Experimentos, Literatura
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Os prazeres que a dor me traz

Já faz muito tempo que não choro enquanto minha mãe passa merthiolate no meu joelho ralado. Primeiro porque eu não ralo o joelho há muito tempo; segundo porque, mesmo que ralasse, eu mesma faria o curativo e merthiolate não arde mais. Em outras palavras, já fazia muito tempo que eu não tinha um machucado que fica doendo por vários dias (cólicas menstruais não entram no pacote). Até que, depois de muita procrastinação, eu tomei a vacina contra a febre amarela.

Era uma sala pequena de pouco espaço para muita gente. Três enfermeiras na triagem, três pessoas sentadas apreensivas na frente delas, dois adultos sem função definida mas que mesmo assim conversavam muito alto a respeito do jogo Flamengo e Vasco, duas mães e um pai com seus respectivos filhos que gritavam muito alto a respeito das seringas que dois enfermeiros preparavam. E eu. Eu estava tranquila, apesar de confusa com o barulho.

Depois que as crianças saíram, e ainda bem que saíram, eu estendi o meu braço e fui vacinada. Resultado: é sempre bom saber que você já pode viajar sem medo de pegar febre amarela, mesmo que isso não passe de uma compensação ilusória já que você (se estiver em situação financeira semelhante à minha) não concretizará viagem nenhuma. Aliás, o meu braço está doendo, e isso me faz lembrar de que eu gostaria de dar um recado especial para a mulher que me apontou para a filha e disse:

“Viu, amor? Não dói! A menina tá tomando vacina sozinha e não tá chorando!”

Para essa mulher eu preciso dizer que o meu braço está doendo, sim. Até agora. E eu tenho 27 anos, moça, que isso.

E daí aqui estou eu, segurando uma compressa de gelo sobre o braço esquerdo e refletindo sobre a vida… Será que se eu malhasse as pessoas deixariam de pensar que sou adolescente? E isso que eu estou sentindo em relação à dor do meu braço é prazer?

Há muito tempo eu não tenho um machucado que dói por vários dias, provavelmente desde a infância. Agindo como psicanalista de mim mesma, eu aposto (psicanalistas apostam? Talvez seja melhor dizer “eu deduzo”) que esse prazer nasce de alguma lembrança nostálgica recôndita de quando eu era criança e meu joelho ralado (geralmente o direito) conseguia 90% da atenção e dedicação da minha mãe no processo de passar merthiolate e assoprar pra parar de arder. Os outros 10% da atenção geralmente eram para um feijão no fogo.

Resultado: A saudade da infância é tanta que até a dor faz a gente se lembrar dela.

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Espécime da safra de 89. Recentemente descobriu que não consegue escolher uma coisa só, então alterna a vida profissional entre as funções de jornalista e fotógrafa. Criou o projeto fotográfico "Uma Pessoa Por Dia", onde consegue mesclar as duas coisas.

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