluto, não tem vilões  desalmados que querem destruir o universo.

“Concluí que a minha vida seguinte seria o caos.”
(p.318)

É fácil se perder na leitura por conta das digressões feitas pelo narrador para justificar determinadas reações. Em alguns momentos me peguei tentando entender em que vida ele estava, porque o personagem X havia morrido ou usava um nome diferente. A origem dos kalachakra também não é explicada e nem parece ser intenção da autora fazê-lo. Entendi que ela pode querer revisitar esse univeso em um próximo livro e talvez, só então, a origem deles seja abordada. Alguns capítulos são desnecessariamente curtos e poderiam ser editados em um único capítulo mais redondo. A parte científica também deixa a desejar, pois muitas coisas são deixadas no ar, como se fossem de conhecimento geral, quando não são. Isso pode se dever a falta de conhecimento da escritora a respeito dos assuntos tratados. Não saberia afirmar com certeza. No todo, esse parágrafo seria as minhas críticas negativas. E nenhuma delas me impediu de dar cinco estrelas pra esse livro.

O texto é envolvente e flui muito bem. É aquele tipo de livro que você não quer parar de ler e também não quer que acabe. A autora soube desenvolver bem as personagens principais e trabalhar com fatos históricos. O conceito é interessante e a simbologia também. Em vários momentos, os kalachakra são chamados de ouroboros (e esse símbolo também aparece representando o Clube Cronus), que é aquela figura da cobra comendo o próprio rabo, podendo simbolizar o ciclo da vida, o infinito, a mudança, o tempo, a evolução, a fecundação, o nascimento, a morte, a ressurreição, a criação, a destruição, ou a renovação. Consigo ver todas as interpretações no texto.

Se ainda não te convenci a ler, esse livro ganhou o o John W. Campbell Award de melhor ficção científica em 2015 e foi um dos finalistas do prêmio Arthur C. Clarke. Catherine Webb escreve sob o pseudônimo Claire North para ficção científica, mas já escreveu outros romances de literatura fantástica sob Kate Griffin. E seu primeiro livro, “Mirror Dreams”, foi escrito quando ela tinha apenas 14 anos!


“As Primeiras Quinze Vidas de Harry August”
Autora:  Claire North
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 448

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